Como esquecer? Como não saber quem é aquele jovem adulto que nos ocupou tanto do nosso tempo? Como não identificar alguém a quem nos dedicámos de corpo e alma, há mais ou menos tempo?
Noite de sexta, restauração do Colombo. Pré convívio antes de um jogo de bowling. Estamos a jantar.
Sou a primeira a vê-los. Mais do mesmo, por ali: um jovem casal, com aspeto de quem vive nas ruas, a pedir dinheiro a quem janta. Aviso o grupo, antecipando a situação. Éramos os próximos a ser abordados.
Rastas
até à cintura, tatuagens e muitos brincos desviam a minha atenção das
expressões de ambos. Até que chega a nossa vez.
“Podiam dar-nos dinheiro, para podermos comer alguma coisa?”
Noto agora as expressões de cada um: olhos profundamente tristes, semblante infeliz. Ainda assim, recusamos ajudar, pois nunca se sabe para que realmente querem o dinheiro que pedem.
Sempre que faço algo assim, cada milésimo de segundo em que o "pedinte" ali permanece torna o momento mais e mais desconfortável.
Eles vão-se embora e nós retomamos o nosso convívio. Que alívio.
Passam dois ou três minutos.
A rapariga que nos pediu dinheiro, e que terá vinte e poucos anos, volta à nossa mesa, agora pelo lado contrário - o meu. O desconforto é, de imediato, retomado, e eu não quero acreditar que ela irá insistir, quando acabámos de recusar.
Só
que não é isso que acontece. E eu não consigo prever que o meu coração está
prestes a despedaçar-se...
A rapariga olha-me diretamente e não consigo processar logo o que ela me está a dizer. Porque não pode ser possível! Porque, quando eles nos abordam, no “mundo real”, é imediato vermos um bocadinho de quem eles eram quando se sentavam na nossa sala de aula e no nosso colo… E eu não vejo.
“Queria-lhe só dizer que foi minha professora, e que eu gostei mesmo muito de ser sua aluna.”
É então que, agora sim, a vejo. O nome dela sai-me, numa exclamação chocada, enquanto o meu coração se parte em pedaços, ali mesmo. E, entre um turbilhão de emoções, durante o qual sou bombardeada pelas memórias mais doces que tenho da melhor versão daquela minha ex-aluna, levanto-me num impulso e abraço-a, com tudo o que tenho. Ela retribui, mas não durante tanto tempo como eu precisava. E não consigo conter o meu choque, perguntar-lhe o que se passou, enquanto ela começa a dar pequenos passos para trás.
“Sim… as coisas correram um bocado mal.”
Poderia parecer exagero dizer que esta menina foi das minhas crianças mais especiais e próximas, daquelas seis turmas que passaram por mim, na escola anterior. Não é. Não é mesmo. Era uma “aluna lapa”, das que está sempre coladinha a nós… E, agora, no meio daquela cena, só quero que ela volte a ser aquela criança e que confie em mim, como há mais de dez anos atrás confiava.
Também está sem saber bem como reagir, e provavelmente não esperava ser abraçada, sinto-o. E eu estou desesperada por ganhar mais tempo. Quero resgatá-la ali mesmo, do que quer que esteja a viver! Pegar naquela miúda de vinte e poucos anos, levá-la para minha casa, dizer-lhe que vai ficar tudo bem...
Volto a abraçá-la com força. Tento que não me fuja já, enquanto procuro as palavras corretas e percebo que nunca as vou encontrar.
Coloco-lhe as mãos nos ombros, olho-a nos olhos, deixo sair algo sobre ainda ir a tempo de não desperdiçar as fantásticas capacidades que lhe reconhecia, ou o suporte da sua família. Digo que quero que se endireite.
“Sim…”
Mais passos para trás. Mas eu avanço, para compensar aqueles que ela já deu em sentido contrário.
Abraço-a uma vez mais. Mais força, mais tempo. E, depois, deixo-a ir, mas a minha noite acaba aqui.
Há muitas coisas para as quais a experiência de vida e a de profissão não nos preparam, de todo. Encontrar os nossos ex-alunos a viverem as suas vidas no “mundo real” tem sido um bálsamo para a alma. Só que, afinal, esses reencontros podem não ser exatamente da forma que idealizámos.
Não estava preparada para encontrar aquela menina num mundo "demasiado real".
Não
assim.
Não a pedir dinheiro para comer.
