segunda-feira, 23 de abril de 2012

de:Cérebro / para:Coração




Tu aí...
Sim, tu...
...Tu... que tens a mania de agarrar tudo quanto vivemos e guardar aí dentro... tudo compartimentado, organizado, distribuído por gavetas onde não me deixas chegar.
Gostava que, de vez em quando - só de vez em quando, em vez de nunca -, me deixasses abrir uma, duas ou três gavetinhas das tuas. Gostaria que me deixasses ir a algumas memórias confortáveis e doces para que eu as pudesse apagar. Ou então - e atenção, isto é um bom negócio - reduzi-las a metade...
Repara: há muita coisa que aí tens guardada, sobretudo naquelas gavetas enormes, que eu mal consigo vislumbrar daqui. 
Tens algumas memórias boas de recordar, boas de reviver. Muitas delas são fáceis de aceitar como sendo irrepetíveis. Com essas, posso eu bem; adoro quando estou em momentos de silêncio e tu abres, subtilmente, uma ou outra gaveta, e as trazes até aqui acima. Nessas alturas, voo contigo e acabo sempre a sorrir.
Mas... e as outras? As memórias que não se comportam assim?
Sabes aquela sobre a qual, há pouco, falámos? E a outra, que reapareceu ainda ontem? Era a essas que eu gostava que me deixasses chegar, porque desistir delas parece-me mais sensato que aceitar que não se repetirão. Cada vez que entro no silêncio e tu decides que é hora de as trazer, parece que travamos um braço-de-ferro. E tu és sempre o vencedor.
Gosto - gosto mesmo - de viajar contigo, de percorrer dias e dias de uma vida cheia de momentos de profunda ternura e sei que, a cada dia que passa, continuas a aumentar esse número infindável de gavetas, gavetinhas e gavetões. Mas... será pedir muito que te tornes um pouco mais racional?
Nascemos assim: toda a capacidade de pensar e ponderar me calhou a mim; toda a capacidade de sentir e viver calhou-te a ti. O desequilíbrio não poderia ter sido maior. É por isso que te peço uma tentativa de nos equilibrarmos e completarmos...
Pensa nisso.