quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Amo-te, IKEA


Eu e dois cavalheiros vamos até ao IKEA, devido a uma encomenda de seis grandes volumes. O ambiente está calmo, a taxa de frequência é minúscula e, assim, os corredores estão desempedidos.
Depois da lista recolhida, orçamento impresso, caminhamos seguindo as setas que, se bem me lembro, até há pouco tempo permitiam atalhos não muito evidentes. Que já não permitem.
Direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda...
Já suspiramos e o humor começa a sofrer as consequências.
"Chegámos! Ah não, ainda não é aqui."
"Finalmente!! Ah... ainda temos de contornar aquele expositor."
Eis que se atinge o largo "pórtico" que anuncia a meta... E só mais um bocadinho em frente, e só mais um bocadinho à direita, frente, frente, frente... contorna um amontoado de cadeiras, caixas de enfeites natalícios. Números das caixas à vista... fechada. Fechada. Fechada. Fechada. Caixas 10, 11, 12 e 13 com luzinha acesa.
Caso 1
Pelo caminho, um homem - pessoa n.º 1 - de ar absolutamente suspeito, estranho e aéreo, parece estar demasiado próximo de nós. Há um ligeiro desconforto, algo que não bate inteiramente certo. Vem atrás de nós - diria mesmo que nos segue - e para na caixa, transportando algo na mão; concluo que vai comprar.
Caso 2
Na caixa, desenrola-se uma convesa a três, que não passa de uma troca de olhares e palavras silenciosas que se leem nos lábios. A opinião é unânime: a pessoa n.º 1 está atrás de nós mas não é cliente. Tem, na mão, uma estranha pasta tamanho A5, velha, cheia de papeladas que saem pelas bordas. Mais nada.
O cavalheiro do dinheiro avança, com o papel da suposta encomenda na mão. A pessoa n.º 2 - empregada da caixa - olha o papel, semicerra os olhos e fala.
- Este papel é apenas o orçamento, não permite fazer a compra. Tem de se dirigir aos meus colegas do interior da loja, para que procedam ao registo da compra.
- Pode ser aqui já, naquele balcão de informações?
- Com certeza...
Fazemos o movimento de abandonar a fila da caixa e a pessoa n.º 1, que ouviu a conversa, imita.
- Vou eu e vocês ficam aí?
- Sim...
E a pessoa n.º 1 fica também.
- Afinal vamos. - seguimos, juntos outra vez.
Caso 3
A pessoa n.º 1, recordo que de mau aspeto, ar lunático e pouco cuidado, faz o mesmo - abandona a caixa -, e sempre com uma proximidade física exagerada, originando isto:
- Desculpe, estou a ficar um bocado... - diz um dos cavalheiros, rapidamente interrompido pela pessoa n.º 1, que responde algo do género:
- Não é isso! É que... Onde é que são as informações das encomendas?
- São ali fora, por isso tem de sair...
A pessoa n.º 1, que sabe para onde iríamos de seguida, acelera o passo, caminha na direção contrária à que "supostamente" pretendia e encaminha-se, qual relâmpago, para o preciso balcão a que nos iríamos dirigir.
Caso 4
Com muitas inspirações e expirações enraivecidas, esperamos. A pessoa n.º 1 toma conta do empregado do balcão, fazendo perguntas sem encadeamento lógico ou aparente interesse do próprio... No momento em que pega no catálogo da loja e começa a folhear, há uma perda de paciência e avançamos, ignorando a companhia surreal. Somos atendidos pela pessoa n.º 3.
Durante o nosso período de atendimento, a pessoa n.º 1 folheia o catálogo três vezes, com os dedos nas folhas e os olhos num dos cavalheiros. Ao fim da terceira, poisa o catálogo e, assim como até ali quase correu, assim se foi.
Caso 5
A pessoa n.º 3 - visivelmente inexperiente - começa a processar lentamente a encomenda, chegando a registar a morada de entrega, quando não é da sua competência. Chama a pessoa n.º 4, que passa a explicações e deixa claro que toda a encomenda fica comprometida porque um dos artigos esgotou. E porque não há reservas. Com estas informações, reserva somente mais uma visita à loja.
Saímos. Afinal, não serviu para nada a ida ao Ikea.
Caso 6
- Mas... e se ficassem já pagos os outros artigos? Pelo menos esses ficavam garantidos.
Voltamos à pessoa n.º 4 que, de repente, explica a facilidade de anexar, mais tarde, o último artigo à encomenda já feita. E que o papel já entregue permitia que nos dirigíssemos diretamente à caixa.
Informação de qualidade. Ok... serão treinados para apenas responderem a perguntas, ao invés de apresentarem soluções?!
Caso 7
Na caixa, o empregado - pessoa n.º 5 - arqueia as sobrancelhas ao olhar para o papel.
- Têm que trazer estes artigos...
- Não está a perceber, é para o serviço de entregas!
Pagamento efetuado e, entretanto, a história leva já 1h de vida.
Caso 8
- As senhas do serviço de entrega?
Olhamos, olhamos, olhamos... Estão numa coluna, bastante discretas e mal sinalizadas.
Senha. Atendimento imediato.
A pessoa n.º 6 é da companhia de entregas e recebe mal a notícia do cavalheiro que anuncia a intenção de entregar um colchão para a reciclagem. Não ganharia um prémio de simpatia.
O cavalheiro indignado explica que o IKEA tem um cartaz gigante a publicitar a recolha de colchões velhos e a pessoa n.º 6 vai ter com colegas, depois desaparece. Durante tempo demais.
Caso 9
A pessoa n.º 7 está ao nosso lado, na outra caixa de recolha e entrega de mercadorias. Tem um carrinho, jeito snobe, e um tapete bem grande. Refila, e refila com veemência.
- Têm que me enrolar o tapete como deve ser! A senhora desenrolou-o para ver o preço! Isto é inadmissível! Quero-o enrolado e com fita-cola, para não se estragar!
Quem a atende também não prima pela simpatia. Responde, inclusivamente, que não tem de o fazer, pois não é ela que transporta as coisas. Di-lo daquela maneira em que não há hipótese de tentarmos ser compreensivos.
Vêm, então, dois homens armados com um rolo de fita-cola, que gentilmente enrolam o tapete na perfeição, no entanto com direito a banda sonora:
- A senhora da caixa é muito antipática! Onde é que já se viu!?
Depois, virando-se para ela, quando esta regressa, diz:
- Vá, diga lá o que é que você precisa! - e começa a ditar os seus dados pessoas, para a entrega.
Caso 10
Volta a pessoa n.º 6, que informa que o colchão ficará à responsabilidade do IKEA. Também informa que, para novo acesso ao contrato - posteriormente, no momento de acrescentar o último artigo - será cobrada uma taxa de 15 euros e uns cêntimos. Altura para rirmos e recordarmos a piada dita no momento em que ficámos a saber que 30 euros é o preço a pagar por pedir aos empregados que recolham os imensos volumes comprados hoje: "Atenção, que ainda vamos pagar 5 euros para poder sair daqui!".
Caso 11
É exposta uma dúvida à pessoa n.º 6 que, enquanto responde, é interrompida por um colega e atreve-se a, simplesmente, ignorar o seu cliente, virando-lhe a cara e suspendendo a sua resposta, para dar atenção ao outro.
- (baixinho) Regras de boa educação?!
- Não me piques!! Estou-me a passar!
Calo-me.
Vamos embora a rir.
Amo-te, Ikea.