segunda-feira, 18 de julho de 2011

O menino e o coração



Um dia, um menino acordou doente e foi ao médico. O médico disse-lhe que ele nada tinha e mandou-o para casa. Mas o menino sabia que estava doente.
No caminho para casa, pousou-lhe uma gaivota ao lado e disse-lhe um segredo. O menino não respondeu. Limitou-se a acenar com a cabeça, em jeito de quem concorda. E ela prosseguiu o seu caminho. A gaivota sabia bem o que se passava com ele.
Uma sensação de frio percorreu o pescoço do menino e foi aí que ele decidiu ir até a um lugar que o fazia sentir-se sempre quentinho: a praia.
Descalçou os sapatos, sentou-se na areia e enterrou, nela, as suas mãos. Pousou os olhos na espuma das ondas e deixou que o cheirinho do mar entrasse pelas suas narinas, como que espalhando-se, de seguida, por todo o corpo. Sempre que se entregava, assim, àquele lugar, era capaz de jurar que o tempo parava. E, pensava ele, talvez isso viesse a trazer a cura para deixar de estar doente.
Não se sabe quanto tempo passou até o menino dar conta da gaivota, poisada de pé, sobre a areia, mesmo ao seu lado.
- Eu tinha razão, não tinha? - perguntou ela.
Não era um menino de grandes respostas, por isso, mais uma vez, limitou-se a abanar a cabeça, concordando.
Mas era um menino de grandes perguntas...
- Como é que podemos arrumar o nosso coração, quando ele está tão desarrumado? - perguntou.
- Tenho uma amiga que te pode ajudar a encontrar a resposta. Repara naquele ponto, entre aquelas duas nuvens...
- Estou a ver. O que é?
- Volta aqui mais logo, quando o Sol tiver adormecido e o cantar das ondas do mar soar como os grilos.
E assim foi.
Tal como combinado, o menino e a gaivota encontraram-se naquele mesmo local, sob a luz da Lua e acompanhados pelo som do mar. E, no céu, aquele pontinho era agora uma estrela reluzente.
- Anda, sobe para as minhas costas - convidou a gaivota, baixando-se.
O menino nunca vira a gaivota antes daquele dia, mas sabia que podia confiar nela. E subiu.
Como que abraçados por uma onda suave, o menino e a gaivota levantaram vôo, em direção à estrela. Uma brisa doce começou a envolvê-los, conforme se iam aproximando do seu destino.
Em silêncio, a gaivota pousou o menino num dos braços da estrela e deixou-os a sós.
- Estás doente - disse a estrela ao menino. - E precisas de ajuda.
- Sim.
- Tens o coração desarrumado e não sabes como o arrumar.
- Sim.
- E queres fazer muitas perguntas...
- Qual é o tamanho do vazio do meu coração?
- Isso depende do quanto o deixares esvaziar...
- Durante quanto tempo me vou sentir tão doente?
- O tempo que demorares a construir um sorriso...
- Se eu sei que o meu amigo foi viver para um lugar que é o melhor para nós, porque é que isso não chega para me fazer sorrir?
- Porque não basta saber. Tens de acreditar.
- E o que é que eu devo fazer para me sentir preenchido, em dias como o de hoje, quando só sinto e vejo vazio?
- Tens de usar o teu coração e trazer a magia das boas recordações. Ora experimenta... Pensa naquele banquinho só vosso, em cima do mar. Pensa no quentinho que vos envolvia e no conforto que vos prendia ali.
Ao longo de todo este dia, nunca o menino esboçara um sorriso. E também não fora agora que o fizera. Pelo contrário. Uma pequena lágrima, semelhante a uma pérola, rolou-lhe pela bochecha.
- Não está a resultar - disse ele. - Esta é uma boa recordação, não me deveria fazer chorar.
- Não estás a perceber - respondeu-lhe, calmamente, a estrela. - Quando as boas recordações nos fazem chorar, chamamos-lhe de saudade. E a saudade é a certeza de que aqueles momentos foram felizes mas que, por alguma razão, acabaram e não se estão a repetir. Talvez nunca se repitam. E é assim que nos tornamos mágicos: que pegamos nesses momentos confortáveis e quentinhos, e os trazemos ao Presente.
- Mas eu tive tantos, tantos, tantos momentos desses... E se alguns deles não ficaram bem guardados?
Todos temos uma caixinha mágica, na qual estão protegidos os melhores sentimentos, as melhores emoções, e as melhores histórias. Chama-se coração, tem uma capacidade dez vezes maior que a vida de cada um, e são poucas as pessoas que confiam na força dele. Tu vais ser mais uma dessas pessoas...
Sem o menino perceber como, pareceu-lhe sentir os pés molhados. Ao olhá-los, viu-se deitado na areia da praia. Encostado a si, adormecida, estava a gaivota e, no céu, naquele seu lugar, estava a estrela. Fechou os olhos, pensou nas palavras que ouvira, e foi à caixinha mágica buscar aquele banquinho, daquele dia. Tirou de lá, também, aquele sentimento de conforto e umas fotografias de sorrisos que não se lembrava de ter captado tão bem. Pensou. Sentiu.
De repente, estava a sorrir.