domingo, 16 de janeiro de 2011

Cabo Verde, Dez./2010

Faço a mala no dia anterior. Junto coisas nas quais não tenho mexido ultimamente: t-shirts, vestidos de praia, biquínis e protector solar. A mala vem de véspera, para empacotar tudo e ter tempo de rever mil vezes a lista mental do que tenho de levar.

Cabo Verde é um destino que me é desconhecido e o que me atrai, inicialmente, é uma questão meteorológica. Essa, sim, deixa-me num êxtase controlado, ao longo de todo o pré-viagem.

Avisam-me, constantemente, que é um destino diferente daquilo a que estou habituada, que não há muito para fazer e respondo que é isso que me deixa tão feliz e entusiasmada desta vez. Também é por isso que comprei quatro livros e os arrumei na mala.

“Quatro livros? Achas mesmo que consegues?”

“Não tenho qualquer dúvida.”

Há que não esquecer que passei uma semana na Turquia e que, no penúltimo dia, terminei o terceiro e último livro que levara. Penso, então, que tenho um historial compatível com a minha premonição.

Posso, entretanto, referir que o meu jeito infantil de lidar com aeroportos e aviões, embora de forma contida, mantém-se também uma razão para a minha paixão por viagens. Era capaz de passar um dia inteiro a uma janela, a ver os aviões descolarem e aterrarem em frente ao meu nariz. Contudo, hoje, quando ficamos mais próximos da pista para o embarque, a intensidade da luz já é maior no interior que no exterior, e, portanto, eu vejo-me melhor a mim do que vejo qualquer avião do outro lado do vidro.

Tal como ver os aviões, andar neles provoca-me o mesmo tipo de sentimentos, sobretudo quando nos elevamos e quando regressamos ao solo. A velocidade que o avião atinge para levantar voo, e que nos empurra contra as costas do banco, como uma mão invisível, bem como a pista, as casas e os carros a ficarem cada vez mais diminutos, deixam-me sempre com vontade de repetir tudo outra vez. E, à chegada, gosto particularmente do momento do impacto – do mais perfeito e deslizante, ao menos suave, que faz o trem de aterragem saltitar uma ou duas vezes no asfalto. Mais que isto não, ou eu passaria a ter medo de andar de avião.

Sempre disse que tudo o que é muito maior do que eu me fascina; tudo quanto seja, no mínimo, vinte vezes maior do eu (e agora começava a conversa dos tornados, do filme “Twister” e de como, se eu fosse americana, me dedicaria à caça destes).

Estava a falar da viagem, não era…?

Chego ao aeroporto e noto logo duas coisas que não constam dos meus registos anteriores: primeiro, há pouquíssima gente, pelo facto de estarmos a 25 de Dezembro – só por isso, e mais uma coisa, valeu a pena que o voo tivesse esta pontaria certeira. A outra coisa nada comum para mim são os enfeites de Natal pendurados em locais que costumam ser apenas um grande e feio conjunto de partículas de… ar.

Depois do costume feito de forma pouco costume – o check-in do costume, sem as filas do costume; o detector de metais do costume, sem a multidão do costume; a free shop do costume, sem um extenso mar de cabeças entre os expositores – a zona dos restaurantes. Não previra que alguns estabelecimentos pudessem estar fechados. Ok que é dia de Natal, mas eu não estou num centro comercial! Estou num aeroporto e, se um aeroporto não fecha no Natal, não percebo por que motivo fecham coisas no seu interior. Ainda se tivessem deixado o Mc Donalds aberto… talvez eu não tivesse reparado se as restantes portas estavam trancadas ou não.

Ele vai à janela. Rendo-me facilmente nessa discussão, porque: a) ele tem razão quando diz que eu vou sempre; b) ele propõe ir à janela e oferecer-me o lugar no regresso e… a partida foi após o pôr-do-sol, enquanto a saída de Cabo Verde tem luz do sol garantida.

