
"The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires." William Arthur Ward
Era o primeiro dia de aulas de 5º ano. Tinha eu 9 anos. A agitação era total e contangiante... a ideia de correr para a sala ao som de uma campainha elevava-nos muito acima do que havíamos sido até ali. De quatro professores passávamos a muitos mais, de um pequeno edifício passávamos a um que parecia ocupar metade de uma cidade. Aqueles corredores intermináveis e pouco iluminados, cheios de portas de salas de aulas, cada uma guardando seu mundo. E o meu mundo era mesmo ali, à direita do corta-vento.
Um pouco baralhados e expectantes, entrávamos e saímos da sala, quando se dirigiu à porta um professor com barbas e cara familiar que nos mandou entrar, furando a multidão de alunos de 2º ciclo e de... pais. Estes acotovelavam-se, alguns mais nervosos que os próprios filhos, tentando abordar o professor e inundá-lo de perguntas às quais ele não tinha de responder. Pedia compreensão e explicava não ser o director de turma. Era o professor que às 8h30m de segunda-feira dava História e Geografia de Portugal ao 5ºB.
Quando, finalmente, conseguiu fechar a porta sem que os pais voltassem a bater, abriu uma outra muito dele e, com o passar do ano, mostrou-nos um mundo que depressa o pôs no topo da lista de professores preferidos: um mundo de História, um mundo de Geografia, um mundo de exigência e, sobretudo, um mundo de carinho, de boa disposição, de entrega total e de excelência, tudo assente sobre os pilares sólidos da relação que estabeleceu connosco.
O ano que se seguiu começou com a sua ausência, com muita, muita pena minha! Lembro-me, com o rigor de um vídeo gravado na memória, do dia em que o vi de regresso ao colégio e tive vontade de lhe saltar para o colo, com os meus 10 ou 11 anos. Infelizmente, não saltei.
Mas, no 7.º ano, a maior das surpresas esperava-me: não só voltou a ser meu professor como passou a Director de Turma: significava mais uma hora semanal de aula, a garantia de um acompanhamento mais pessoal... e o mesmo cenário no 8.º ano e no 9.º.
No 7.º ano e, sobretudo, no 8.º - anos de turbulência nas minhas notas - a preocupação dele era muito óbvia e constante: acreditava mais nas minhas capacidades do que eu, elogiava o mais pequeno progresso, transmitia força procurando resultados, tentava mostrar-me como era importante eu estar mais perto dos meus pares e deixar de me escapulir para o recreio da pré e do 1.º ciclo, e até me arranjou uma explicadora.
"The dream begins with a teacher who believes in you, who tugs and pushes and leads you to the next plateau, sometimes poking you with a sharp stick called "truth." Dan Rather
O interregno foi o segundo 8.º ano... mas, no 9.º, ao regressar ao colégio, afinal estava quase tudo igual: História e Direcção de Turma, o mesmo 2 em 1 mágico e motivante. Aquele dia da nossa conversa a dois, sobre timidez e entraves desta no meu mundo, foi um dos momentos mais queridos que me soube dar. E, como se não bastasse, veio uns dias depois a fotocópia de um artigo de uma revista, sobre as portas que só a timidez sabe abrir. Deixou-me sem palavras, deu-me uma nova visão das coisas e guardo religiosamente esse pequeno grande presente. Nesse dia, eu cresci.
Já no Secundário, a Direcção de Turma perdeu-se, mas aquelas aulas, a entrega, o vibrar dele com tudo aquilo que dizia de cor - meu Deus, como ele SABE - os apontamentos que conseguíamos fazer nas aulas, a paciência inesgotável para as nossas patetices e a palavra amiga, às vezes vinda num simples olhar eram quase demasiado para uma pessoa só.
Mas ele tinha TUDO isso que consta da receita de um "great teacher".
Foi daquele rol que contribuiu - e de que maneira - para muito do que sou hoje. Talvez nunca venha a saber o seu verdadeiro peso dos sete anos presenciais e muitos "recordacionais"... um peso paternal, que não haja dúvidas:
Será sempre um
"great teacher".
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"A teacher affects eternity; he can never tell where his influence stops." Henry Brooks Adams