quinta-feira, 26 de março de 2009

Cruza. Não descruza.

É raríssima a vez em que a diretora chama. No outro dia chamou, enquanto eu almoçava.



Há pessoas assim... que se cruzam na nossa vida e, depois, nunca mais se descruzam. Era uma dessas pessoas, que me queria ver.
Aqui há uns incríveis 15 ou 16 anos, havia um grande senhor que trabalhava com o colégio. Tinha lá o seu papel e lidava muito connosco. Havia uma maneira especial de interagir com a nossa infância e era adorado por todos. Era grande - grande de tamanho, grande de coração - e dava-nos toda a atenção do mundo. Tinha uma cara de miúdo indefeso e era incrível como isso contrastava com tudo o que tinha para nos dar. Cedo seguiu um rumo que o fez ficar entre parêntesis na minha vida. Saiu do colégio e eu nunca mais me esqueci dele nem do mimo que me ofereceu naqueles tempos do meu 1º Ciclo. É curioso como facilmente reavivo o meu profundo carinho por toda a personagem.

Aqui há tempos, em Setembro, foram-nos apresentados os novos elementos da Prática , com quem acabamos por trabalhar também. Eram quase todos já "da casa", à exceção de um senhor alto e sério que se sentara atrás, quando todos estavam à frente. Quando o seu nome foi dito e toda aquela multidão se virou para trás, esboçou um tímido sorriso e penso que não disse nada. Há aqueles momentos "Conheço esta cara. Não. Deve ser impressão minha." e eu tive nesse dia, e noutro, noutro. Cada vez olhava mais para ele, mas havia um motivo óbvio para eu não o conseguir confirmar como quem eu pensava que era.
Um dia, com uma colega dele que me é grande amiga, acabei por ter a conversa que me levou as dúvidas: o mundo é minúsculo.

Esse senhor alto e sério, que esboçara o sorriso tímido, era, afinal, o grande senhor com a mesma cara de miúdo indefeso que tinha nos seus vinte e poucos anos anos. A forma como nos voltámos a cruzar foi magnífica e a vida tem estas voltas que nos sabem tão bem! Foi com uma ternura imensa que tive essa certeza, que voltei a olhar para ele e a recordar pequenos grandes momentos - sobretudo aquela atenção que ele nos dedicava de alma e coração. E foi com a mesma ternura - e uma timidez que me obriguei a controlar - que me dirigi a ele, num dia de reunião, após uma profunda "meditação" sobre a melhor forma de lhe dizer o que se entalou de repente. É fácil dizer aos outros como terceiras pessoas nos marcaram... mas aos próprios...

Disse o que queria, sobretudo a ideia de ter sido muito marcada na infância e de nunca me ter esquecido. Não me arrependi e fiquei muito feliz... sobretudo porque ele também.

Fiquei toda derretida, então, quando foi à escola e me mandou chamar para me cumprimentar. Admiro-o muito e ao percurso de vida que agora sei que teve. Adoro-o!

E adoro quem hoje me surpreendeu. Nos tempos licenciatura, era a nossa Barbie. Já o era diariamente mas, naquele dia do sapatinho de salto alto com o laçarote, foi-o a 100% e nunca mais deixou de o ser. Escondia-se por detrás de uma timidez que tentava controlar mas que, tímida por natureza, lhe apanhei na hora. Foi maravilhosa no dia em que nos contou que havia alguém que só sabia dizer que as crianças precisam de "muit'amor, muit'amor, muit'amor". Distraiu-se e, naquele momento, deixou a timidez de parte. Rimo-nos para sempre com a expressividade!
Identificava-me com as suas "teorias" e com ela aprendi muito... Sempre a chamei de "P gigante". P de Professora... GIGANTE por razões óbvias.

E, porque tem família naquela escola, hoje fez como o querido senhor com cara de miúdo e mandou chamar-me.

Como são importantes estas pessoas que nos mimam assim! Pessoas grandes que nos fazem sentir grandes! Que povoam as nossas vidas... vão e vêm, estão sempre por perto.

Cruzam e não descruzam mais.

(É nessa altura que o coração aperta e a coragem necessita de empurrões de lucidez. A lucidez do costume que veio em Setembro. Para ficar.)