Se há coisa que me desagrada e me irrita sempre, a cada viagem, é o tempo que uma pessoa passa na fila para mostrar o passaporte, quando acaba de aterrar. Esta vez não foi uma excepção, foi o mesmo de sempre. Apenas sem o stress de pensar a tempo inteiro na minha mala, pois eu via-a, da fila, a rodar no tapete. Por mais fé que tenha (e tenho) na forma como elas são encaminhadas, tenho sempre receio que alguém se distraia e a leve como se fosse sua. Ou que não se distraia, confesso, e a leve mesmo porque sim. Tomara medidas de precaução, desta vez, à conta desse meu stress. Tinha, em casa, dois autocolantes grandes. Não tinham destino anunciado e estavam guardados há tempo demais. Desta feita, achei que colá-los de um lado e do outro da mala me ajudaria a detectá-la a uma distância maior, bem como ajudaria qualquer viajante a perceber: a) que aquela mala não lhe pertence; b) que se tentasse fugir com ela, o dono a poderia detectar ao longe com grande facilidade.

Às vezes acho que sou maluca, mas não somos todos? Eu explico…

Começo, nessa manhã, a ler um livro cuja personagem central é um rapaz de dezoito anos com Síndrome de Asperger. Já conheci muitas crianças assim, já fiz um trabalho de licenciatura com um e já fui professora de outro. Sempre me fascinou a forma como cada um preenche, ponto por ponto, todos os tópicos de uma lista de características, apenas com diferentes intensidades. Por isso, o livro tinha a seu favor o facto de, à partida, pelo menos um dos temas me ser extremamente apelativo.

À medida que o leio, fico absolutamente envolvida nas descrições que as personagens fazem sobre algumas situações do dia-a-dia desta espécie de autismo. Porque, embora as personagens e a história sejam fictícias, não tenho qualquer dúvida de que a autora fez um trabalho pré-livro incrivelmente profundo.

E é aqui que começo a pensar em todos nós que aqui andamos: começo a encontrar características obsessivas compulsivas em todo o lado, pensamentos que escondemos e que achamos que a ninguém devemos partilhar, sem nunca pensarmos que, ao nosso lado, há sempre alguém que faz e pensa o mesmo ou pior do que nós. Pelo menos, é o que espero quando me pergunto se é um sinal de loucura encher uma mala de autocolantes, para que ninguém a não ser eu lhe toque… ou quando cumpro rituais de verificação de esquentadores, aquecedores e ferros de engomar… ou… É melhor parar por aqui, pois pode ser que os “sintomas” da loucura incluam pensar que toda a gente é louca, quando não é; que toda a gente tem rituais que, pensados a fundo, são estúpidos e não acrescentam nada à vida de cada um… quando não tem.

Às vezes, apetecia-me escrever um livro.

Cabo Verde… é de noite, não vejo nada. O caminho é numa camioneta mais velha do que eu, mas é isto que torna estas experiências mais genuínas. A paisagem é, tanto quanto me apercebo, plana e desértica. Acho graça ao facto das placas de sinalização serem iguais às que temos em Portugal.

Cerca de quinze minutos depois, estamos no nosso resort. Começo a sonhar com o quarto porque: a) Sou doida por quartos de hotel; b) Já passa da meia-noite e as viagens esgotam as pessoas.

Primeiro, antes de me entregar aos lençóis, e depois de avaliar o quarto em 8, numa escala de 1 a 10, vou com ele à discoteca. Vou porque só queria ter a certeza de que não ia gostar de lá estar. Convém, de vez em quando, renovar os meus votos de “Odeio discotecas”, pois há sempre alguém que pergunta “Ai é? Mas há quanto tempo não vais a uma, para poderes dizer isso?”. Pronto, já fui, e posso continuar a dizer o mesmo, pois é verdade. E, como posso ser considerada louca, aqui vai a explicação: a) a música está sempre num volume que me provoca arrepios no coração e um terramoto nos pulmões; b) não percebo a piada de ir com pessoas amigas a um sítio onde não se pode conversar. Se eu fosse escritora, uma das minhas personagens acrescentaria: c) a maioria das pessoas fica a balançar-se de um lado para o outro, numa coisa que parece mais um acesso de autismo do que uma dança, propriamente dita; d) o tique do copo na mão, com uma bebida alcoólica, lembra-me bêbedos e eu sou alérgica ao convívio com pessoas cujo estado de consciência esteja alterado, por menor que seja a diferença.

Cama.

De manhã, acordo a pensar que finalmente vou ver onde estou! Estou há 10 horas num local e não tenho a mínima noção de como ele é. É bonito… O resort é cor de areia, está no meio da areia e tem a praia à frente, que também tem areia. (Nada de piadas… já passei uma semana num resort brutal de Porto de Galinhas, com uma praia de calhaus à frente.)

