quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"Eu quero" - A birra



Tudo começou de manhã, bem cedo. (Adivinho que aquele pai diria "cedo demais".)

Estava a começar a tomar o pequeno-almoço naquele meu modo zen, de BD aberta na mesa, caneca de leite com café numa mão, torrada com manteiga na outra. A janela estava aberta (o zen cheiro da manhã...), já se ouvia a passarada. E veio aquele som que me roubou o estado meditativo matinal...

Era uma birra pura, daquelas bem puras, bem requintadas, donas de uma incrível capacidade de perturbar o mais zen dos cérebros. E em plena rua cheia de prédios de habitação, a ampliar assustadoramente o som que saía daqueles pulmões cheios.

Fiz o que qualquer pessoa bisbilhoteira faria: levantei-me e fui à janela.

O pai ia à frente, num passo apressado, levando uma criança de colo. Atrás, a tentar acompanhar, uma menina de 4 ou 5 anos, que berrava desalmadamente, entre lágrimas, "Eu quero levar um brinquedo!".

As birras de "Eu quero" devem ser as que mais facilmente tiram os pais do sério...

O pai seguia o protocolo da birra "Eu quero", o que significa então: em primeiro lugar, não cedeu ao desejo da filha; em segundo lugar, ignorou completamente o que se estava a passar atrás de si. Certamente estava a preparar-se para o terceiro passo, seja ele qual for, mas...

Fui buscar a caneca e a torrada e voltei com elas para a janela.

Chegam ao carro e o pai dedica-se, com distinção, à tarefa de prender a criança de colo à cadeirinha do banco de trás. E foi aqui. Foi aqui que a autora desta "Eu quero", seguindo também ela todos os protocolos da sua parte, decide expandir a sua birra à porta da frente do carro, na segurança de ter a porta de trás a fazer de escudo entre ela e o pai. Com duas mãozinha pequenas, mas com uma destreza e uma força dignas de uma criança bem mais velha, consegue abrir e bater a porta repetidas vezes, com enorme violência...

Ao elevar assim, subitamente, o nível da birra, fez com que se pressionasse, no cérebro do pai, aquele gatilho que o fez esquecer o seu protocolo no preciso segundo... Aí, nenhum escudo lhe valeu.

O pai, claro está, fechou imediatamente a porta que estava entre os dois no passeio, e descarregou, de forma animal, tudo o que contivera até ali. Não foi uma "palmada pedagógica"... foram muitas palmadas (ou o que quer que se chame àquilo), dadas de forma rápida e seguida nas costas da criança (talvez na nuca também; onde conseguiu, no que lhe apareceu à frente da mão). Não contente com isso, agarra-a com poucos cuidados, dá a volta ao carro e quase que a atira para a cadeirinha lá atrás.

Enquanto a prende com o cinto, ela chora e berra-lhe aos ouvidos, continuando a repetir "Eu quero levar um brinquedo!".

O pai fecha a porta e examina-se. Olha para o fato que vestiu para trabalhar e faz gestos de quem acaba de descobrir que se sujou... Limpa-se com toalhitas e volta a pegar na criança de colo. Examina-a e, pela forma como a limpa, adivinho que há um presente na fralda e que este já subiu até às costas.

No meio de tudo isto, quando devolve ao banco a criança mais nova, a outra continua totalmente entregue à sua birra. E apanha mais...

Cada vez que o pai lhe bate, ela berra ainda mais alto "Eu quero levar um brinquedo!". 

É a vez dele gritar "Não levas brinquedo nenhum!!!".

Ela volta a subir a parada, esperneia, mexe-se para todos os lados, força o cinto se segurança... e volta a apanhar.

Cá em cima, é desta vez que oiço, entre as suas lágrimas, soluços e gritos, um arrepiante "Ó pai, não me batas mais!!". 

Talvez o pai não lhe tenha voltado a bater (nesta altura fiquei com a memória turva, pois já só queria estar lá em baixo e poder fazer alguma coisa).

Depois das limpezas, partiram de carro. E ela foi a fazer a sua birra...

Quero imaginar este pai a deixar a criança na escola já pensativo. Quero imaginá-lo a chegar ao trabalho e a não se conseguir concentrar nas suas tarefas, perseguido por um enorme peso na consciência. E quero imaginá-lo de noite, ao deitar, a não conseguir adormecer enquanto conclui que se excedeu completamente, prometendo-se a si mesmo nunca mais perder a calma daquela maneira.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A festa de Natal

Finalmente os dias que antecediam o grande acontecimento pareciam ser livres de nervosismos, à roda de uma festa que, pela primeira vez, teve uma preparação com momentos de profunda falta de inspiração mas que, em 4 semanas, ganhou forma e ocupou espaço nos nossos dias.

