quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Fui“ passear”!!

Hoje, fiz uma coisa e não me orgulho de ter sido a primeira vez, num período grande. Fui passear a pé na minha zona…
O conceito de passear, defeito meu, transformou-se há uns tempos numa ideia de chegar a algum local específico com um determinado objetivo, mas curtindo o percurso. Não é andar sem rumo. Passei mais tempo a pensar “Mas passear até onde? Em que momento alcanço o que quero e volto para trás?”, do que a sair e arriscar. Até aqui, nunca estabelecera qualquer objetivo que estivesse por perto e, como tal, nunca fui “passear”. Resumindo e confundindo: queria escolher um local como objetivo, mas não conhecia local algum por cá; queria algum local para conhecer, mas não o podia estabelecer como objetivo; queria passear para conhecer e, simultaneamente, conhecer para passear!!!
Eis senão quando, há uns dias atrás, numas boleias que dei a uma colega, cruzou-se uma pastelaria no meu caminho, ainda por cima com bom aspeto! Ficou-me.
E, hoje, filho de dois desejos, nasceu o procurado objetivo! Vejamos: desejo de comer um bolo + desejo de apanhar com o sol brutal que lá estava fora = a tal pastelaria.
Chegando a casa, largo o acessório e levo o essencial: chaves e euros. Saí de imediato e, tanto quanto me lembrava, era só andar até chegar a uma igreja, que a pastelaria ficava mesmo ali perto.
Numa perspetiva assustadoramente diferente da que tenho quando vou recostada no meu carro, chego à igreja e, passando ao lado dela, estou numa avenida com ar de principal, larga e com muito movimento.
Agora, era só continuar o percurso, indo pelo lado esquerdo da igreja. Foi nesta altura que o cenário mudou e eu achei um mimo os estabelecimentos de comércio tradicional, embora não tão mimosos os produtos. Estou a lembrar-me, por exemplo, daquelas lojas de roupa às quais os donos dão o nome de uma mulher, com montras de manequins que são uma monstruosidade, piores ainda, por estarem vestidos com as roupas da própria loja; das sapatarias que calçam todos os velhotes e crianças da zona, mais as pobres senhoras de meia-idade que olham ao espelho e – verdadeiro mistério – acham que ficam maravilhosas com aquilo nos pés; da loja de flores artificiais que, à légua, se vê claramente estarem a desrespeitar as flores naturais, sendo um verdadeiro atentado à beleza de muitas delas; da padaria, com uma fila de clientes a começar no passeio e com um cheirinho perigoso a sair para fora; das lojas de móveis que há alguns duzentos anos que têm os mesmos móveis, no mesmo lugar, na mesma crença de que, alguma vez, alguém quererá ter tal coisa em sua casa; das tabacarias que, mesmo abarrotando de jornais e de revistas, ainda encontram criatividade para pendurar serpentinas e perucas; daquela porta de vidro que por cima diz "Centro Comercial" e que esconde uma retrosaria minúscula, um cabeleireiro com 3 cadeiras e 3 espelhos, uma loja não identificada e duas fechadas; da “tradicionalíssima” loja de chineses.
Parei.
Nesta entrega total ao lado esquerdo e direito da rua, à leitura de papéis de fantásticas promoções (muita coisa, nem oferecida eu quereria), às placas das lojas que me faziam pensar “Quanto tempo já terá?”, ao vazio que se instalara no meu estômago, senti que algo estranho se passava.
Ora bem… a tal pastelaria era mesmo ali, mesmo pertinho da igreja. Mas, desde que eu atingira a igreja, já estava a ver lojas a mais!
Sim.
Pois.
Ora bolas… não era para o lado esquerdo da igreja! Toca a voltar tudo para trás, depois de fazer a triste figura de me rir sozinha.
Quando, finalmente, volto a ver a igreja, fiz uma triste descoberta. A tal pastelaria estava na rua que desembocava mesmo ali. Era só atravessar.
Entrei.
De fora, parecia mais convidativa, confesso, mas esqueci-me quando chegou o palmier – cujo recheio era mesmo doce de ovos e não aquele creme foleiro, amarelo fluorescente, com sabor a supermercado, que às vezes tenho a infelicidade de provar – e o café ganhou!
Já satisfeita, de objetivo cumprido, chega o momento do regresso.
É curioso… de casa à igreja, não tinha reparado que fui sempre a descer mas, a cada passo que dei, da igreja até minha casa, reparei que vinha a subir. E que subida!
 
Por fim, estou em pleno sofá mega confortável, com uma tremenda canseira da minha caminhada… É que eu, hoje, fui “passear”!