Tomo o pequeno-almoço num daqueles meus cenários de hotel favoritos: metros e metros de pratos, cestos e tijelas, todos a abarrotar de todo o tipo de coisa de que nos lembraríamos e não nos lembraríamos de comer. O difícil, claro está, é escolher. E ser prudente… não quero incendiar um croissant na torradeira, como fiz na Madeira.

Vou para a praia… ah, praia! E é nesta altura que começo uma batalha intra-cérebro: o meu corpo recusa-se a acreditar que é dia 26 de Dezembro, que estou em biquíni, prestes a entrar no mar… em plenas férias de Natal. Estou constantemente a repetir “Dezembro”, mas por vezes esqueço-me, apesar de normalmente, quando estou fora do meu país, estar a pensar em como será a minha nova turma. Desta vez não tenho turma nova, apenas muitas saudades daquela que é a minha… E falando em turma, sou por vezes assaltada por pensamentos que não posso ter em Cabo Verde, como tudo o que tenho de fazer logo na primeira semana de Janeiro, ou o facto de eu ter-me prometido agarrar a tese de uma vez por todas.

Avanço páginas e páginas no meu livro de leitura do momento – ainda não referi que se chama “No seu mundo”, embora, pela primeira vez, a água e o protector solar das minhas pernas tenham feito desaparecer o título da capa. Estou absolutamente afogada na história do Jacob e da sua família. E recomendo-a vivamente.

Passo o dia na praia, com pausa para o buffet de almoço e para a constatação de que a piscina não me agrada – à partida nunca a prefiro à praia, mas esta, em especial, não me atraiu. A cor do mar desfaz-se num degradê, de cá para lá. Começa num azul turquesa e termina num azul escuro, depois de passar por um azulão. As ondas, das grandes, rebentam uns 10 metros mais à frente do que é costume, que é praticamente na areia. Este mar é capaz de deixar qualquer máquina fotográfica magnetizada, virada para si… e, ao fim do dia, usa o truque legítimo de se pintar com o brilho do pôr-do-sol, e é aí que piscar os olhos nos faz sentir que já perdemos uma centésima de segundo de algo que é imperdível. A temperatura da água está sempre “no ponto”, embora prefira ler, a nadar. (ler em vez de nadar)

Pouco depois de jantar – ainda não disse, mas os buffets são maravilhosos – vou para o quarto, apanho os Ídolos a dar na SIC, vejo e leio um pouco e apago as luzes. Volto a semi-acordar talvez uma hora depois, quando ele vem para o quarto e liga a televisão. Lembro-me de olhar para o ecrã sem som e ver sair a Carolina Deslandes. Como não chego a acordar totalmente, depois de proferir algumas palavras semi-inconscientes, fecho os olhos e estou a sonhar com o que acabei de ver. O nosso cérebro é fascinante.

De manhã, ele informa-me de que falei durante a noite. Mais uma vez. Parece que na noite anterior mandara calar os meus alunos e, nesta, perguntei-lhe o que é que ele tinha a ver com “isso”. E “isso” nem eu nem ele sabemos o que é…

Acordo uma hora mais cedo do que no dia anterior e passo-o todo na praia. Devoro o resto do livro e, em dois dias e meio, atinjo a última página: a número 622. Ainda tenho o fim de tarde e o período entre deitar e apagar a luz, por isso pego no livro número 2: “Comer, orar e amar”. Penso que este dispensa apresentações, e foi por isso que o comprei.

Depois de jantar, sentamo-nos para ver um pouco do espectáculo que o resort reservou para esta noite e convenço-me de que as minhas experiências anteriores – destaco aquelas que se enquadram no Club Med e a deste ano, na Turquia – elevaram a fasquia de tal forma, que considerei o show, no mínimo, ridículo. Ainda por cima pretendia ser uma amostra do Grease e, há 9 ou 10 anos atrás, o Club Med de Yasmina (Marrocos) presenteou-me com a mesma intenção, mas com uma classe de primeira.

Vou para o quarto, leio e vejo a SIC. Adormeço.

A terça-feira é o primeiro dia a sair da rotina – mas uma rotina maravilhosa que é bronzear, comer, ler e dormir. A manhã torna-se uma verdadeira aventura! Passa-se em cima de quatro rodas, dois bancos e, embora um aspecto de carro, um volante de mota. Tenho o prazer de ser a condutora.

