Não sei ao certo o dia que é hoje. Estou agora a acordar e parece-me que a luz que entra no quarto vem com um brilho diferente. Nunca a vi como hoje!
Já tomei o pequeno-almoço e chego agora ao colégio. Sinto-me diferente.
A bata das risquinhas azuis e brancas veio hoje comigo pela última vez. Só me imagino a chegar a casa com ela assinada pelos meus amigos e pela minha professora! Assinada, desenhada, quem sabe rasgada… o que é que isso hoje me interessa? Nadinha! Estou quase livre daqueles botões, daquele calor, daquela coisa de andarmos todos iguais uns aos outros. Eu acho que, sete anos depois, estou a perceber agora porque tive de andar sempre de bata! Acho que estes sete anos foram apenas uma preparação; a bata não passa de um símbolo, para que, quando passarmos a ir para a sala porque a campainha toca, possamos dizer “Já não uso bata!”.
Resumindo: a partir de hoje, eu que usava bata para um dia dizer “Já não uso bata!”, quase que já não uso bata!
Sinto-me diferente mas agora está a ser tudo como dantes: sentados no chão, ao pé das mochilas, até que a Professora vem ter connosco e está a bater as palmas… aquelas palmas que eu reconheceria no meio de um milhão de outras palmas! É uma das minhas músicas preferidas.
Na fila de sempre, seguimos, entramos, subimos, entramos, sentamos.
A Professora manda pôr de pé. Ninguém estranha: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…” – começamos agora a nossa oração da manhã.
A Professora manda pôr de pé. Ninguém estranha: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…” – começamos agora a nossa oração da manhã.
Estou aqui a pensar que é a última vez que vejo os seus polegares em cruz, cada um segurando o da mão oposta. Só a minha Professora sabe fazer isto! Acho que vou ter saudades de a ver fazê-lo.
Ela vai falar agora. Calma. Ai… a sua expressão mudou. Vou ouvir… Será grave? Tapei os ouvidos mas... de repente, leio-a. Vejo da boca saírem-lhe palavras que, embora não consiga ler bem, vejo como são escuras e feias. Onde estão as flores e as cores vivas que acompanham tudo o que diz a minha Professora?
Acho que está a falar do dia de hoje e disse qualquer coisa sobre os últimos quatro anos. A voz está a tremer-lhe e, entretanto, acho que alguma coisa lhe entrou para o olho porque estão a cair-lhe lágrimas. Tenho, pelo menos, três amigas a quem também entraram coisas para os olhos. Também gostava de ter alguma coisa nos olhos!
Mas penso agora: será que, afinal, está a chorar porque as palavras escuras a assustam? Quero ser igual à minha Professora, mas não consigo sentir a dor dela! As palavras não me assustam e, apesar de as ver, não as estou a conseguir ler. Sem ninguém reparar, antes de chegarem ao chão, começo a guardá-las para mim, dentro da minha mochila. Pode ser que, mais tarde, as consiga entender.
O dia passa depressa e, depois de almoço, um lanchinho surpresa. Sinto-me irritada e com uns ciúmes do tamanho do meu colégio, porque não fui escolhida para passar o recreio do almoço na sala, a prepará-lo. Eu tenho de ser a aluna preferida… porque ela é a minha professora preferida! As coisas são muito fáceis… porque é que os adultos as complicam? Deve ter sido a directora do colégio quem disse que a regra era que as professoras tinham de gostar de todos os alunos da mesma forma. Mas eu não quero!
Ainda não são 16h e está a saber-me bem estar na sala. Está aqui mais quentinho do que nunca!
O quê…? Ah, a Sara está a dizer-me que temos de ir embora. Este é um dia especial para mim! Pela primeira vez, vou a pé para casa!!! E vou com a Sara, a minha mãe combinou, apesar de não gostar muito desta amizade.
O quê…? Ah, a Sara está a dizer-me que temos de ir embora. Este é um dia especial para mim! Pela primeira vez, vou a pé para casa!!! E vou com a Sara, a minha mãe combinou, apesar de não gostar muito desta amizade.
A minha mãe diz que a Sara vive na rua, abandonada, e que os pais não lhe ligam. Eu sei que isso é verdade, mas eu cá acho que a Sara é feliz e que tem muita sorte! Ela tem tudo o que uma criança pode desejar: tem três irmãos, cães, dorme num beliche, tem muitos amigos fora da escola, com quem brinca na rua até muito tarde, anda a pé sozinha, não toma banho todos os dias e tem um pai que tem um supermercado pequenino, onde ela vai e tira o que quiser! Às vezes, tira coisas para mim: um pacote de tiras de milho, pastilhas, um chupa… A Sara deve ser mesmo feliz!
Apesar de gostar muito da minha amiga, eu não me sinto com vontade de ir já embora. Queria aproveitar este último dia com a minha Professora.
A Sara insiste e eu tenho de ir dizer à Professora que me vou embora… Faço-lhe sinal, estou a dizer-lhe que a culpa não é minha. Agora, dou-lhe um grande beijinho e não me lembro de mais.
Eu e a Sara começámos o caminho para casa. Nunca tinha sentido a mochila tão pesada!
Entretanto, estou em casa, estou a jantar, e estou na cama. Agora, resolvo esticar o braço, alcanço a mochila e tiro de lá as palavras escuras. Olho para elas, corro o dia em memória, depois o ano, outro ano e, a pouco e pouco, recordei os últimos quatro anos da minha vida. De repente, sinto o meu coração a arder e já consigo ler todas as palavras. Percebi o que disse a Professora, percebi que devia ter mandado a Sara bugiar, percebi que quereria recordar o último dia de outra forma, percebi que as saudades são imensas e interrogo-me se as conseguirei ultrapassar. Cresço e aprendo, neste preciso momento, a chorar sem ser de dor de nódoa negra, de osso partido ou de ferida na pele… pela primeira vez choro de saudades, dói-me a garganta que tem um nó e dói-me o coração, onde guardo o que quero guardar para sempre.Ah… e já não uso bata! Desde... algures em Junho de 1992.