Era uma vez - e mesmo só uma vez - , uma ilha cinzenta e escura, onde o sol não estava autorizado a entrar.
Tinha árvores, mas estavam secas.
Tinha flores, mas eram pretas.
Tinha pássaros que não cantavam
e borboletas que não voavam.
Nessa ilha, vivia um monstro solitário, que passava os dias a cultivar a sua solidão, retocando uma cerca de arame farpado. Queria certificar-se de que o seu sossego jamais seria perturbado, de que ser algum lhe chegaria perto. Alimentava-se de sorrisos que não deixava sair, de fumo que gostava de consumir.
Esquecera-se de como viver e conviver, rir e conversar; não sabia o que era a felicidade; não sabia o que era a cor.
* * * * * * * *
Era uma vez uma menina que andava à sua vida, quando foi interrompida. Interrompera-a o dia em que o seu barco encalhou. E encalhou numa ilha, que era a ilha do tal monstro.
Esse dia mudou a vida da menina, porque ela viu e sentiu coisas que as pessoas não devem ver nem sentir: o monstro, esse monstro, era tristeza dos pés à cabeça! Mas foi aí que ela achou que encalhara por algum motivo. O monstro esperava alguém que o levasse dali para fora?
Apesar do medo da escuridão que se abatera sobre a ilha, a menina encheu-se de coragem e chamou pelo monstro. Chamou-o bem alto, e esperou resposta.
Nesse dia, a resposta não veio.
Sozinha, a menina conseguiu desencalhar o seu barco e regressou à sua vida, deixando, para trás, a ilha.
**********
No dia seguinte, a ilha do monstro continuava a mesma, o monstro continuava triste e só. Mas algum motivo a levara até àquele lugar. Decidiu voltar à ilha, e voltar a chamar pelo monstro.
Nada de novo aconteceu: o monstro, com olhos tristes e de cabeça baixa, continuou na sua vida de sempre, afiando os picos do arame farpado e certificando-se de que mantinha tudo e todos a uma larga distância. A menina voltou para trás, com a certeza de que esse dia não seria diferente do anterior.
************
O dia seguinte voltou a ser um dia como os outros, para a menina e para o monstro. E o dia depois deste. E o dia depois deste depois deste... e no outro. Também no outro. E por aí fora.
************
(Há um dia em que a história deixa de ser a mesma e passa a ser uma outra...)
Houve um dia em que a menina, persistente e com uma crescente vontade de puxar dali o monstro, achou que podia ter ouvido uma música que lhe era desconhecida... uma música de correspondência. E era mesmo assim.
*************
Acaba aqui a história cinzenta do monstro escuro e solitário.
Começa aqui a história de um barco que partiu da ilha e trouxe o monstro.
Começa aqui a história de um monstro que, afinal, não era monstro; era outra menina que vestira, um dia, a "capa" errada.
*************
Era uma vez, mais uma, mais uma, mais uma... Eram muitas vezes, muitos lugares diferentes e mágicos, muitos risos e gargalhadas; eram muitas vezes flores, borboletas e sóis; eram muitas vezes o cor-de-rosa, o verde, o azul, o laranja...; eram muitas vezes muitas energias positivas, coloridas e enriquecedoras.
**************
Que as coisas sempre sejam assim: um lugar comum de experiências e de convívio
...onde se possa ser feliz todos os dias,
...onde se possa aprender com cada momento,
...onde se partilhem, de coração, as pequenas grandes coisas que a vida tem,
...e onde, todos os dias, se transporte "um punhado de terra".