Também pela primeira vez se pensou "Algum dia, estes nervos teriam de desaparecer, com o tempo, com a prática..." - era este ano, o nono. De certezinha.

Mas depois vieram os pesadelos noturnos, vindos da profunda coisa estranha que todos somos e aonde não conseguimos chegar facilmente. O inconsciente dá um arzinho de sua graça e chama-nos para um sonho onde as músicas desapareceram do computador da escola na hora h, no dia seguinte para outro que nos põe em palco cedo demais sem que tivéssemos treinado vez alguma, e para um terceiro - um estranho terceiro - no qual estamos num autocarro com crianças e pais, à procura de um local onde possamos fazer a festa... e claro que nunca lá chegamos. Consciente tranquilo. (Era este ano que a sabedoria dos mais velhos se confirmava e a coisa ia custar muito menos.)

Dia 10. Uma hora e meia antes. (Qual tranquilidade.)

É aqui que tudo começa.

Vê-se, com muita força, o corpo completamente mergulhado em nervos, lê-se aos alunos para que a própria professora desvie a sua atenção do terrível período de espera, a porta está fechada e, de cada vez que se abre, tudo fica parado porque ai-meu-Deus-que-é-agora, mas afinal ainda não é, e "Ó professora, não mostrou a imagem desse capítulo", e "O Pinóquio, o Gato, a Raposa, os dobrões de ouro, a taberna do caranguejo encarnado, o Grilo Falante", e a turma E saiu da sala (já só faltam duas atuações para a nossa), mas será que já começaram?, e voltamos ao Pinóquio, e "Professora, caiu-me a cauda", e dizem que estão nervosos, e digo que não é necessário porque o último ensaio (nessa manhã) correu mal que se fartou (diz-se que é bom presságio).

A turma E chega à sala e ai-meu-Deus-que-é-agora, e a vigilante abre a porta e diz que é mesmo, e mando calar porque vamos estar nos balneários (onde qualquer barulho se ouve no palco), e chegamos, e a festa anterior vai acabar agora (mas afinal ainda não), e vai acabar agora (afinal também não é já), "Ai Pipa, que estou nervosa", "Ai querida, vai tudo correr bem, eu cá não tenho nervos nenhuns" - e juro que o corpo me treme porque há nervos e não são poucos.

Depois o momento que mais ansiávamos está a um abrir de cortinas de acontecer. Últimas considerações, sorrisos e palavras de calma (calma...). "Estejam atentos às músicas".

O enormérrimo acontecimento parece durar bem menos que os 15 minutos programados, e depois acaba e... O quê?! Já foi???

E a professora não faz ideia se correu bem, se correu mal, se correu assim-assim, porque parte da vida dos 26 girou à volta desse momento nos últimos dias, e a professora não saiu da música porque não queria que os alunos dependessem de a ver para serem autónomos em palco, e voltamos à sala, e o alívio não vem porque os nervos foram desmedidos e ainda não fazem o corpo crer que já passou. E não interessa a fala da raposa à qual faltou uma frase inteira, não interessam as crianças que falaram rápido demais e que às vezes nem deixaram que se percebessem algumas palavras, não interessa o grupo de animais que estava distraído e não entrou no tempo certo, nem interessam as personagens que disseram as últimas palavras já completamente fora do microfone (tal como não interessam os milhares de vezes em que lhes disse que não o fizessem), nem os alunos que se baixaram ou levantaram na onda cedo demais, nem...

E os pais dizem que correu bem - mas dizem sempre porque ficam babados só de ver os seus mais que tudo atuarem, e não conseguimos medir se o tamanho dos "parabéns" é diferente dos dos  anos anteriores, e...

Respira fundo, professora.

E vamos, calmamente, ao que interessa!

Hoje, dia 10, posso dizer que rebento de orgulho pelo que cada um dos meus alunos queridos fez em cima do palco. Foi com uma felicidade imensa que assisti à desinibição dos naturalmente tímidos, à expressividade com que cada um se entregou à personagem que escolheu ter e à forma feliz como viveram mais uma memória que hoje construímos juntos.

A certeza do dia: a de que cada um deu, sem dúvida, o seu melhor!

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Um menino: o J.


