Fui.
A força das memórias tomava proporções tão grandes quanto podia e, por isso, o receio era algum. Nem todas as saudades fazem bem ao coração, pois se lhes mexermos de certa maneira, podem saltar cá para cima e misturarem-se com o nosso dia-a-dia... dar origem a comparações constantes, a chamamentos que não conseguimos ignorar e a uma vida que é toda menos assente em CaRpE DiEm. E eu já sou virada qb para trás das minhas costas, não precisava de mais.
Fui cedo.
Ainda tive de respirar fundo dentro do carro e meditar sobre o facto de ter de procurar a forma mais inteligente de lidar com todo aquele dia. Basicamente: absorver todo o calor humano que certamente me estaria prometido, sem me deixar absorver pelo facto de não o ter regularmente; aproveitar ao máximo cada segundo, sem me ver perdida em angústias; e, sobretudo, ter esperança.
Há pequenos percursos que o espírito faz longos. Comecei assim: nunca mais lá chegava e a pergunta era "Quem vou encontrar primeiro?". E, até chegar ao meu porto seguro de emoções - a grande Professora do edifício cor-de-rosa e eterna amiga -, onde eu poderia voltar a respirar fundo já com algumas emoções novas, cruzei-me com muitas pessoas que começaram logo a baralhar as coisas todas cá dentro. Porque estiveram lá entre hoje e 1986... algumas mesmo em 1986, a receberem-me e a tratarem de mim.
Em porto seguro, voltei a olhar em volta para descobrir que as paredes estão de outra cor, o chão de novo material e as mesas e cadeiras novas. Os estores já não se abrem por meio daquele instrumento super original e pouco prático que eu adorava ver a minha Professora usar, mas a sala cheira ao mesmo. As recordações ficaram, assim, com um poder imenso.
Depois senti o ambiente descontraído e simpático das colegas de profissão que, embora não tendo feito parte da minha História, me tratam como se tal não fosse, e isso sabe bem. Bem demais.
Depois veio a hora das maiores emoções, em alguns momentos já talvez mais difíceis de gerir, porque as memórias mais fortes são aquelas que envolvem pessoas. E pessoas como estas, que começaram, sussessivamente, a aparecer aos meus olhos, recordaram-me, com mais força que nunca, a ligação forte e familiar que fez de mim o que hoje sou. Eram as Irmãs, eram os Professores, eram as vigilantes e empregadas, e eram as "crianças" que aqui há 9 anos e mais para trás se sentaram ao meu colo e me mostraram que não poderia ter havido qualquer outra opção profissional.
Se os tivesse contado, o número de pessoas que contribuiu para este calor humano e este turbilhão, onde todas as emoções couberam, passaria das cinco dezenas. Num extremo, chegava a sentir um "Chega, não aguento mais"... noutro um "Espero não perder ninguém". É que a força dos abraços e o comprimento dos sorrisos ajudam-nos a ter a certeza do lugar onde mora o coração... e isso faz-nos sentir entre duas raquetes, que nos atiram para cada um os extremos, conforme o cérebro pensa demais.
Foi um dia único e fica gravado, para juntar a tantas outras memórias ricas e preciosas, polvilhadas da magia dos reencontros... fica a nostalgia, a saudade saudável e, com alguma pena minha, a outra saudade também. Fica a esperança e fica a certeza do lugar onde mora o coração.