quarta-feira, 29 de julho de 2009

Máquina do Tempo, Parte 1 - Alentejo



Há muitos anos atrás, passava férias e fins-de-semana na casa alentejana de uma tia-avó. Gostava especialmente de lá estar, porque a casa era grande e mágica, com um sem número de divisões. Havia sempre um local por explorar, cheio de portas, caixas e gavetas que escondiam memórias. Gostava de me contar histórias, partindo dos objectos que encontrava: uma boneca de loiça, um livro dos anos 50, um poster de um piloto de carros que já nem devia existir. Adorava os armários da cozinha, onde encontrava produtos esquecidos, encostados ao fim da prateleira, cujo prazo de validade passara há tanto tempo que se tornava hilariante. Gostava de plantar feijões, subir ao telhado, transformar uma casa de banho exterior em casa própria (andando com a chave no bolso), andar na bicicleta nova do tio e imaginar como seria andar na velha, com uma manete de mudanças no quadro e umas rodas absurdamente largas. Parecia mesmo uma mota e adorava sentar-me nela, apoiar os pés na ligação dos pedais ao quadro, agarrar o guiador e fingi-la de mota. E o cheiro a ferrugem.
A casa tinha quatro andares. O 1.º e o 2.º eram os nossos: quartos, casa de banho, salas e cozinha. Embora ainda hoje guardem, provavelmente, demasiados segredos por desvendar, eram o rés-do-chão e o sótão que chamavam por mim.
O sótão fora, em tempos, quartos de empregadas e espaço de acumulação de caixotes. Odiava especialmente aranhas e o facto de nalguns sítios o tecto ser mais baixo, fazendo-me sentir demasiado vulnerável… e o chão ser de madeira e ranger demais para meu gosto. Nunca consegui saciar a minha sede daquele lugar cimeiro. E as minhas poucas investidas foram, sobretudo, na divisão do sótão (teria umas 3 ou 4) onde eu sabia que se guardavam brinquedos da minha mãe e do meu tio. Transportes de lata, bebés de borracha e tecido, bonecos de plástico duro. Aquilo fascinava-me. E muitos dos brinquedos foram trazidos aos 1.º e 2.º andares para nós os usarmos até cansar. Deixámos de levar brinquedos de casa para nos entretermos, fazíamos lojas e hospitais, transformando a mais pequena coisa na maior que ela poderia ser.
No sótão, também me deixava desconfortável o facto de encontrar insectos nos plásticos que cobriam os caixotes, ou às vezes nos próprios caixotes. E, ainda hoje, arrepia-me a mera recordação das teias de aranha, talvez mais que as próprias aranhas. Nas poucas vezes que lá fui, evitei fazê-lo sozinha. Ah… e queria cruzar-me com ratos, porque a minha tia-avó dizia haver lá, só que nunca encontrei nenhum, o que foi uma pena.
No rés-do-chão, mais divisões. Era tão confuso quanto o sótão, pois a quantidade de móveis acumulados dificultava a sua descoberta. Eu tinha um desejo especial de explorar um cofre enorme. Lembro-me de uma vez o ter aberto, mas o encanto de o fazer era tal, que não me lembro de uma única peça que lá tivesse descoberto.

Um dos maiores achados foi o de um pequeno túnel escuro que terminava numa porta. E essa porta ia dar ao quintal. Não, eu não consegui passar porque estava rodeada de teias de aranha e eu já as imaginava enroladas no meu cabelo. Também não encontrei os ratos que queria. Se calhar, quando me contavam dos ratos, só me queriam assustar.
No quintal, havia mais portas, para além da do túnel escuro. Uma dava para uma espécie de adega e estava sempre fechada, outra para uns estábulos antigos, mais uma vez a transbordar de tralhas misteriosas e deslumbrantes. Era lá que morava a bicicleta nova do meu tio e eu – que desde os 6 anos andava em duas rodas – adorava ir buscá-la para passear. Eu, minúscula, e a bicicleta de montanha, de adulto, do meu tio.