Conheci-o no mês do seu terceiro aniversário. Acabara de ser apanhado pelo terrível "Monstrinho Escola Nova" e chorava todas as manhãs. Estendi-lhe os braços no primeiro dia em que o vi.
Saltou para o meu colo e foi assim.
A magia do J. apanhou-me como alguns mais pequenos às vezes apanham. Durante cerca de uma semana, teve o privilégio que conquistou: colo, mimos e atenção a toda a hora...
Era especialmente doce e dono de uma forma muito própria de comunicar, com vocabulário engraçado, uma expressividade de menino crescido e uma capacidade única de retribuir. Vivia no meio das histórias construídas com os animais que trazia no bolso do bibe verdinho, e ora ia até à selva deles, ora os trazia à nossa escola.
Nas minhas férias, tive saudades dele.
Pouco depois, o pequeno J. é novamente posto à prova... As aulas começam e o "Monstrinho" está à espreita. Mas, agora, o meu pequeno amigo já não está rodeado de meia dúzia de crianças - sim de umas boas dezenas delas. 
O J. está a chorar muito quando me aproximo. Descubro que foi um impulso irrefletido o que acabo de fazer: ele pede-me, desesperadamente, que não o largue do colo e que o leve para a minha sala... Por dentro, cai-me tudo, e tenho 25 crianças de quarto ano à minha espera.
Negoceio. Negociamos muito os dois, mas ele sabe bem o que quer e eu não consigo demovê-lo da ideia de vir comigo. Então, deixo-o a chorar, diretamente com a sua querida educadora, que lhe dá logo uma mão especial.
Quando acorda da sesta estou lá e tenho o privilégio de receber o melhor abraço do dia...
Os dias foram passando e, ao fim se algumas semanas, o J. deixou de chorar e de chamar pelos pais de manhã. Foi aí que me deixou mais à vontade e me livrou dos problemas de consciência de o procurar pela escola.
No dia em que o levei à nossa sala pela primeira vez, a sua magia também se estendeu aos meus alunos. Elas queriam pegar-lhe ao colo, eles queriam saber se era do Benfica ou do Sporting e pediam-lhe "Dá cá 5!". 
Se o J. chorava, os meus mais "rufias" estavam já prontos a descobrir o colega responsável, para lhe mostrar que, com o "nosso JC", ninguém se metia. E, se nos cruzávamos nos recreios, o nosso pequeno grande amigo ficava rodeado de matulões de 9 anos, a quem eu tinha de recordar que ele não era um brinquedo.
A hora de acordar da sesta coincidia várias vezes com aulas que eram dadas por outros professores, por isso lá estava eu, a vê-lo sorrir para mim com a sua carinha de sono.
Tinha direito a visitas exclusivas à nossa sala - o ar de importante que fazia aos colegas era o mais cómico - e se eles me viam, faziam corridas para ver quem o avisava primeiro.
Quando passámos a ter um coelho na turma, foi a alegria total para o J., que sabia que lhe poderia pegar antes dos outros 25.
Nas visitas de fim de dia - quando a sala já estava vazia - gostava de trazer o seu amigo G. e falar-lhe da sala e do coelho, como se lhe pertencessem - de facto, já pertenciam. Os dois brincavam no quadro interativo, viam filmes e desenhavam... Dava gosto vê-los tão ligados!
No final do ano, dei o meu melhor para lhe explicar o que se ia passar: já não estaríamos na mesma escola a partir do ano seguinte. Fez muitas perguntas, sobretudo "Porquê?". Foi difícil arranjar uma explicação que lhe servisse - não arranjei. Mas prometi que seríamos sempre amigos.

***
No início do segundo ano, contaram-me que ficou confuso por perceber que eu já não estava em nenhum lugar da escola, e ainda mais por ver desconhecidos na minha sala. (Os problemas de consciência eram alguns, nesta altura...)
Visitei-o bastante nesse ano. Nessas visitas, os olhos brilhavam-lhe e não saía do meu colo. Contava-me pequenas histórias dos colegas, ouvia, vaidoso, a sua nova educadora falar-me dele e voltava ao ataque com os seus "porquês"...

***
A vida continuou a fazer das suas e, no ano a seguir, houve condições para uma única visita, logo nos primeiros meses de aulas. Estava numa sala onde já não podia saltar despreocupadamente para o meu colo e conteve-se. Mas sorria, todo ele... doce e especial como sempre fora.
***
Ao fim de 3 anos, nunca mais as nossas rotinas foram parecidas com as daquele primeiro ano. Assim, conheci este mês um J. crescido, independente, com uma cabeça que funciona "a mil à hora", alto e esticadinho - embora com as mesmas feições doces e uma carinha "de bebé" -, com um vocabulário de crescido e uma certa timidez que acabou por desenvolver com a falta de convívios nossos. Mas o mesmo interior mágico... 
Brincou com carrinhos, desafiou o perigo com um guarda-sol e pediu, sozinho, o que quis no café. 
E não deixou de me lembrar, por duas vezes, que nunca mais fui à escola (mas estas coisas não se explicam)...
***

Hoje, o J. faz 6 anos. E foi por isso que me apeteceu fazer esta viagem no tempo...

Parabéns, meu querido!!!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Voltamos já!

