domingo, 19 de agosto de 2012

O miúdo do peixe


Reparo em vocês porque, aqui, não é comum ter companhia do vosso tamanho; vendo bem, neste lugar não costuma haver é companhia alguma e é por isso que gosto de aqui estar.
Tu, mais falador mas muito trapalhão, não terás mais que três anos. És um alentejano loirinho, o que te faz parecer de qualquer lugar menos deste. Tens uma cara simpática, um sorriso malandro e uns olhos que também parecem sorrir, protegidos do sol pela sombra da pala do teu boné.
Tens um amigo com quem muito conversas e brincas, e que te acompanha até à beira da água da albufeira. Ainda parece menos alentejano do que tu, sendo mulato.
Estão, ambos, absorvidos pelo barco que levas na mão - a metade inferior de um navio, percebo mais tarde. Olho, na esperança de compreender por que te referes a ele utilizando a palavra "peixe" e não resisto a registar algumas das vossas doces frases. "Não mata ele!", "Coitadinho!", "Quidado!", "Assim ele morre!", "O peixe não 'tá a morrê.".
Percebo que, afinal, sabes bem que tens na mão um barco e sabes bem que, lá dentro, transportas um peixe. Só não sabes que ele está morto.
O peixe tem o tamanho de meia sardinha e anda a passear entre a tua mão, o barco e a mão do teu amigo. É nesta mão que se demora, antes de ser largado na água, para receber um beijinho - sim, um beijinho de despedida num peixe morto sabe-se lá há quantos dias.
A inocência com que se continuam a referir ao peixe, que voltam a apanhar e a pôr no teu barco - andando com ele, pegando nele, falando dele e até com ele - não me provoca, curiosamente, a sensação de repugna que seria de esperar. Ao invés, deixa-me de postura contemplativa, numa certeza de que há, por aí fora, infinitas situações do mesmo estilo a acontecer, pelas quais troco, de bom grado, qualquer filme ou livro de ficção. Só é preciso ter um pouco de sorte de espectador.
Por uns momentos, tens familiares por perto e eu faço um intervalo. Vou dar uns mergulhos.
Volto para a toalha.
Aproximas-te, sempre fiel guardador do teu barco e do seu precioso conteúdo, e deves ter sentido que eras bem-vindo - és criança, ainda tens o dom de saber comunicar espontaneamente, prevendo a forma como serás recebido.
- Olá sinhora, o que estás a fazê?
Explico-te que estive na água e que estou a aproveitar o sol para me secar.
Agora, estás pronto para as apresentações:
- Este é o meu peixe! - e aproxima-lo da minha cara, o suficiente para eu ficar, eventualmente, enjoada. Mas não fico porque entrei no teu jogo e quero ver o que tu vês.
Gostaste que te dissesse que tinhas um lindo peixe. Pegas na minha mão. Queres que eu lhe toque, em jeito de festinha. Com muita calma, aproveito-me do teu ângulo de visão - cálculos matemáticos escondidos a cada canto - e simulo esse toque. Sorris e eu também, mais uma vez.
- Já tem nome? - pergunto-te eu, para fazer conversa.
- Ele não 'tá morrido! - respondes, ignorando a pergunta.
Repito a minha sugestão e deixo-te confuso, recordando que as diferenças entre nós passam, também, pelas duas centenas de quilómetros que nos separam. Talvez não conheças o conceito de animal de estimação. Não me admiraria.
Dizes-me que vais "até ali", diriges-me um simpático adeus e segues para as tuas brincadeiras.
Quando, de novo, dou por ti, voltaste à água com o teu amigo. Andam concentrados a olhar para baixo, perscutando as margens.
- São dois peixinhos!!! - gritam ambos, triunfantes, elevando no ar a vossa nova conquista. De facto, acabam de apanhar um novo peixe - mais pequeno ainda -, que veem tão vivo como o anterior, embora esteja igualmente morto.
Mais tarde, vêm ambos ter comigo, cada qual com seu defunto na mão. Sorrio-vos, dou-vos conversa, mas agora a sentir-me encurralada por ter um peixe de cada lado. Felizmente, dura pouco e vais à tua vida, o teu amigo logo a seguir.
Passaste o resto da tarde a atirar os peixes à água, para ele os ir apanhar outra vez. E entretanto, porque tinhas de dar razão ao teu sorriso malandro, atiras também o boné que tinhas na tua cabeça, não sem antes procurares a tua família, estudando se estás a salvo de seres apanhado. Estavas mesmo.
Se fosse responsável por ti, no mesmo segundo em que levasses a mão ao primeiro peixe morto, a minha voz seria rápida, no tom e nas palavras, e largá-lo-ias, sem qualquer outra hipótese. Ter-te-ia roubado, sem querer, a magia da tua brincadeira espontânea pois, afinal, pertenço ao mundo dos adultos, que olham para o peixe morto e veem morto-podre-mãos na boca-doença. Mas, só por hoje, uma vez sem exemplo, decidi viajar ao teu mundo e esquecer o meu.
Gostei de te conhecer.