sábado, 6 de abril de 2013

Como sempre...?


Dia 1
A parte mais fácil é decidir ir. A mais difícil é ir.
Tem sido, ao longo de tantos anos, um dos momentos mais aguardados, mais doces. Anualmente, lá está aquela noite de todas as emoções, no lugar que mais as desperta. Basta o pé atravessar o portão para a cascata das recordações começar a correr.  
Coração apertado, nó na garganta.  
O cenário de fundo faz-se sempre de cores e ritmos variados, mas acaba por passar para segundo plano. O que os olhos procuram são fotos de tempos passados, crianças que já não o são e adultos que me tornaram uma também. 
Não vou lá para ver. Vou para sentir.  
Coração apertado, nó na garganta.  
O tempo tem feito mover a plataforma da distância. Essa lição já eu a venho a estudar há muito, muito tempo. Mas sempre achei que este lugar seria mais forte e resistiria. A realidade é que, às vezes, parece que nos estamos a perder aos poucos e que, no meio, começa a só haver espaço para os que vão chegando depois de nós. Penso que eles, os "meus adultos", também sentem estes movimentos, só que não percebem porquê. (Porque eu já de lá saí há onze anos e parece que foi apenas há dois ou três.) 
Ficam, sempre, genuinamente felizes e orgulhosos de saber notícias (sobretudo os que, verdadeiramente, não nos esquecem).
Gostei. Gosto sempre. Mas há um peso persistente, que não sei ignorar.  
Ficam as trocas de sorrisos, que são o cartão de visita de primeira retenção.  
Ficam as saudades daquelas pessoas maravilhosas que me ajudaram a ser tão feliz.  
Fica a tristeza de já lá não estarem muitas destas pessoas.  
Ficam as imagens do lugar que foi a segunda casa.  
Fica um "ciuminho" dos que vêm ocupar o meu lugar, ao longo de todos estes anos.  
Fica uma distância crescente... até ao dia em que já não estará lá ninguém para me receber.

Dia 2
No dia seguinte, vem o epílogo. Como sempre. 
As pessoas da véspera voltam, agora à luz do dia e com sorrisos mais descontraídos e luminosos, pois competem-lhes, nesta segunda ronda, atividades mais lúdicas, onde até se trajam a rigor. 
Encontro, finalmente (especificamente, porque a procurei), uma das pessoas que melhor me recebe aqui e que cultiva o meu sentimento de nunca ter chegado a sair. Poderia até não encontrar muitas das outras, mas esta é das imprescindíveis, enquanto uma das minhas grandes "mentoras". E tudo começou quando eu ainda nem completara 10 anos. Primeiro, uma Professora adorada por uma criança de 2.º Ciclo. Mais tarde, uma amiga sempre disponível, por alturas do Secundário, a transbordar de "Adoro a minha profissão"... Contagiou-me.
Depois de mais momentos de cor e ritmo, cruzo-me com outra das pessoas que só trazem doces recordações. Ao fim de quase nove décadas de vida - estranhamente tão visíveis, quando se acha que tudo aquilo está parado, tal e qual como deixámos -, a forma como me mantém presente em si é extraordinária e acrescenta mais pozinhos ao turbilhão de sentimentos.
No final, despeço-me apenas de quem melhor me recebe e saio, com uma das minhas melhores amigas.
Como sempre, de coração apertado e sentimentos à flor da pele, deixo para trás um lugar de memórias.
Como sempre, trago imagens fortalecidas e saudades.
E quero continuar a voltar... Como sempre...?