Hoje foi dia de pessoas - de as receber. Dia de trocarmos impressões sobre as princesas e os príncipes, de concordarmos sobre empenhos ou preguiças, facilidades e dificuldades, vitórias e derrotas. De olharmos um bocadinho para um passado longínquo e para um futuro próximo. 
Dia de muitas conversas - embora não tantas como seria ideal - e de muito bons momentos, vividos num doce clima de confiança.
E assim, de repente, lembro-me que estamos já a meio da nossa caminhada e fica tudo muito estranho.
Mas, por enquanto, vamos só descansar um bocadinho... Voltamos já!

sábado, 26 de abril de 2014

Aquela noite...


Abraços sem preço. Emoções sem limite.
Aquela noite anual... Aquela em que já saio de casa com o gigante a crescer na garganta. Porque sei sempre o que vou encontrar e, quase sempre, o que vou sentir.
Ali (ainda) não há Carpe Diem, não há Presente. Há Passado (Futuro?). 
Que Passado? O mais feliz que se possa desenhar! Um Passado de valores, de amor e de família; de educação; de partilhas; de crescimento pessoal (e profissional, sem que eu soubesse que já o era).
É por isso que, de certa forma, acho que às vezes não aguento domesticar as diversas investidas das emoções que reagem a tudo isto ao mesmo tempo, durante aquela noite.
Há momentos - sobretudo quando se fazem grandes introduções sobre os valores que ali se cultivam - nos quais parece impossível conter as lágrimas e só apetece gritar "É verdade! É verdade! Aproveitem enquanto aqui estão!".
Desta vez, foi diferente. Comemorava-se uma data especial, os 150 anos de existência. Foi por isso que me foquei nelas. Hoje eram apenas nove, à vista de toda a gente. E inovaram com coragem. Estavam radiantes com o seu momento e deu gosto ver! Mas deu-me que pensar. Deu-me que sentir...
Há dez anos fiz, com uma amiga, o que muita gente nunca sonhou fazer. Pudemos ficar a conhecer o outro lado da vida delas e deixámos uma marca para sempre nas que nos acompanharam. Destas, hoje serão apenas três as que ainda podem contar a nossa história às que não a conhecem, se é que a idade ainda o permite. As outras... ou partiram deste mundo ou estão a cumprir a sua missão noutra parte dele.
Também lá estão duas que me dizem muito, mas a quem não digo eu; era apenas uma criança, quando mudaram de lugar, e agora regressaram e já não me reconhecem. 
Não sermos parte da vida de alguém que é parte da nossa...
"Faltavas-me tu!" - a frase da noite. A mesma que eu diria a qualquer ex-aluno que me tivesse chegado (ainda) mais ao coração.
E mais não digo porque, a partir daqui, o meu texto tornar-se-ia o da publicação de 6 de abril de 2013, "Como sempre...?".
Aquela noite...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Mais que muito


Uma parte de mim pertence-lhes. Há uma fatia que é inteiramente de cada um. Foi o que sempre imaginei e que esteve na origem do meu sonho profissional.
Um ano e uns meses depois, somos totalmente família e a magia veio para ficar.
De olhos carinhosos, sorrisos sinceros e um sem fim de novas formas de mimar, fazem, de cada dia, um dia especial, diferente e doce.
Entram com sede de aprender, de melhorar o que quer que possam, de me agradar, agradar aos outros, de sentir que deram tudo e que podem ficar orgulhosos de si mesmos pelo progresso, pelo sucesso.
Rimo-nos imenso, trabalhamos imenso...
Vejo-os crescer, a mergulhar nos novos conhecimentos e a quererem saber sempre  o que vem a seguir.
Vejo-os a entrar, verdadeiramente, nas tarefas que lhes são propostas e a pedir que venham mais.
Vejo-os viver os jogos com a alegria estampada no coração, a viajar nos livros de histórias que adoram ouvir-me contar.
Vejo-os demorar-se a sair da sala nas horas certas para ficarem só mais um bocadinho... um colinho, um abracinho apertado, uma história para partilhar.
Vejo-os a fazer asneiras e a chorar de arrependimento sincero.
Vejo-os a ler, com a vontade de decifrar conteúdos e de interpretar informações; a contar e a sorrir com os segredos que os números escondem.
Vejo-os a "aprender a ser". A ser TANTO! É maravilhoso podermos fazer o que realmente gostamos, com gente pequena que se torna tão grande à vista do coração...
Adoro-os... Do fundo do coração e mais que muito.

sábado, 6 de abril de 2013

Como sempre...?


