Saltou para o meu colo e foi assim.
A magia do J. apanhou-me como alguns mais pequenos às vezes apanham. Durante cerca de uma semana, teve o privilégio que conquistou: colo, mimos e atenção a toda a hora...
Era especialmente doce e dono de uma forma muito própria de comunicar, com vocabulário engraçado, uma expressividade de menino crescido e uma capacidade única de retribuir. Vivia no meio das histórias construídas com os animais que trazia no bolso do bibe verdinho, e ora ia até à selva deles, ora os trazia à nossa escola.
Nas minhas férias, tive saudades dele.
Pouco depois, o pequeno J. é novamente posto à prova... As aulas começam e o "Monstrinho" está à espreita. Mas, agora, o meu pequeno amigo já não está rodeado de meia dúzia de crianças - sim de umas boas dezenas delas.
O J. está a chorar muito quando me aproximo. Descubro que foi um impulso irrefletido o que acabo de fazer: ele pede-me, desesperadamente, que não o largue do colo e que o leve para a minha sala... Por dentro, cai-me tudo, e tenho 25 crianças de quarto ano à minha espera.
Negoceio. Negociamos muito os dois, mas ele sabe bem o que quer e eu não consigo demovê-lo da ideia de vir comigo. Então, deixo-o a chorar, diretamente com a sua querida educadora, que lhe dá logo uma mão especial.
Quando acorda da sesta estou lá e tenho o privilégio de receber o melhor abraço do dia...
Os dias foram passando e, ao fim se algumas semanas, o J. deixou de chorar e de chamar pelos pais de manhã. Foi aí que me deixou mais à vontade e me livrou dos problemas de consciência de o procurar pela escola.
No dia em que o levei à nossa sala pela primeira vez, a sua magia também se estendeu aos meus alunos. Elas queriam pegar-lhe ao colo, eles queriam saber se era do Benfica ou do Sporting e pediam-lhe "Dá cá 5!".
Se o J. chorava, os meus mais "rufias" estavam já prontos a descobrir o colega responsável, para lhe mostrar que, com o "nosso JC", ninguém se metia. E, se nos cruzávamos nos recreios, o nosso pequeno grande amigo ficava rodeado de matulões de 9 anos, a quem eu tinha de recordar que ele não era um brinquedo.
A hora de acordar da sesta coincidia várias vezes com aulas que eram dadas por outros professores, por isso lá estava eu, a vê-lo sorrir para mim com a sua carinha de sono.
Tinha direito a visitas exclusivas à nossa sala - o ar de importante que fazia aos colegas era o mais cómico - e se eles me viam, faziam corridas para ver quem o avisava primeiro.
Quando passámos a ter um coelho na turma, foi a alegria total para o J., que sabia que lhe poderia pegar antes dos outros 25.
Nas visitas de fim de dia - quando a sala já estava vazia - gostava de trazer o seu amigo G. e falar-lhe da sala e do coelho, como se lhe pertencessem - de facto, já pertenciam. Os dois brincavam no quadro interativo, viam filmes e desenhavam... Dava gosto vê-los tão ligados!
No final do ano, dei o meu melhor para lhe explicar o que se ia passar: já não estaríamos na mesma escola a partir do ano seguinte. Fez muitas perguntas, sobretudo "Porquê?". Foi difícil arranjar uma explicação que lhe servisse - não arranjei. Mas prometi que seríamos sempre amigos.
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No início do segundo ano, contaram-me que ficou confuso por perceber que eu já não estava em nenhum lugar da escola, e ainda mais por ver desconhecidos na minha sala. (Os problemas de consciência eram alguns, nesta altura...)
Visitei-o bastante nesse ano. Nessas visitas, os olhos brilhavam-lhe e não saía do meu colo. Contava-me pequenas histórias dos colegas, ouvia, vaidoso, a sua nova educadora falar-me dele e voltava ao ataque com os seus "porquês"...
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A vida continuou a fazer das suas e, no ano a seguir, houve condições para uma única visita, logo nos primeiros meses de aulas. Estava numa sala onde já não podia saltar despreocupadamente para o meu colo e conteve-se. Mas sorria, todo ele... doce e especial como sempre fora.
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Ao fim de 3 anos, nunca mais as nossas rotinas foram parecidas com as daquele primeiro ano. Assim, conheci este mês um J. crescido, independente, com uma cabeça que funciona "a mil à hora", alto e esticadinho - embora com as mesmas feições doces e uma carinha "de bebé" -, com um vocabulário de crescido e uma certa timidez que acabou por desenvolver com a falta de convívios nossos. Mas o mesmo interior mágico...
Brincou com carrinhos, desafiou o perigo com um guarda-sol e pediu, sozinho, o que quis no café.
E não deixou de me lembrar, por duas vezes, que nunca mais fui à escola (mas estas coisas não se explicam)...
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Hoje, o J. faz 6 anos. E foi por isso que me apeteceu fazer esta viagem no tempo...
Parabéns, meu querido!!!
