quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"Eu quero" - A birra



Tudo começou de manhã, bem cedo. (Adivinho que aquele pai diria "cedo demais".)

Estava a começar a tomar o pequeno-almoço naquele meu modo zen, de BD aberta na mesa, caneca de leite com café numa mão, torrada com manteiga na outra. A janela estava aberta (o zen cheiro da manhã...), já se ouvia a passarada. E veio aquele som que me roubou o estado meditativo matinal...

Era uma birra pura, daquelas bem puras, bem requintadas, donas de uma incrível capacidade de perturbar o mais zen dos cérebros. E em plena rua cheia de prédios de habitação, a ampliar assustadoramente o som que saía daqueles pulmões cheios.

Fiz o que qualquer pessoa bisbilhoteira faria: levantei-me e fui à janela.

O pai ia à frente, num passo apressado, levando uma criança de colo. Atrás, a tentar acompanhar, uma menina de 4 ou 5 anos, que berrava desalmadamente, entre lágrimas, "Eu quero levar um brinquedo!".

As birras de "Eu quero" devem ser as que mais facilmente tiram os pais do sério...

O pai seguia o protocolo da birra "Eu quero", o que significa então: em primeiro lugar, não cedeu ao desejo da filha; em segundo lugar, ignorou completamente o que se estava a passar atrás de si. Certamente estava a preparar-se para o terceiro passo, seja ele qual for, mas...

Fui buscar a caneca e a torrada e voltei com elas para a janela.

Chegam ao carro e o pai dedica-se, com distinção, à tarefa de prender a criança de colo à cadeirinha do banco de trás. E foi aqui. Foi aqui que a autora desta "Eu quero", seguindo também ela todos os protocolos da sua parte, decide expandir a sua birra à porta da frente do carro, na segurança de ter a porta de trás a fazer de escudo entre ela e o pai. Com duas mãozinha pequenas, mas com uma destreza e uma força dignas de uma criança bem mais velha, consegue abrir e bater a porta repetidas vezes, com enorme violência...

Ao elevar assim, subitamente, o nível da birra, fez com que se pressionasse, no cérebro do pai, aquele gatilho que o fez esquecer o seu protocolo no preciso segundo... Aí, nenhum escudo lhe valeu.

O pai, claro está, fechou imediatamente a porta que estava entre os dois no passeio, e descarregou, de forma animal, tudo o que contivera até ali. Não foi uma "palmada pedagógica"... foram muitas palmadas (ou o que quer que se chame àquilo), dadas de forma rápida e seguida nas costas da criança (talvez na nuca também; onde conseguiu, no que lhe apareceu à frente da mão). Não contente com isso, agarra-a com poucos cuidados, dá a volta ao carro e quase que a atira para a cadeirinha lá atrás.

Enquanto a prende com o cinto, ela chora e berra-lhe aos ouvidos, continuando a repetir "Eu quero levar um brinquedo!".

O pai fecha a porta e examina-se. Olha para o fato que vestiu para trabalhar e faz gestos de quem acaba de descobrir que se sujou... Limpa-se com toalhitas e volta a pegar na criança de colo. Examina-a e, pela forma como a limpa, adivinho que há um presente na fralda e que este já subiu até às costas.

No meio de tudo isto, quando devolve ao banco a criança mais nova, a outra continua totalmente entregue à sua birra. E apanha mais...

Cada vez que o pai lhe bate, ela berra ainda mais alto "Eu quero levar um brinquedo!". 

É a vez dele gritar "Não levas brinquedo nenhum!!!".

Ela volta a subir a parada, esperneia, mexe-se para todos os lados, força o cinto se segurança... e volta a apanhar.

Cá em cima, é desta vez que oiço, entre as suas lágrimas, soluços e gritos, um arrepiante "Ó pai, não me batas mais!!". 

Talvez o pai não lhe tenha voltado a bater (nesta altura fiquei com a memória turva, pois já só queria estar lá em baixo e poder fazer alguma coisa).

Depois das limpezas, partiram de carro. E ela foi a fazer a sua birra...

Quero imaginar este pai a deixar a criança na escola já pensativo. Quero imaginá-lo a chegar ao trabalho e a não se conseguir concentrar nas suas tarefas, perseguido por um enorme peso na consciência. E quero imaginá-lo de noite, ao deitar, a não conseguir adormecer enquanto conclui que se excedeu completamente, prometendo-se a si mesmo nunca mais perder a calma daquela maneira.