quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Até à próxima jogada...


Praia. Manhã. Assento relativamente próximo de uma família: avó, avô e tu, o neto.
Jogas à petanca com o avô. A avó está na toalha.
Ele tem o típico ar de avô que passou a manhã a fazer-te as vontades. E tu... tu o ar de um rapaz mimado de 11 anos. Estou longe, mas percebo que o comandas sem que tenhas de te esforçar muito para que te obedeça.
Desligo-me de vocês durante cerca de uma hora, até que os três se juntam no jogo da petanca e mudam de sítio, para bem próximo de mim. Diria que demasiado - aquela noção que falta a muitos seres humanos, de “espaço pessoal”. Vocês invadem o meu, por isso agora invado eu o vosso também.
Todos vão lançado a bola à vez, pela ordem que tu decidiste: avô, avó, rapaz. Percebo que não queres ser o primeiro porque não admites perder e motiva-te atirar a bola sabendo já onde as deles foram parar.
Lanças com entrega e espírito de campeão. Só que perdes sempre.
Durante o vosso jogo, começas a incomodar-me. Não paras de dar ordens aos teus avós. Queres que façam “poses” antes de atirar (exemplificas e quase me rio para fora), queres que tenham “gritos de guerra” individuais, mas eles só querem lançar a bola e esquivam-se subtilmente às tuas exigências.

Mas não te mandam calar.
Não gosto do tom com que falas, rapaz...
Numa das tuas jogadas, a bola sai-te mal. Vais apanhá-la e repetes. Mais tarde, o mesmo sucede à tua avó, mas tu autoproclamaste-te de “líder do jogo”, por isso decides que não há repetição da jogada. Só que a bola da avó já está na mão dela.
Gritas. Gritas-lhe que largue a bola e a ponha onde caiu. Insistes muito e eu já não te posso ouvir mais a dirigires-te a ela aos berros. E então acontece: o som inconfundível, seco, rápido de uma palmada no rabo. Bem dada.
A tua avó aproxima a cara de ti e, sem gritar, é firme na forma como te diz que o jogo acabou e que não voltas a falar naquele tom.
Depois, o silêncio. Foste apanhado desprevenido e não sabes como reagir. Então, não reages. Estancas. Ela vira-te as costas e vai para a sua toalha. Já o teu avô fica na dúvida sobre para que lado se virar... então murmura, entre dentes, que vai recolher as bolas e segue também para a toalha.
Agora estás sozinho.

Quase que o teu queixo se funde com o teu peito, quase que te enterras na areia... Depois lembras-te de espreitar para dentro dos calções, à procura da tatuagem daquela palmada.
Permaneces sem nenhuma ideia do passo seguinte. O silêncio. Continuas com o corpo a formar uma letra “C” até te sentires pronto a tomar uma decisão.
Decides caminhar para longe (a “distância de segurança”, não estás exatamente a fugir dos teus avós) e sentas-te na areia. Em silêncio.
Estou curiosa porque quero saber quem vai ceder em primeiro lugar. Faço a minha aposta: afinal, eles são teus avós, e é de conhecimento universal o significado que isso tem.
Mas engano-me.

Dez minutos depois, começas tu a construir a tua “bandeira branca”, e então dás uns passos na direção deles e sentas-te mais próximo. Repetes o processo mais duas ou três vezes. Só que eles estão mais firmes que nunca e, então, passas à segunda fase: gemidos e gritinhos, corridinhas e saltinhos...
A determinação dos teus avós veio para ficar. Acho que são de outro planeta... (Já pensaste em pedir-lhes desculpa?)
Avó, olha esta cascata de areia!” - e aqui estou de costas e não posso ver nem consigo ouvir como ela reage.
Quando já estás oficialmente no vosso lugar, encetas uma conversa que diriges ao teu avô porque queres que vá contigo à água. Usas o trunfo de uma criança inteligente, capaz de vergar qualquer familiar adulto - caso fosse verdade. Atiras-lhe um “Estiveste pouco tempo comigo!”. O teu avô tem resposta para isso, só que eu não a consigo ouvir.
Acabas sozinho na água e divertes-te nas ondas. Estás tão bem, que te desligas do que acabou de acontecer. Afastas-te um pouco da areia e eles levantam-se para ir olhar por ti.
Os três arrefeceram as ideias e tudo voltou ao normal...
Na areia, até tens direito a uma bola de Berlim... e os avós afinal são deste planeta, como todos os outros. Pelo menos, até à próxima jogada que correr mal à tua avó.