Dia 1
A parte mais fácil é decidir ir. A mais difícil é ir.
Tem sido, ao longo de tantos anos, um dos momentos mais aguardados, mais doces. Anualmente, lá está aquela noite de todas as emoções, no lugar que mais as desperta. Basta o pé atravessar o portão para a cascata das recordações começar a correr.  
Coração apertado, nó na garganta.  
O cenário de fundo faz-se sempre de cores e ritmos variados, mas acaba por passar para segundo plano. O que os olhos procuram são fotos de tempos passados, crianças que já não o são e adultos que me tornaram uma também. 
Não vou lá para ver. Vou para sentir.  
Coração apertado, nó na garganta.  
O tempo tem feito mover a plataforma da distância. Essa lição já eu a venho a estudar há muito, muito tempo. Mas sempre achei que este lugar seria mais forte e resistiria. A realidade é que, às vezes, parece que nos estamos a perder aos poucos e que, no meio, começa a só haver espaço para os que vão chegando depois de nós. Penso que eles, os "meus adultos", também sentem estes movimentos, só que não percebem porquê. (Porque eu já de lá saí há onze anos e parece que foi apenas há dois ou três.) 
Ficam, sempre, genuinamente felizes e orgulhosos de saber notícias (sobretudo os que, verdadeiramente, não nos esquecem).
Gostei. Gosto sempre. Mas há um peso persistente, que não sei ignorar.  
Ficam as trocas de sorrisos, que são o cartão de visita de primeira retenção.  
Ficam as saudades daquelas pessoas maravilhosas que me ajudaram a ser tão feliz.  
Fica a tristeza de já lá não estarem muitas destas pessoas.  
Ficam as imagens do lugar que foi a segunda casa.  
Fica um "ciuminho" dos que vêm ocupar o meu lugar, ao longo de todos estes anos.  
Fica uma distância crescente... até ao dia em que já não estará lá ninguém para me receber.

Dia 2
No dia seguinte, vem o epílogo. Como sempre. 
As pessoas da véspera voltam, agora à luz do dia e com sorrisos mais descontraídos e luminosos, pois competem-lhes, nesta segunda ronda, atividades mais lúdicas, onde até se trajam a rigor. 
Encontro, finalmente (especificamente, porque a procurei), uma das pessoas que melhor me recebe aqui e que cultiva o meu sentimento de nunca ter chegado a sair. Poderia até não encontrar muitas das outras, mas esta é das imprescindíveis, enquanto uma das minhas grandes "mentoras". E tudo começou quando eu ainda nem completara 10 anos. Primeiro, uma Professora adorada por uma criança de 2.º Ciclo. Mais tarde, uma amiga sempre disponível, por alturas do Secundário, a transbordar de "Adoro a minha profissão"... Contagiou-me.
Depois de mais momentos de cor e ritmo, cruzo-me com outra das pessoas que só trazem doces recordações. Ao fim de quase nove décadas de vida - estranhamente tão visíveis, quando se acha que tudo aquilo está parado, tal e qual como deixámos -, a forma como me mantém presente em si é extraordinária e acrescenta mais pozinhos ao turbilhão de sentimentos.
No final, despeço-me apenas de quem melhor me recebe e saio, com uma das minhas melhores amigas.
Como sempre, de coração apertado e sentimentos à flor da pele, deixo para trás um lugar de memórias.
Como sempre, trago imagens fortalecidas e saudades.
E quero continuar a voltar... Como sempre...?