Outra porta dava para a lavandaria, à qual nunca dei importância por estar demasiado arrumada. E havia mais três: uma que dava para um compartimento minúsculo, uma que dava para a casa de banho que eu fazia de casa (tinha uma janela e tudo) e outra que dava para o sítio de guardar a lenha. Ainda me lembro de um disparate que lá fiz, mas era criança: podia e devia fazê-los. Os pássaros têm a capacidade de mexer com os mais novos, sobretudo os pássaros bebés. Havia um ninho de andorinhas. A minha asneira envolveu um escadote e uma bengala. O escadote para eu ficar mais perto do ninho que estava no tecto; a bengala para substituir a minha mão, que nem morta meteria num sítio que não conseguia ver. Lembro-me do frenesim de andorinhas adultas que entravam e saíam de lá… Lembro-me de me esconder lá dentro e observá-las a entrar e a sair. E lembro-me do som das andorinhas com poucos dias de vida. Eu tinha de ver uma mais de perto. Tinha mesmo. Então, com a bengala – e com uma perícia que agora me surpreende – consegui puxar uma para fora. Apanhei um enorme susto quando uma das adultas ia a entrar mas, deparando-se comigo, voltou para trás; eu tinha tido o cuidado de as espantar previamente com o barulho de palmas, antes de cumprir o meu desejo impulsivo.
Quando puxei a andorinha bebé para fora, agarrei-a com a mão. Tinha uns 10 anos, talvez. Até lá, andava demasiado ocupada com brinquedos para alargar os meus horizontes desta maneira… Observei a andorinha sem penas, de todos os ângulos possíveis e voltei a ver as adultas travarem, sem entrarem. Ao dar-me por satisfeita, devolvi a andorinha ao ninho e não contei nada a ninguém.
No dia seguinte, a andorinha bebé estava morta, cá em baixo no chão. Já ouvira dizer que os pais são sensíveis aos cheiros nos seus filhos que não lhes pertençam, podendo rejeitar as crias. Assim foi. Senti-me esquisita, mas não sei se arrependida. Há coisas que as crianças têm de fazer uma vez na vida.
Até ter tido cão, pelos 12 anos, sempre andei a pensar e a estudar todos os animais que podia. E a aldeia era propícia a esses meus estudos.
Noutra aldeia próxima, que fica dali a uns 9 km, apanhei um pardal do chão. Tinha caído do ninho, também era pequeno mas tinha penas. Naquela casa, encontrei uma gaiola e fiquei muito feliz quando o pus lá dentro… Fazia grandes planos e os meus pais deixavam-me divagar sobre a alimentação que lhe ia dar e a forma como o manteria em casa, quando regressássemos. No dia seguinte, fui dormir a casa de outros tios-avós, e quando voltei já não tinha pardal. Desta vez, porque os meus pais o haviam libertado. Fiquei doida… estavam a privar-me de alimentar mais um disparate. Claro que o pardal acabaria por morrer nas minhas mãos ingénuas. Foi melhor assim e eu sabia-o, mas não os perdoei naquela altura, porque a decisão não tinha sido minha. E o pardal era meu.
Quando passeava de bicicleta, gostava de ir à horta gigante da minha tia-avó e, felizmente, nessa altura ainda não gostava de apanhar rãs, ou arranjaria mais um problema. Gostava – e isto é estranho – de estacionar a bicicleta à porta do cemitério e passear, percorrendo os caminhos entre as campas. Sentia-me estranhamente confortável a imaginar que estavam ali pessoas, debaixo da terra, e era fácil porque ainda não morrera ninguém com quem eu tivesse uma ligação próxima. E, quando íamos juntos, riamo-nos do que um dia uma velhota enrugada e assustadora nos dissera, ali perto: “Cuidado, andem aí almas vivas!”. Era inevitável espreitar para uma espécie de poço pouco profundo, sem água, para onde – nunca percebi muito bem porquê – se atiravam ossadas, no cemitério. Distinguiam-se perfeitamente crânios e outras partes do esqueleto, e não me impressionava, apenas fascinava. Tal como no passeio a um Mosteiro, quando andavam em escavações e haviam descoberto dezenas de cadáveres para os quais estive a olhar fixamente.