Ao longo de duas horas e meia, subimos, descemos e saltamos, no meio de terra, areia e, por vezes, à beira do mar. Não posso desejar emoção maior, pois quem me conhece sabe que tenho um gostinho especial por todo-o-terreno e que é algo que eu adoraria fazer com frequência. Divirto-me muitíssimo e, como sempre acontece quando nos divertimos, acaba e essa é a pior parte.

Talvez também pudesse enumerar como “pior parte” a quantidade de pó que comi ou que respirei, e que agora deve andar a circular-me pelos pulmões e pelos intestinos. E a roupa? Direitinha para um saco de plástico, pois passou a ser castanha.

O resto da tarde é na praia e continuo a ler. O encantamento pelo livro começara a diminuir desde que realizei que era uma história verídica e, por norma, eu não gosto de ler histórias verídicas. Acho-as menos estimulantes, demasiado normais e descritivas. As pessoas escrevem sobre o que se passou e não constroem livremente a história que querem. As personagens tornam-se demasiado banais, com uma ou outra excepção, dado que é muito difícil e pouco provável o autor cruzar-se, nesse espaço de tempo, com uma multidão tão vasta e tão rica de personalidade. E, infelizmente, constato isso à medida que avanço no livro. Se não fosse uma pessoa tão optimista, provavelmente não teria passado da página 10. Mas, uma vez que o sou, mantenho-me persistente e leio as primeiras 147 páginas, onde o número de parágrafos que me prende é demasiado diminuto para fazer-me sentir que vale a pena. E então tomo a decisão de arrumar o livro por um período indeterminado, mas sei que o mais provável será não o ler mais. Tornou-se enfadonho… tão enfadonho como para uma pessoa que esteja a ler este texto, provavelmente. Afinal, eu estou a fazer o que condenei neste livro.

Ainda bem que eu não sou escritora.

Agora falta-me falar sobre o meu lenço novo: aquele que tive de comprar hoje porque a minha característica mais imprópria nas viagens é apanhar escaldões no coro cabeludo. Deixara em Portugal os dois que tenho e que adoro, pois parece ter havido um erro de comunicação e eu vim para Cabo Verde convencida de que não íamos passear. De qualquer forma, no segundo dia de praia, já cá cantava o dito escaldão que me faz suster a respiração quando lavo o cabelo e quando me penteio.

Dirijo-me a uma das lojas do resort – daquelas onde as t-shirts custam trinta euros e os lenços oito. A loja é gira porque o tema é a pirataria e tudo o que vende tem a conhecida caveira e a palavra “pirata”, escrita com ossos. Também dizem “Cabo Verde”.

Já namorara os lenços no dia anterior, por isso é fácil escolher a cor mais neutra: o branco, com as letras e desenhos a preto.

Quero falar do meu lenço porque, ao analisar três situações peculiares que ocorreram esta tarde, e uma vez que estamos a falar de um terceiro e não de um primeiro dia, só posso concluir que foram atraídas pelo lenço, pois essa era a única novidade em mim. Passo a explicar as três situações:

Onde estou:

1) a caminho da praia (ainda sozinha); 2) a fotografar o pôr-do-sol à beira-mar (companhia nas espreguiçadeiras mais acima); 3) a sair da praia e a passar a porta para o interior do resort (companhia no quarto, com mais frio do que eu).

Quem surge:

1) um nativo que vende colares; 2) um nativo que atravessa a praia (raríssimo); 3) um nativo que trabalha como guarda no resort

Eles:

1) “Hello”; 2) “Olá”; 3) Sorri

Eu:

1) “Boa tarde”; 2) “Boa tarde”; 3) “Boa tarde” (Sou a originalidade em pessoa)

Eles:

1) “Portugal?” 2) “Portugal?” 3) “Portugal?” (A criatividade cabo-verdiana também tem que se lhe diga…)

Eu:

1) “Sim” 2) “Sim” 3) “Sim”

Eles:

1) “Porque é que tu és tão bonita?” 2) “Qual é o teu nome?” 3) “Qual é o teu nome?”

O que eu penso/O que eu digo:

1) “SOCORRO!!!”/ “Já nasci assim…” (com um tom e uma expressão de quem entrou na brincadeira e não levou aquilo a sério) 2) “Mas em que raio é que isso contribui para a tua felicidade??”/ “Filipa…” 3) “SOCORRO!!!!!”/ “Filipa…”

Nesta altura, já estou demasiado incomodada e desconfortável para manter uma conversa em trajes de praia.

