O que é isso da saudade?
A verdadeira saudade.
(A que dói e corrói.)
Dei-me ao trabalho de espreitar a definição que o dicionário lhe dava e fiquei surpreendida. Não contava encontrar algo tão completo. Assim:
Contudo, por outro lado, ali não encontro nada que explique que a saudade nos obriga a olhar para nós, de fora para dentro. E de dentro para fora.
Mas ela obriga.
Também não explica que nos força a refletir sobre que raio é que se passa connosco.
Mas ela força.
Não esclarece o que é que estamos a fazer de errado para não podermos, simplesmente, chegar a casa ao final do dia e despir aquilo, limpá-lo de nós, como qualquer outra rotina.
Não explica como se sai dali.
Não quantifica a dimensão do sentimento.
Não avisa que não temos muito tempo para nos prepararmos.
Não prepara para nos sentirmos assoberbados quando, num só momento, se junta a saudade de alguém, de lugares, de sons, de sensações e, até, de quem já fomos.
Gargalhadas.
Telefonemas - muitos e longos.
Cumplicidade.
ESTARMOS.
Não antecipa que isso, tudo junto, transborda para fora de nós, enche o espaço à nossa volta e instala-se em todos os cantos da nossa vida. E que, por isso, para onde quer que olhemos, vemos aquilo: a conjugação das saudades todas numa só.
Dói. Corrói.
A meta? A meta está naquele ponto em que as saudades já não serão exatamente saudades. Serão paz e farão sorrir. Sorrir, apenas. Sentir aquele quentinho no coração. Conforto. E poderemos seguir em frente com o nosso percurso, transportando somente uma mochila de doces recordações - não de saudades.
Mas onde é que isso fica?
A vida tem sempre este condão de nos obrigar a ser… humanos. Ser humano. Ser. Humano. Pessoa.
Às vezes, gostava de ser um simples robô.
Uma máquina.