Nesses passeios campestres, desejava constantemente encontrar coelhos e javalis, mas nunca aconteceu. O mais perto que estive de ver javalis foi ver fezes e buracos onde, seguramente, se tinham esfregado no chão. Quanto a coelhos, alguns corriam a estrada de um lado ao outro, à frente do nosso jipe. Aí, eu ganhava o dia. E também com os milhafres que rodopiavam por cima dos eucaliptos ou com as cobras que rastejavam – longe – em muros ou pelo chão.
Um dia, apanhei um lagostim, à beira de um pequeno rio. Apanhei-o na mesma gaiola onde o pardal morara por 1 dia. Olhei-o, mais uma vez, de todos os ângulos que pude e, por fim, fui devolvê-lo ao rio, quando me fartei de olhar. Tinha umas pinças que exigiam respeito e não havia água onde o pudesse manter.
A casa tinha uma daquelas banheiras antiquíssimas, apoiada em 4 pés e com a torneira independente. Fazia uma piscina magnífica e os banhos, quando autorizados assim, duravam muito. E havia um armário cheio de gavetinhas e portinhas, mais um mundo dos muitos a explorar. O chão era o máximo, porque conforme o ponto de vista, criava a ilusão óptica de ser composto por cubos a três dimensões. Imaginava-me minúscula, a subir de cubo em cubo.
Havia histórias ali à roda: uma família cigana, à frente, que estacionava sempre o camião encostado ao portão da minha tia, e quando lá íamos, tínhamos de bater à porta. Havia os emigrantes ao lado. Havia a Isabel, a irmã do meio de uma família pobre, a quem uma vez abri o portão do quintal. Entrou com o irmão mais novo e deve ter sido dos momentos mais felizes da vida deles… talvez nunca tivessem brincado com brinquedo algum. Nunca me esqueci do que senti na altura, embora fosse bem nova e me tivesse impressionado o modo um pouco selvagem como eles entraram, quando os deixei. Pareciam esfomeados… fome de condições de vida. Pensei muito, nessa altura.
O pior dia que lá passei foi num dos passeios com o meu irmão. Eu teria uns 12 anos e, como por vezes fzíamos, levava-o sentado com os dois pés para o mesmo lado, no quadro da bicicleta do meu tio. Eu nem chegava com os pés ao chão, mas fazia-o constantemente e, modéstia à parte, com muita perícia. Mas, naquela tarde, as coisas não correram como sempre. O melhor dos nossos passeios eram as descidas e estávamo-nos a preparar para mais uma. Era só mais uma. Eu pedia-lhe sempre cuidado para não tocar nos raios da roda da frente com os pés. Mas, nessa tarde, ele distraiu-se e tocou; já íamos a meio da descida, cheios de balanço.
Nestas alturas, o nosso cérebro tem certamente um mecanismo de bloqueio. Lembro-me perfeitamente de que senti um impulso invulgar, como se a bicicleta levantasse voo. Como se tivesse sido, subitamente, puxada para cima, e nós com ela. O cérebro bloqueou. De repente, estávamos parados. No chão.