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Amo-te, IKEA


Eu e dois cavalheiros vamos até ao IKEA, devido a uma encomenda de seis grandes volumes. O ambiente está calmo, a taxa de frequência é minúscula e, assim, os corredores estão desempedidos.
Depois da lista recolhida, orçamento impresso, caminhamos seguindo as setas que, se bem me lembro, até há pouco tempo permitiam atalhos não muito evidentes. Que já não permitem.
Direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda...
Já suspiramos e o humor começa a sofrer as consequências.
"Chegámos! Ah não, ainda não é aqui."
"Finalmente!! Ah... ainda temos de contornar aquele expositor."
Eis que se atinge o largo "pórtico" que anuncia a meta... E só mais um bocadinho em frente, e só mais um bocadinho à direita, frente, frente, frente... contorna um amontoado de cadeiras, caixas de enfeites natalícios. Números das caixas à vista... fechada. Fechada. Fechada. Fechada. Caixas 10, 11, 12 e 13 com luzinha acesa.
Caso 1
Pelo caminho, um homem - pessoa n.º 1 - de ar absolutamente suspeito, estranho e aéreo, parece estar demasiado próximo de nós. Há um ligeiro desconforto, algo que não bate inteiramente certo. Vem atrás de nós - diria mesmo que nos segue - e para na caixa, transportando algo na mão; concluo que vai comprar.
Caso 2
Na caixa, desenrola-se uma convesa a três, que não passa de uma troca de olhares e palavras silenciosas que se leem nos lábios. A opinião é unânime: a pessoa n.º 1 está atrás de nós mas não é cliente. Tem, na mão, uma estranha pasta tamanho A5, velha, cheia de papeladas que saem pelas bordas. Mais nada.
O cavalheiro do dinheiro avança, com o papel da suposta encomenda na mão. A pessoa n.º 2 - empregada da caixa - olha o papel, semicerra os olhos e fala.
- Este papel é apenas o orçamento, não permite fazer a compra. Tem de se dirigir aos meus colegas do interior da loja, para que procedam ao registo da compra.
- Pode ser aqui já, naquele balcão de informações?
- Com certeza...
Fazemos o movimento de abandonar a fila da caixa e a pessoa n.º 1, que ouviu a conversa, imita.
- Vou eu e vocês ficam aí?
- Sim...
E a pessoa n.º 1 fica também.
- Afinal vamos. - seguimos, juntos outra vez.
Caso 3
A pessoa n.º 1, recordo que de mau aspeto, ar lunático e pouco cuidado, faz o mesmo - abandona a caixa -, e sempre com uma proximidade física exagerada, originando isto:
- Desculpe, estou a ficar um bocado... - diz um dos cavalheiros, rapidamente interrompido pela pessoa n.º 1, que responde algo do género:
- Não é isso! É que... Onde é que são as informações das encomendas?
- São ali fora, por isso tem de sair...
A pessoa n.º 1, que sabe para onde iríamos de seguida, acelera o passo, caminha na direção contrária à que "supostamente" pretendia e encaminha-se, qual relâmpago, para o preciso balcão a que nos iríamos dirigir.
Caso 4
Com muitas inspirações e expirações enraivecidas, esperamos. A pessoa n.º 1 toma conta do empregado do balcão, fazendo perguntas sem encadeamento lógico ou aparente interesse do próprio... No momento em que pega no catálogo da loja e começa a folhear, há uma perda de paciência e avançamos, ignorando a companhia surreal. Somos atendidos pela pessoa n.º 3.
Durante o nosso período de atendimento, a pessoa n.º 1 folheia o catálogo três vezes, com os dedos nas folhas e os olhos num dos cavalheiros. Ao fim da terceira, poisa o catálogo e, assim como até ali quase correu, assim se foi.
Caso 5
A pessoa n.º 3 - visivelmente inexperiente - começa a processar lentamente a encomenda, chegando a registar a morada de entrega, quando não é da sua competência. Chama a pessoa n.º 4, que passa a explicações e deixa claro que toda a encomenda fica comprometida porque um dos artigos esgotou. E porque não há reservas. Com estas informações, reserva somente mais uma visita à loja.
Saímos. Afinal, não serviu para nada a ida ao Ikea.
Caso 6
- Mas... e se ficassem já pagos os outros artigos? Pelo menos esses ficavam garantidos.
Voltamos à pessoa n.º 4 que, de repente, explica a facilidade de anexar, mais tarde, o último artigo à encomenda já feita. E que o papel já entregue permitia que nos dirigíssemos diretamente à caixa.
Informação de qualidade. Ok... serão treinados para apenas responderem a perguntas, ao invés de apresentarem soluções?!
Caso 7
Na caixa, o empregado - pessoa n.º 5 - arqueia as sobrancelhas ao olhar para o papel.
- Têm que trazer estes artigos...
- Não está a perceber, é para o serviço de entregas!
Pagamento efetuado e, entretanto, a história leva já 1h de vida.
Caso 8
- As senhas do serviço de entrega?
Olhamos, olhamos, olhamos... Estão numa coluna, bastante discretas e mal sinalizadas.
Senha. Atendimento imediato.
A pessoa n.º 6 é da companhia de entregas e recebe mal a notícia do cavalheiro que anuncia a intenção de entregar um colchão para a reciclagem. Não ganharia um prémio de simpatia.
O cavalheiro indignado explica que o IKEA tem um cartaz gigante a publicitar a recolha de colchões velhos e a pessoa n.º 6 vai ter com colegas, depois desaparece. Durante tempo demais.
Caso 9
A pessoa n.º 7 está ao nosso lado, na outra caixa de recolha e entrega de mercadorias. Tem um carrinho, jeito snobe, e um tapete bem grande. Refila, e refila com veemência.
- Têm que me enrolar o tapete como deve ser! A senhora desenrolou-o para ver o preço! Isto é inadmissível! Quero-o enrolado e com fita-cola, para não se estragar!
Quem a atende também não prima pela simpatia. Responde, inclusivamente, que não tem de o fazer, pois não é ela que transporta as coisas. Di-lo daquela maneira em que não há hipótese de tentarmos ser compreensivos.
Vêm, então, dois homens armados com um rolo de fita-cola, que gentilmente enrolam o tapete na perfeição, no entanto com direito a banda sonora:
- A senhora da caixa é muito antipática! Onde é que já se viu!?
Depois, virando-se para ela, quando esta regressa, diz:
- Vá, diga lá o que é que você precisa! - e começa a ditar os seus dados pessoas, para a entrega.
Caso 10
Volta a pessoa n.º 6, que informa que o colchão ficará à responsabilidade do IKEA. Também informa que, para novo acesso ao contrato - posteriormente, no momento de acrescentar o último artigo - será cobrada uma taxa de 15 euros e uns cêntimos. Altura para rirmos e recordarmos a piada dita no momento em que ficámos a saber que 30 euros é o preço a pagar por pedir aos empregados que recolham os imensos volumes comprados hoje: "Atenção, que ainda vamos pagar 5 euros para poder sair daqui!".
Caso 11
É exposta uma dúvida à pessoa n.º 6 que, enquanto responde, é interrompida por um colega e atreve-se a, simplesmente, ignorar o seu cliente, virando-lhe a cara e suspendendo a sua resposta, para dar atenção ao outro.
- (baixinho) Regras de boa educação?!
- Não me piques!! Estou-me a passar!
Calo-me.
Vamos embora a rir.
Amo-te, Ikea.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A letra D


