sábado, 3 de setembro de 2011

O miúdo do forte


Um pé. Outro pé. As duas pernas, até ao joelho. A água estava agradável e o atirar-me lá para dentro tornou-se eminente. Quando aconteceu, a preguiça de nadar e a vontade de entrar na história do senhor Sommer tornaram aquele banho numa dúzia de braçadas.
De saída, compus o rabo de cavalo e, da  cadeira da piscina, levantei a fita do cabelo, que evita o escaldão no risco.
É agora que reparo em ti.
Deves ter uns oito anos, vestes uma t-shirt verde e, se estás de calções de banho mas não estás a nadar é porque a tua digestão vai a meio. Reparo em ti porque estás a brincar sozinho e isso é uma coisa que não vejo todos os dias. Sobretudo porque não tens uma Nintendo DS ou uma PSP nas mãos. Mas, ainda assim, estás longe daqui, como ficam os meninos da tua idade, quando estão petrificados nos videojogos.
Gostava de saber onde estás.
És um miúdo curioso por aquilo que tens na tua mão: um borrifador, que ainda por cima condiz com o tom da tua camisola. O que terás aí dentro, miúdo? O que é que espalhas pelas paredes, pelo chão, por todo esse muro ao cimo das escadas onde acabas de deitar uma espreguiçadeira a fazer de portão?
Desceste, desapareceste por momentos e voltaste não sei vindo de onde. Estás de volta ao teu forte, ou castelo, ou navio... o que quer que seja esse lugar que a tua imaginação construiu aí em cima.
Não sei onde foste buscar essa fita de obras, às riscas encarnadas e brancas, que engenhosamente prendeste aos braços da espreguiçadeira, com os nós que daqui a uns anos já não saberás fazer - quando fores demasiado grande para te lembrares do que era sonhar.
Prendeste, também, uma pequena mesa de plástico à entrada só tua e, enquanto te empenhavas no teu mundo, vieste ao meu e olhaste para mim. O teu olhar diz-me que estás receoso que um adulto vá aí roubar-te um pedaço do teu abrigo. Muitas crianças como tu habituaram-se a isso depressa, até só lhes restar o mundo dos jogos eletrónicos.
Não te conheço, nunca te tinha visto, não sei nada sobre ti a não ser que és original e que podias ensinar muita gente a brincar como tu.
Com agilidade, saltas o muro pela segunda vez, e pela segunda vez desapareces.
Onde andas, miúdo?
Fechaste uma zona pública do condomínio, fizeste lá o teu sossego e, provavelmente, andas pelo jardim grande demais, que por esta altura talvez já seja a tua floresta cheia de animais fofinhos ou o planeta da tua aventura espacial, cheio de extraterrestres furiosos aos quais o teu borrifador demonstra que não tens medo.
Não te conheço e, no entanto, gosto de ti.
Durante o meu banho seguinte, apareces acompanhado de um menino e duas meninas. Ele traz uma pistola de água vulgar e elas trazem ideias menos criativas para as tuas brincadeiras: convencem-te a trocares o teu portão para uma simples fita, atada entre duas espreguiçadeiras. Cedes facilmente, como quem está habituado a ter de sonhar mais baixo. Não devias ser assim, sabes?
Não simpatizo com o teu amigo mas não me recordo porquê. O mais provável é que já me tenha feito levantar a sobrancelha e ensinar-lhe que não se salta para a piscina, ao pé das pessoas que estão sentadas na borda. É um passatempo que tenho, quando estou a amadurecer a ideia de dar um mergulho... Ainda assim, confesso que prefiro esse teu amigo àqueles dois de seis e oito anos, que decidiram fazer uma piscina só deles, trazendo água dentro da boca e cuspindo-a para o chão. Uma e outra vez. Terei mencionado que esta brincadeira decorreu em frente à mãe? E que, quanto terminou, eles decidiram abrir os recipientes de cloro que estão à volta da piscina?
Tentaste explicar ao teu amigo que ainda não era a hora de ir buscar os guarda-sóis à sala das arrumações, porque os moradores ainda estão a usar a piscina. Mas voltaste a ceder e ambos estão a montar dois deles, no teu forte.
Gostava mais de ti quando estavas sozinho.
O resto da tarde começou a aquecer, e eu percebi-o quando me acordaste de uma sesta, porque berravas, repetidamente,  "Uma laranja na cabeça de uma pessoa pode matá-la!". Pelo que percebi, tu e o teu amigo colecionaram laranjas por amadurecer e o tal rapazinho de seis anos que, antes, estivera a tirar água da piscina com a boca, invadiu o teu forte e estava a atacar-vos. Era o único que tinha os pais na piscina do condomínio.
Ao que parece, o teu amigo provocou-o bastante, inclusivamente arremessando a toalha dele não sei para onde, o que fez o pai dele encher-se de autoridade e ralhar com o teu amigo, dizendo-lhe que fosse procurar a toalha e a trouxesse. 
Esse teu amigo, o tal com quem eu embirro, provavelmente porque um dia me molhou...
Esse teu amigo, que se virou para o senhor e lhe disse, com ar de desprezo, de cima do teu forte e de baixo dos seus dez anos, "Já ouvi, não sou surdo!".
O rapazito da toalha rouba-vos as laranjas e gritas, do teu castelo, "Come-as todas e morre! Essas laranjas foram envenenadas!". A irmã dele, a jogar dos dois lados, devolve-tas e, daí a pouco, continuam a atirar-se laranjas, atraindo, desta vez, a mãe das crianças.
É agora que tu... bem, que tu pulverizas a senhora, com o teu borrifador!
Rio-me para dentro porque ela merecia: embirrou contigo desde o início, quando o teu amigo é que fez os disparates e o filho dela é que vos foi chatear; e porque hoje não foi a primeira vez que a vi a ignorar o comportamento dos próprios filhos!
De repente, eu estava a estudar o comportamento humano, a ver como ela te gritava que não tem a tua idade e que, por isso, não admite que a borrifes, e como, no minuto seguinte, o filho de seis anos lhe ria na cara e atirava laranjas para vocês, quando ela o mandava sair de ao pé de ti e tu o borrifavas por trás dela.
Até que há o momento em que o teu amigo, de lá de cima, atira uma laranja e, azar dos azares, ela não chega até onde ele queria e explode a meio caminho. Precisamente na minha cadeira.
(Se espremesses laranjas para o teu borrifador e depois premisses o "manípulo" para cima de mim, duvido que o efeito fosse muito diferente daquele que o teu amigo conseguiu.)
Aí, ele fica aflito e já não era o rapaz que grita a um adulto "não sou surdo"... Desfaz-se em mil desculpas.
É a isto que eu chamo "aura de professora".
Chamei-o e sabia que ele viria. Veio, a pedir desculpas, mandei-o sentar à minha frente.
Sentou-se. Acho que as professoras não conseguem deixar de o ser.
Apresentei-me e, quando me preparava para o discurso, ele interrompeu para me dizer que já me conhecia e não era, afinal, por me ter molhado. Não foi a mim que o teu amigo incomodou... mas sim aos meus alunos! Viagem de finalistas. O aluno com pior comportamento da escola que frequenta...
Vieste ouvir a conversa, queixaste-te dos outros, dos pais deles a defenderem o que é seu e pude elogiar a tua brincadeira e dizer-te que fora uma pena ter-se transformado naquilo.
Gostei de me ter cruzado contigo, espero que penses no que vos disse.
E, miúdo, não deixes que as pessoas te obriguem a crescer depressa demais.