Quando abri os olhos – com o medo de sempre de alguma fractura – olhei para a frente. Num segundo, eu estivera no selim da bicicleta e o meu irmão no ferro do quadro, entre selim e guiador. De repente, eu estava na calçada com dores num cotovelo, ele a uns metros à frente e, mais metros depois, a bicicleta. Por mais que tente, não consigo – e na realidade nem quero – imaginar a bicicleta a sair de debaixo de nós os dois, a voar-nos por cima e a ir estatelar-se lá à frente, a uma distância considerável. E lembro-me bem do que o meu irmão chorou. Sentia-me responsável por ele e não chorei eu também. Ele tinha a cara esfolada e o mesmo trauma que eu. Sempre fomos demasiado sensíveis à simples ideia de pôr um pé num hospital. Crianças. E, naquele momento, eu também só imaginava o que seria regressar a casa, indo a pé por 3 ruas, com ele aos gritos, como se estivesse a morrer. O que iriam dizer os meus pais? Se calhar, não era assim tão justificativo para aqueles berros estridentes que me culpabilizavam, como irmã. Era demasiada coisa para pensar ao mesmo tempo.
Claro que o regresso foi terrível e cada qual com sua reacção mais própria, piorada pelo incessante berreiro. Podia ter sido muito grave, ele fora com a cara ao chão. Mas a radiografia disse estar tudo como deveria estar. E o meu cotovelo nem foi ao hospital, tinha sido uma pancada simples. Claro que aprendemos. Mas continuei a partilhar a bicicleta com ele e os outros, um tempo depois, sem que houvesse qualquer descuido. Só andávamos mais devagar.
Na aldeia, também havia o Manel, pedreiro, que vivia numa casa inacabada. E tinha um quintal com porcos grandes e maravilhosos. A Carôla tinha uma espécie de mercearia e um corredor estranhamente escuro, que ia dar a divisões escuras também. Era giro entrar no mundo dela. E havia a Ambrósia, que tinha um filho maluco, que aos 30 e poucos anos pegara numa pedra, atirara à cabeça do pai, matando-o; estas coisas sabiam-se e eu estava sempre a falar nisso; quando lhe passava à porta, via o local do “crime” e tentava imaginar... enquanto criança, é tão fácil ficar-se fascinado por coisas que tanto se afastem da realidade do dia-a-dia!
A Maria Antónia – uma em milhentas – morava numa casa que não tinha janelas! E a Zefa foi, até demasiado tarde na sua idade, uma espécie de empregada da minha tia. Mexia-se em câmara lenta e fazia necessidades num cantinho do quintal, antes de ser feita a casa de banho que foi a minha casa de brinquedo. Havia para lá uma espécie de canalização e ela agachava-se atrás do muro. Uma das minhas maiores descobertas foi que, apesar de se vestir toda de preto, a Zefa tinha cuecas dor-de-rosa. E ela foi motivo para nós, filhos, inconscientemente, termos criado uma grande maldade. A pobre senhora deslocava-se no jeito próprio – curvada, lenta e com falta de vista. A minha mãe comentara, certo dia, que tinha receio que a senhora caísse lá por casa. Então, nós resolvemos correr à minha mãe, dentro de casa, numa altura em que a senhora atravessava o quintal para se ir embora, e gritámos “A Zefa caiu!! A Zefa caiu!!”. A minha mãe começa a correr desalmadamente para socorrer a Zefa, que não só não caíra como já se fora embora. O resto imagina-se. Não terá ficado feliz nem terá, certamente, dado aos filhos lindos uma recompensa.
Conheci a aldeia a pé, de bicicleta e de jipe. Conheci-a sozinha e acompanhada. Explorei-a, subi montes, escalei pedras gigantes, atravessei rios com botas de borracha. Estudei fauna e flora (fiz, em tempos, um herbário e fiz de pequenas flores cor-de-rosa chupa-chupas doces, derreti-me com o cheiro das giestas e apahei bolotas do chão). Estudei pessoas – de cima a baixo – e conheci o fenómeno de passear pela rua e ir dizendo “Boa tarde”. E depois havia aquela coisa de ser sempre o centro das atenções – porque a minha mãe fora, há anos, criança, e agora tinha filhos que cresciam (dizia-se) a olhos vistos, porque as nossas bochechinhas eram lindas e nós também.
A par, visitávamos uma outra aldeia e umas ruínas. Mas isso é outra história.