A diferença está a cada passo. Diferença de uma outra vida que já vivi. Somam-se sorrisos, tempo, harmonia; subtraem-se ansiedades, pressas, desconfortos. D de Diferença.
Eles são príncipes e princesas, medem pouco mais que palmo e meio, mas significam, já, uma coisa de dimensão desmedida... D de Dimensão.
São um rol de experiências absolutamente inéditas que prometem dominar este mundo e o outro. D de Domínio
Recebem, diariamente, todas as ferramentas que tenho para lhes dar, questionam, percebem, empenham-se, sorriem, gostam, superam-se, surpreendem-me, pedem para o dia não acabar. D de Dia... de cada um, de cada nova experiência.
Abraçam que nem serpentes a rodear a cintura, os braços, as pernas... onde chegarem primeiro. Abraçam com quanta força têm e ainda mais alguma, como se não houvesse amanhã. D de Delícia.
Choram porque não sabem desenhar uma meia, porque perdem um jogo, porque o lápis de cor vai passar para o outro lado da folha, porque o "u" não sai direito, porque a história do livro vai a meio e ainda não chegámos às páginas do final feliz, porque um dente está a abanar, porque ele passou à frente no comboio, porque não era à esquerda mas sim à direita, porque o autocolante desapareceu e afinal estava colado na manga da bata... D da Dimensão que eu desconhecia e que me sorri ao coração.
Sorriem porque o Cuquedo apareceu, porque o Um Livro é mágico, porque as canções do livro são engraçadas, porque a professora tem uma voz muito gira, porque receberam um elogio, porque têm uma carinha no canto da folha, porque os jogos são divertidos, porque o boneco tem cuecas, porque têm comportamento excelente, porque o abraço foi correspondido, porque nos cruzámos a caminho da escola, porque a professora disse "chulé", porque o final feliz da história já está a ser lido, porque adoram aprender... D de Diversão, que é aquilo que caracteriza 90% do nosso dia.
D de Disciplina... aquilo que ficou de férias e não veio para a sala nas primeiras semanas de setembro, mas que foi construído, cimentado e cada vez mais trabalhado... 10% restante.
D de muitas palavras que o mundo tem - o nosso mundo, aquele que estamos a construir com magia, união e amizade, quase família.
D de Descoberta.
Rendi-me.

sábado, 15 de setembro de 2012

Terceira etapa


Comecemos pelo fim: "Deixa-me dizer-te uma coisa: aquele dia em que me viste na Torre e paraste o carro foi um grande mimo que me deste." - Surpresas destas dão sentido a muito do que somos e vêm embrulhadas numa enorme dose de doçura e bem-estar.
Esta é a terceira e última etapa de um processo com muitos anos de vida. A parte que me toca começa num tempo comum à infância e mistura muitos presentes, sorrisos e uma atenção constante, acompanhada de enormes doses de elogios. Foi assim que me cativaram. E quanto!
A segunda etapa envolve caminhos que uma teia complexa afastou e vidas que, no que têm de comum, ficaram em stand by. Pensei muito na forma como acabaria e senti sempre a ausência nos momentos-chave.
Por fim, a terceira etapa nasce hoje, no meio de um almoço onde acabámos a celebrar recomeços, onde me fascinei com o facto de presenciar uma espécie de regresso de alguém ao que, outrora, foi, recuperando tudo aquilo que de melhor tinha. Achei que perdera esse ramo familiar e, no entanto, ali estava ele!
O almoço deste sábado foi fantástico e o convívio prolongou-se pela tarde dentro, chegando a invadir o princípio da noite. As conversas foram longas e ricas, as expressões sorridentes compuseram o ambiente leve e feliz e o ar encheu-se de uma melodia familiar. Tenho orgulho nesta gente e em nós, porque soubemos dar as mãos e agarrar esta terceira etapa!

