"Ao contrário da maioria das pessoas, ela não gostava de receber presentes. Achava, sim, que esse gosto vinha com a nascença e ia com a idade. Além disso, tinha vergonha. Só que andava ao contrário dos outros e, se os outros gostavam de receber, achavam que teriam que dar para fazer gente feliz.
Depois havia as prendas: as pirosas, as usadas, as desnecessárias. Mas também havia as interessantes, as novas e as úteis.
Um dia, recebeu uma encharpe “made in Taiwan”, escondida numa embalagem velha e reutilizada, da Loja das Meias. Cheirava a uso e a mofo. Gostava de ter podido dizer “Não, obrigada”, mas não disse. Era muito educada.
Depois havia as flores. Ela não suportava receber flores. As flores – dizia ela – eram para estar nos jardins. Chegaram a ficar esquecidas no carro, até morrerem.
Também havia os chocolates. Ela não suportava receber chocolates. Os chocolates – dizia ela – são para quem gosta deles. Chegaram a ficar esquecidos no armário, até deixarem de estar no prazo.
Ao contrário da maioria das pessoas, ela não gostava de dar presentes. Conseguia, anualmente, encontrar a prenda ideal mas, fora isso, era somente uma dor de cabeça atrás de outra, e outra, e não tinha sorte nenhuma. Achava tudo desadequado, feito para outras pessoas que não aquelas que ela queria.
– Se pudesse, – dizia ela – dava ano sim, ano não, para ter um ano inteiro para escolher. E, se não chegasse, não dava. A maioria dos presentes não serve para nada.
E foi assim que, praticamente, deixou de comprar presentes."