Despacho-os em três tempos, que é como quem diz: viro as costas com um sorriso nervoso e ponho-me a andar dali para fora, mesmo depois do nativo n.º 3 me perguntar, ainda, se eu vim sozinha para Cabo Verde… (Chiça, mas que raio é que o homem tem a ver com isso?)

No caminho para algum lugar longe dali, passa-me pela cabeça tudo, inclusivamente o poder de ter um lenço com a palavra “PIRATA” estampada acima da testa, em letras garrafais. Fico preocupada, porque não prefiro o escaldão ao lenço e não há outro que possa comprar.

Não me venham cá enrolar com ideias de que só estavam a ser simpáticos, porque todo o ser humano tem algum objectivo ao puxar conversa com outro. Se o objectivo é ser simpático, façam-me perguntas sobre o meu país e sobre o que acho do seu… e não sobre coisas pessoais, como o nome ou se venho sozinha. É o que eu faço, por isso é o que acho que se deve fazer.

Quarta-feira é um dia de praia e embrenho-me no meu livro n.º3 – “Profundo como o oceano”. Estou a apanhar sol e a ler e paro apenas para comer, ou para dar um mergulho de mar rápido. Ao pequeno-almoço, tomo coragem e coloco croissants na torradeira. Só acreditei que estavam fora de perigo quando deram a volta completa e caíram cá em baixo. Um senhor alívio…

Esta é a primeira noite em que não falo a dormir. Convencera-me de que estava entregue a 100% às férias pois, sempre que me surgiram pensamentos relacionados com o trabalho, consegui atirá-los para trás das costas, com uma rápida “raquetada”. Tenho, pela frente, 14 semanas até às próximas férias, e essas 14 semanas, sim, são reservadas a todos os pensamentos que recuso aqui em Cabo Verde. No entanto, como eu estava a dizer, usei uma raqueta para atirar para bem longe daqui o trabalho, só que, afinal, falhei. Uma espécie de “efeito boomerang”, fê-los regressarem aonde não quero que pertençam. De noite. E então, enquanto dormia, sonhava, e a cada noite, falei para os meus alunos e fui ouvida por ele. Não me lembro de nada.

Foi, então, de quarta para quinta que não falei. Talvez porque tomei consciência do que sonhava, o meu cérebro poupou-me a esses monólogos nocturnos. Nem sequer sonhei com a minha escola, mas com um outro lugar, e com uma pessoa que me dizia aquilo que eu mais queria ouvir. Outro sonho recorrente.

É quinta-feira. Volto à praia, às ondas e ao prazer de ser Verão em pleno mês de Dezembro. A cada dia, sinto o meu termómetro energético em crescimento e esforço-me por aproveitar cada segundo.

São três horas da tarde e, portanto, chegou o momento de recebermos o jipe alugado. Oiço aquela pergunta à qual sei que não preciso de responder: “Queres ser tu a guiar?”. E sou.

Conhecemos cerca de meia Ilha do Sal e fazemos mais de metade em todo-o-terreno. Vamos à “Buracona”, que é uma zona onde existe uma gruta muito funda e escura, que só se torna uma atracção quando o sol incide directamente nela e a água fica azul. Não estamos lá à hora certa, por isso não conseguimos ver o fundo. Fico impressionada com a imagem claustrofóbica que me é dada por um vendedor local. Conta-me como alguns mergulhadores percorrem a gruta com luzes na testa e saem do lado oposto. (Isso não, por favor.) Depois, oferece-me um colar com um búzio e quase me obriga a olhar o seu artesanato. Ganha 20 euros à nossa conta…

A cidade de Espargos estende-se por uns bons metros quadrados e é a mais importante da ilha. Ainda não me informei sobre o que a torna importante, nem percebo, porque o que se passa à sua volta é verdadeiramente desolador. Se me impressionou o Bairro 6 de Maio na Amadora, impressionou-me ainda mais o bairro que invadimos de jipe. É grande demais.

Num abrir e fechar de olhos, é sexta-feira. Já é o dia do “amanhã vou-me embora”. Por isso mesmo, preferi a praia a uma manhã de passeio, e não me arrependi. Passo mais um dia entregue à leitura e chego ao livro n.º 4 – “O Verão das nossas vidas”. Tomo o melhor banho da semana: 45 minutos dentro de água.

(e não escrevi mais)