A idade que eu tinha no dia em que decidi que a Joana seria a minha melhor amiga enchia os dedos todos de uma mão e poucos da outra. Não sei quantos.
A Joana era, desde cedo, a aluna que todos queriam ter: a perfeição na caligrafia e havia uma enorme facilidade na forma como aprendia. Era a amiga de quase todos os recreios, das brincadeiras mais imaginativas e dos segredos mais bem guardados.
A nossa história começa na creche, continua no colégio e acaba num dia qualquer, sem que tenhamos dado conta disso. Mas talvez por ter sido tão comprida - comprida no quanto teve de momentos felizes e despreocupados - tenha ficado tão bem gravada...
Havia as festas de aniversário da Joana, nas quais eu dedicava sempre algum tempo a tentar compreender como era possível que se utilizassem cenouras para fazer um bolo; o famoso bolo de cenoura caseiro, que nos deixava sempre de água na boca. E depois havia o frango. Ninguém punha frango na mesa de um aniversário, e eu achava que aquilo era o máximo! Era mesmo!
Dormimos umas quantas vezes em casa uma da outra, adaptando as brincadeiras ao tempo que já passara, do início ao final da história. Começámos por ser mães de quantos bebés tínhamos no quarto, aos poucos tornámo-nos professoras de todos eles e, de repente, estávamos num pinhal, do outro lado da rua dela, a elaborar o mapa de um tesouro.
No dia em que a luz faltou e eu lá tinha ido dormir, éramos quatro: as duas, a mãe, a tia. Era de noite mas ainda não era hora de dormir. Lembro-me de não termos idade para tal mas há uma foto, cá dentro guardada, de cada uma com seu biberão de leite com chocolate, ao colo da mãe e da tia. Foi um segredo só nosso, para os nossos colegas.
Naquela altura, não havia preocupações e o futuro traçá-mo-lo nós: os nossos filhos iriam brincar juntos e ter-nos-iam como madrinhas. Os nossos maridos seriam os maiores amigos um do outro. Iríamos combinar, todos, muitas coisas juntos.
E, depois, a vida fez das suas e nós não demos conta.
