É sempre giro… o avião dispara, cola-nos as costas ao banco, a velocidade cresce a cada segundo e levanta. Claro que, até ali, o inconsciente encarrega-se de nos fazer viajar as ideias e, apesar de não temermos andar de avião, há sempre algures o pensamento “E se, por acaso, isto cai?”. E depressa procuramos o pensamento nº 2: “À partida, os pilotos também não fazem tenção de morrer hoje”… Até podiam ser suicidas, mas a probabilidade é reduzida.
Nunca convém partilhar estes pensamentos com quem está por perto. No mínimo achar-nos-iam loucos.
Este retalho da Turquia é simpático. As casas são baixas, predominam as geminadas, há estufas em toda a paisagem e o calor faz tremer o alcatrão. A condução segue um qualquer código onde parece que tudo é permitido: ultrapassagens perigosas, avançar nas passadeiras onde estão pessoas, andar de mota sem capacete, pisar todos os traços desenhados, sejam de que natureza forem. E, por momentos, parece que os semáforos seguem uma regra um tanto ou quanto peculiar: verde para andar, laranja para andar, encarnado para andar; antes de voltar ao verde, acende-se o laranja, em simultâneo com o encarnado… e, em alguns, há constantes contagens decrescentes que nos fariam acalmar em frente aos semáforos portugueses!
Sou de praias e corro à procura daquele bronze que a minha pele nunca conheceu. Achei que seria desta… com tanta exposição ao sol, achei que não falhava. Tive o cuidado de até só sair por duas manhãs, a excursões…
Na primeira excursão, as paisagens foram uma cascata, a parte mais antiga de Antalya e, para terminar, o brinde destas excursões organizadas: a visita a uma loja onde, suponho, os guias põem uma valente comissão ao bolso. Vendiam-se ali peles e fomos recebidos pelo, então, cúmplice do esquema: um Paulo português saído, creio, de um daqueles canais de compras via TV. “E porque é que vale a pena comprar aqui, perguntam vocês! É simples! Primeiro porque…”. Atreveu-se até a dizer que mora em Istambul e estava de férias mas, sabendo que ali ia um grupo do seu país natal, correu a Antalya para nos receber… são centenas de quilómetros.
Safou-se, aqui, o desfile de moda, um pouco mais a sério do que me passara pela cabeça, embora não ligue minimamente a artigos em pele. Nós, meninas, ficámos sem pio quando apareceu o loiro dos olhos verdes que tinha um estilaço a andar que era uma coisa do outro mundo. E tenho a certeza que ele sabe que é assim. Convencido.
Como seria de esperar, saí de mãos a abanar, o que me deu um certo prazer – foi verdadeiramente incómodo andar a circular pela interminável loja, curtindo o ar condicionado, com um dos mil vendedores sempre colado a mim. Experimentei ir à casa-de-banho para descobrir onde morava a linha que ele não ultrapassaria mais e, por momentos, cheguei a pensar que ele ia entrar comigo. Mas não… afinal, havia expositores quase até à porta.
A segunda excursão foi às ruínas de Perge e ao teatro de Aspendos. Adorei aquela magia das ruínas greco-romanas. São sempre um impulso a algumas viagens fantásticas no tempo… sentir cada cantinho, imaginá-lo em perfeito estado e quase ver as pessoas que ali estiveram há tanto tempo atrás. Fascinante. A perolazinha (literalmente) desta excursão foi o passeio a uma outra loja: jóias. Curiosamente, o mesmo Paulo português… também envolvido neste tipo de comércio.
De resto, todos os dias foram entregues à água do Mediterrâneo mas, ao contrário do óbvio, não estive de pezinho na areia pois, confesso, não apreciei muito a linha de pedrinhas ao longo da beira-mar, que tinha de ser transposta para tomar banho. Em vez disso, instalei-me sempre no pontão de madeira do resort, com um bar no centro e várias camas confortáveis espalhadas. Os banhos estavam sempre garantidos pelas várias escadas e o pôr-do-sol, visto dali, era qualquer coisa de indescritível!
Fartei-me de comer. A cada refeição, um buffet mais colorido e completo que o anterior… uma loucura. Somente os doces deixaram muito a desejar (felizmente), definitivamente, são alimento para os olhos… tudo muito bonito mas demasiado doce e criativo para o meu estômago. Sou gulosa, sim… grandes quantidades de uma restrita variedade de doces… ali não encontrei Haagen-Dahz, waffles, baba de camelo, doce de ovos ou - este vai-me fazer correr a comprar – brigadeiro ou bolo de brigadeiro do Amor aos Pedaços. Ainda bem.
A parte da leitura que fiz deu-me um prazer imenso e ajudou-me a embrenhar na paisagem marítima turca… Comecei por ler sobre Susy Salmond, que morreu e conta, do seu céu, a história que se vai desenrolando… episódios familiares e outros sobre o seu assassino; "Quase toda a gente no céu tem alguém na Terra para vigiar, um ser amado, um amigo ou mesmo um desconhecido que uma vez foi simpático, que nos ofereceu comida quente ou um sorriso radioso quando precisávamos.". Passei, depois, para Lila, uma mulher que vai viver sozinha e recuperar de um divórcio, que conhece três homens apaixonados por plantas tropicais, que adquire algumas e acaba no México à procura de outras… nove em especial, cada qual com sua magia, sempre perto das outras três personagens com algo de muito espiritual e esotérico para ensinar a qualquer momento; "As plantas precisam de raízes, porque não conseguem sobreviver sozinhas. As raízes prestam-lhes uma boa ajuda e impedem-nas de serem arrastadas por todo o lado, pelo vento. Mas nós, humanos, podemos movimentar-nos à vontade. As nossas raízes prendem-nos inutilmente aos lugares, geralmente, a um local onde não queremos estar. Depois, quando tentamos mudar, cortamos as nossas raízes e isso dói. Por isso, acabamos por ficar exactamente onde estamos.". Por fim, passei a ler sobre Abby, uma mulher que sofre um acidente que lhe prejudica o cérebro e se reflecte na sua memória. Pelo risco de perder recordações importantes, decide elaborar uma lista e, com a ajuda da família e de um homem por quem se apaixona, vive grandes momentos que regista sempre num diário e em fotos, tentando guardar as memórias; “Não importa onde as guardo e de que modo as recordo, importa que as guarde".

Volto a Portugal sentindo que a missão foi cumprida: esqueci-me que tenho a casa virada de pantanas, esqueci-me do que faço da minha vida profissional (bom, não tanto, tive um brainstorming em plena toalha de praia e preenchei duas páginas e meia com ideias que não pedi para ter), mergulhei em três histórias completamente diferentes, diverti-me tanto quanto podia, mantive amigos por perto via net, e trabalhei para o bronze (na realidade, foi para o ouro… será que estou dourada?).
E agora vou a sobrevoar Itália… “E se, por acaso, isto cai?”… “À partida, os pilotos também não fazem tenção de morrer hoje…”.
Gostei muito! =o)