quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A festa de Natal

Finalmente os dias que antecediam o grande acontecimento pareciam ser livres de nervosismos, à roda de uma festa que, pela primeira vez, teve uma preparação com momentos de profunda falta de inspiração mas que, em 4 semanas, ganhou forma e ocupou espaço nos nossos dias.

Também pela primeira vez se pensou "Algum dia, estes nervos teriam de desaparecer, com o tempo, com a prática..." - era este ano, o nono. De certezinha.

Mas depois vieram os pesadelos noturnos, vindos da profunda coisa estranha que todos somos e aonde não conseguimos chegar facilmente. O inconsciente dá um arzinho de sua graça e chama-nos para um sonho onde as músicas desapareceram do computador da escola na hora h, no dia seguinte para outro que nos põe em palco cedo demais sem que tivéssemos treinado vez alguma, e para um terceiro - um estranho terceiro - no qual estamos num autocarro com crianças e pais, à procura de um local onde possamos fazer a festa... e claro que nunca lá chegamos. Consciente tranquilo. (Era este ano que a sabedoria dos mais velhos se confirmava e a coisa ia custar muito menos.)

Dia 10. Uma hora e meia antes. (Qual tranquilidade.)

É aqui que tudo começa.

Vê-se, com muita força, o corpo completamente mergulhado em nervos, lê-se aos alunos para que a própria professora desvie a sua atenção do terrível período de espera, a porta está fechada e, de cada vez que se abre, tudo fica parado porque ai-meu-Deus-que-é-agora, mas afinal ainda não é, e "Ó professora, não mostrou a imagem desse capítulo", e "O Pinóquio, o Gato, a Raposa, os dobrões de ouro, a taberna do caranguejo encarnado, o Grilo Falante", e a turma E saiu da sala (já só faltam duas atuações para a nossa), mas será que já começaram?, e voltamos ao Pinóquio, e "Professora, caiu-me a cauda", e dizem que estão nervosos, e digo que não é necessário porque o último ensaio (nessa manhã) correu mal que se fartou (diz-se que é bom presságio).

A turma E chega à sala e ai-meu-Deus-que-é-agora, e a vigilante abre a porta e diz que é mesmo, e mando calar porque vamos estar nos balneários (onde qualquer barulho se ouve no palco), e chegamos, e a festa anterior vai acabar agora (mas afinal ainda não), e vai acabar agora (afinal também não é já), "Ai Pipa, que estou nervosa", "Ai querida, vai tudo correr bem, eu cá não tenho nervos nenhuns" - e juro que o corpo me treme porque há nervos e não são poucos.

Depois o momento que mais ansiávamos está a um abrir de cortinas de acontecer. Últimas considerações, sorrisos e palavras de calma (calma...). "Estejam atentos às músicas".

O enormérrimo acontecimento parece durar bem menos que os 15 minutos programados, e depois acaba e... O quê?! Já foi???

E a professora não faz ideia se correu bem, se correu mal, se correu assim-assim, porque parte da vida dos 26 girou à volta desse momento nos últimos dias, e a professora não saiu da música porque não queria que os alunos dependessem de a ver para serem autónomos em palco, e voltamos à sala, e o alívio não vem porque os nervos foram desmedidos e ainda não fazem o corpo crer que já passou. E não interessa a fala da raposa à qual faltou uma frase inteira, não interessam as crianças que falaram rápido demais e que às vezes nem deixaram que se percebessem algumas palavras, não interessa o grupo de animais que estava distraído e não entrou no tempo certo, nem interessam as personagens que disseram as últimas palavras já completamente fora do microfone (tal como não interessam os milhares de vezes em que lhes disse que não o fizessem), nem os alunos que se baixaram ou levantaram na onda cedo demais, nem...

E os pais dizem que correu bem - mas dizem sempre porque ficam babados só de ver os seus mais que tudo atuarem, e não conseguimos medir se o tamanho dos "parabéns" é diferente dos dos  anos anteriores, e...

Respira fundo, professora.

E vamos, calmamente, ao que interessa!

Hoje, dia 10, posso dizer que rebento de orgulho pelo que cada um dos meus alunos queridos fez em cima do palco. Foi com uma felicidade imensa que assisti à desinibição dos naturalmente tímidos, à expressividade com que cada um se entregou à personagem que escolheu ter e à forma feliz como viveram mais uma memória que hoje construímos juntos.

A certeza do dia: a de que cada um deu, sem dúvida, o seu melhor!