"Ontem" saí, "hoje" entrei. E foi tudo tão rápido...
Um dia, em plena auto-estrada, olhei pelo retrovisor e não vinha ninguém atrás. Numa fracção de segundo, voltei a olhar e... um Ferrari estava já a meio centímetro de distância!
Pois é... a vida é assim! Cheia de "Ferraris apressados"... cheia de "ontens" que se tornam "hojes". Mas sem auto-estradas! São florestas... ligadas entre si por caminhos fáceis ou difíceis, que se fazem a pé, com ou sem obstáculos. Em certas florestas, só nos é permitida uma única estadia, limitada. Tal como em certos caminhos, cujo percurso pode ser feito apenas uma única vez e numa única direcção, sem retorno possível. Desta feita, cabe-nos a nós fazermos caminhadas racionais e intensas, para que se tornem produtivas e gratificantes. E, sem dúvida, ao invés de viver "enganados", vendo florestas utópicas, temos de assumir que a beleza com que se nos aparece cada uma delas ou com que se percorre cada um dos caminhos, tem a ver unicamente com o ponto de vista escolhido por nós... Então, não é estar enganado nem fingir que está tudo bem: é saber olhar para uma balança decimal, pousar os melhores momentos no estrado e darmos-lhes o devido peso, dez vezes superior. Quanto aos momentos menos bons (ou maus), pousamo-los no pequeno prato, e valerão uma décima do que valem os outros. O truque é simples mas, confesso, demorei a aprender...
Foi assim... primeiro achando uma floresta utópica, depois mudando o ponto de vista e utilizando a balança decimal, que comecei a colher frutos da nova floresta. Chamá-la-ei de Floresta do Finalmente...
Cheguei à Floresta do Finalmente num daqueles dias que, "faça chuva ou faça sol", é sol que faz... Primeiro recebida por quem de direito, depois por quem "de esquerdo"... porque há que ter apoios em ambos os lados, em alturas como esta...
Lá estavam elas, mas já não eram as mesmas. Agora, eu integrava a Equipa das Jardineiras e a responsabilidade era _______________ (Lamento... mas ainda não foi inventada uma palavra que resuma a dimensão dessa responsabilidade!).
Tinha agora tanto para fazer! A Floresta do Finalmente tem as tão características árvores de tronco escuro, copa larga e alta, onde às vezes temos de ir afastar folhas, para deixar que o Sol chegue ao solo e nos mantenha quentes e iluminadas. Depois, há a essência da Floresta - as Flores! Elas esperam por nós, as Jardineiras, recebendo de folhas abertas a nossa água e as nossas palavras... Ajudamo-las a crescerem bonitas e perfumadas, mostramos-lhes como podem evitar tornarem-se plantas carnívoras e ajudamo-las a viajar pelo mundo do conhecimento, sem precisarem de sair do lugar, mas procurando trazer-lhes a emoção que teriam se saíssem. As Flores precisam de saber agir longe da Floresta... e é essa a nossa missão principal!
Cedo, as angústias de estar numa nova floresta se fizeram sentir. Sentia-me confiante mas desorientada. Faltava-me a bússola, para ter a certeza de que não me perdia! E foi preciso procurá-la? Não... não foi mesmo! A verdade é que num abrir e fechar de olhos (mas mesmo num abrir e fechar de olhos!) parte da minha nova Equipa estava a oferecer-me uma bússola, de uma incrível precisão! E foi com elas, e com a sua prenda, que dei os primeiros passos - de um lado a Jardineira Muito Séria que me tranquilizava ajudando a decidir a direcção a seguir; do outro a Jardineira Tinha que me tranquilizava pelo caminho orientado que ela mesma construíra antes de eu chegar... A Jardineira Muito Séria combinava comigo como regaríamos as nossas Flores, de uma forma geral; a Jardineira Tinha contava-me como as tinha regado antes e qual a posição particular do regador para cada uma delas...
Então, cheguei e comecei logo a aprender. A partilha inicial de experiências enriqueceu, de imediato, o meu currículo de vida... (Estar-vos-ei eternamente grata!)
Com o passar do tempo, o meu "à-vontade" dentro da Floresta do Finalmente cresceu... Fui cumprindo a minha missão, cuidando das Flores que me foram destinadas e vivendo experiências extremamente enriquecedoras e, sobretudo, gratificantes com elas. Ao mesmo tempo, fui estando com as outras Jardineiras, embora com algumas menos do que gostaria...
Descobri cedo que, por mais que nos tentemos manter imunes, se tiver de haver problemas, eles encontram-nos onde quer que nos estejamos a esconder: seja na distância, na indiferença, no profissionalismo... Não há florestas perfeitas e esta não é excepção. Há mãos e bocas perigosas... Jardineiras que sujaram os seus aventais e que desejam, mais cedo ou mais tarde, sujar os das que andam limpinhas...
Tanto para contar... mas fica para outro dia! Para já, fico-me por esta introdução...PS - Em paralelo, vi o mundo ser reinventado pela doce inocência... Conheci a letra masculina, que é aquela que inicia as frases; conheci figuras geométricas como o paralelo grândulo e sólidos como o paralolelopípedo, a pirâmide triangunal ou a pirâmide quatagular; aprendi que há quem more no resto chão e que isso não é enrado; já sei que, em caso de sismo, há-que saltar pela janela, que o problema fica resolvido, ou posso sempre sair de casa pelo elevador, isto se não me esconder dentro da despensa; já em caso de choque eléctrico, podemos ajudar a vítima dando-lhe uma cadeira de madeira ou mesmo dando-lhe com a própria cadeira; a nossa pele tem umas glândulas oxixnadas e nela existem os nervos, estes responsáveis pelas inervações e pela produção de gordura; quando andamos vestidos de igual, eis o estilo manuelino... E por aí fora... (São tão lindas, as minhas Flores...)