domingo, 19 de agosto de 2012

O miúdo do peixe


Reparo em vocês porque, aqui, não é comum ter companhia do vosso tamanho; vendo bem, neste lugar não costuma haver é companhia alguma e é por isso que gosto de aqui estar.
Tu, mais falador mas muito trapalhão, não terás mais que três anos. És um alentejano loirinho, o que te faz parecer de qualquer lugar menos deste. Tens uma cara simpática, um sorriso malandro e uns olhos que também parecem sorrir, protegidos do sol pela sombra da pala do teu boné.
Tens um amigo com quem muito conversas e brincas, e que te acompanha até à beira da água da albufeira. Ainda parece menos alentejano do que tu, sendo mulato.
Estão, ambos, absorvidos pelo barco que levas na mão - a metade inferior de um navio, percebo mais tarde. Olho, na esperança de compreender por que te referes a ele utilizando a palavra "peixe" e não resisto a registar algumas das vossas doces frases. "Não mata ele!", "Coitadinho!", "Quidado!", "Assim ele morre!", "O peixe não 'tá a morrê.".
Percebo que, afinal, sabes bem que tens na mão um barco e sabes bem que, lá dentro, transportas um peixe. Só não sabes que ele está morto.
O peixe tem o tamanho de meia sardinha e anda a passear entre a tua mão, o barco e a mão do teu amigo. É nesta mão que se demora, antes de ser largado na água, para receber um beijinho - sim, um beijinho de despedida num peixe morto sabe-se lá há quantos dias.
A inocência com que se continuam a referir ao peixe, que voltam a apanhar e a pôr no teu barco - andando com ele, pegando nele, falando dele e até com ele - não me provoca, curiosamente, a sensação de repugna que seria de esperar. Ao invés, deixa-me de postura contemplativa, numa certeza de que há, por aí fora, infinitas situações do mesmo estilo a acontecer, pelas quais troco, de bom grado, qualquer filme ou livro de ficção. Só é preciso ter um pouco de sorte de espectador.
Por uns momentos, tens familiares por perto e eu faço um intervalo. Vou dar uns mergulhos.
Volto para a toalha.
Aproximas-te, sempre fiel guardador do teu barco e do seu precioso conteúdo, e deves ter sentido que eras bem-vindo - és criança, ainda tens o dom de saber comunicar espontaneamente, prevendo a forma como serás recebido.
- Olá sinhora, o que estás a fazê?
Explico-te que estive na água e que estou a aproveitar o sol para me secar.
Agora, estás pronto para as apresentações:
- Este é o meu peixe! - e aproxima-lo da minha cara, o suficiente para eu ficar, eventualmente, enjoada. Mas não fico porque entrei no teu jogo e quero ver o que tu vês.
Gostaste que te dissesse que tinhas um lindo peixe. Pegas na minha mão. Queres que eu lhe toque, em jeito de festinha. Com muita calma, aproveito-me do teu ângulo de visão - cálculos matemáticos escondidos a cada canto - e simulo esse toque. Sorris e eu também, mais uma vez.
- Já tem nome? - pergunto-te eu, para fazer conversa.
- Ele não 'tá morrido! - respondes, ignorando a pergunta.
Repito a minha sugestão e deixo-te confuso, recordando que as diferenças entre nós passam, também, pelas duas centenas de quilómetros que nos separam. Talvez não conheças o conceito de animal de estimação. Não me admiraria.
Dizes-me que vais "até ali", diriges-me um simpático adeus e segues para as tuas brincadeiras.
Quando, de novo, dou por ti, voltaste à água com o teu amigo. Andam concentrados a olhar para baixo, perscutando as margens.
- São dois peixinhos!!! - gritam ambos, triunfantes, elevando no ar a vossa nova conquista. De facto, acabam de apanhar um novo peixe - mais pequeno ainda -, que veem tão vivo como o anterior, embora esteja igualmente morto.
Mais tarde, vêm ambos ter comigo, cada qual com seu defunto na mão. Sorrio-vos, dou-vos conversa, mas agora a sentir-me encurralada por ter um peixe de cada lado. Felizmente, dura pouco e vais à tua vida, o teu amigo logo a seguir.
Passaste o resto da tarde a atirar os peixes à água, para ele os ir apanhar outra vez. E entretanto, porque tinhas de dar razão ao teu sorriso malandro, atiras também o boné que tinhas na tua cabeça, não sem antes procurares a tua família, estudando se estás a salvo de seres apanhado. Estavas mesmo.
Se fosse responsável por ti, no mesmo segundo em que levasses a mão ao primeiro peixe morto, a minha voz seria rápida, no tom e nas palavras, e largá-lo-ias, sem qualquer outra hipótese. Ter-te-ia roubado, sem querer, a magia da tua brincadeira espontânea pois, afinal, pertenço ao mundo dos adultos, que olham para o peixe morto e veem morto-podre-mãos na boca-doença. Mas, só por hoje, uma vez sem exemplo, decidi viajar ao teu mundo e esquecer o meu.
Gostei de te conhecer.