terça-feira, 31 de julho de 2012

Ao mesmo tempo

Diz-se que cada coisa tem o seu tempo porque cada pessoa também o tem. As pessoas fazem coisas.
Este post resume os últimos dias e pinta-se assim: dois pincéis, uma folha de papel, guache de cor preta e guache de cor rosa. Pega-se em ambos os pincéis, colocando um em cada mão. Um irá molhar-se de preto, outro de rosa. Agora, em movimentos circulares e contrários, utilizam-se ambos na folha de papel. Deve resultar uma mancha de cor indestinta, embora nalgumas zonas se distinga um pouco de rosa e, noutras, um pouco de preto. Eis o que se passou.
Para o rosa vão as pessoas que acabei de conhecer - tarde, mas não tarde demais - e descobri, as pessoas que estão a realizar caminhadas difíceis, rumo ao objetivo de se superarem, as pessoas que acompanharam cinemas, as que estiveram nos almoços, as pessoas dos jantares e as dos lanches, as que dizem "quem me dera ser como tu", as que admiram, as que brilham por mérito próprio, as que incentivam e as que estão sempre onde é preciso.
Para o preto vão as pessoas que tomaram decisões terríveis sobre a vida de outras, as que perderam a noção do mundo que as rodeia e querem que os outros também percam, as inábeis sociais, sem o mínimo de sensibilidade e as que criticam sem o dom da sabedoria de querer compreender contextos... as tais que acabarão por, mais tarde - tarde demais - sentir tudo na pele.
Pintar assim não é o meu forte.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A de Anjinho


Entrou...
...com o seu jeito ternurento de querer levar a sério a sua função;
Surpreendeu...
...com a sua dedicação total, incansável e amiga;
Encorajou...
...todo um percurso de crescimento, valorizando cada vitória, cada degrau subido, cada obstáculo ultrapassado;
Compreendeu...
...cada palavra, cada sentimento, cada silêncio;
Viu...
...com uma clareza muito rara, o que estava à vista e o que não estava;
Permaneceu...
...que nem um Anjinho dedicado à sua eterna "tutoranda", procurando, aqui e ali, estar sempre presente, esperando a sua oportunidade de "tutorar", de ajudar a encontrar sorrisos em cantinhos escondidos.

"Friends are God's way of taking care of us"

domingo, 8 de julho de 2012

Azul e Verde


É aqui que o mundo à roda se some e que as emoções ficam confinadas ao espaço protegido pelas árvores, sobre um tapete de relva fofa. É onde me perco, abaixo do azul do céu e segura no azul da água. Água que me acolhe e me permite movimentos lentos e despreocupados, ao sabor das braçadas, totalmente submersa na temperatura perfeita. A ilusão de voar, sem ouvir absolutamente nada. Porto seguro, sempre disponível.
Tantas vidas, tantas histórias a acontecer ao mesmo tempo, à minha volta. Condomínio de vidas separadas, juntas em pequenos fragmentos que frases e atitudes revelam, distraidamente. E as infâncias que se cruzam com a minha, deixando um sorriso por dentro, que se prolonga para fora. As brincadeiras, a inocência e o privilégio de fazer parte disto, aqui e sempre...


segunda-feira, 23 de abril de 2012

de:Cérebro / para:Coração




Tu aí...
Sim, tu...
...Tu... que tens a mania de agarrar tudo quanto vivemos e guardar aí dentro... tudo compartimentado, organizado, distribuído por gavetas onde não me deixas chegar.
Gostava que, de vez em quando - só de vez em quando, em vez de nunca -, me deixasses abrir uma, duas ou três gavetinhas das tuas. Gostaria que me deixasses ir a algumas memórias confortáveis e doces para que eu as pudesse apagar. Ou então - e atenção, isto é um bom negócio - reduzi-las a metade...
Repara: há muita coisa que aí tens guardada, sobretudo naquelas gavetas enormes, que eu mal consigo vislumbrar daqui. 
Tens algumas memórias boas de recordar, boas de reviver. Muitas delas são fáceis de aceitar como sendo irrepetíveis. Com essas, posso eu bem; adoro quando estou em momentos de silêncio e tu abres, subtilmente, uma ou outra gaveta, e as trazes até aqui acima. Nessas alturas, voo contigo e acabo sempre a sorrir.
Mas... e as outras? As memórias que não se comportam assim?
Sabes aquela sobre a qual, há pouco, falámos? E a outra, que reapareceu ainda ontem? Era a essas que eu gostava que me deixasses chegar, porque desistir delas parece-me mais sensato que aceitar que não se repetirão. Cada vez que entro no silêncio e tu decides que é hora de as trazer, parece que travamos um braço-de-ferro. E tu és sempre o vencedor.
Gosto - gosto mesmo - de viajar contigo, de percorrer dias e dias de uma vida cheia de momentos de profunda ternura e sei que, a cada dia que passa, continuas a aumentar esse número infindável de gavetas, gavetinhas e gavetões. Mas... será pedir muito que te tornes um pouco mais racional?
Nascemos assim: toda a capacidade de pensar e ponderar me calhou a mim; toda a capacidade de sentir e viver calhou-te a ti. O desequilíbrio não poderia ter sido maior. É por isso que te peço uma tentativa de nos equilibrarmos e completarmos...
Pensa nisso.

domingo, 13 de novembro de 2011

Amenizando saudades

Há combinações que se fazem para amenizar saudades... Essas costumam trazer um entusiasmo especial, uma antevisão de momentos que são os mais fáceis de aproveitar. É por os sabermos poucos, curtos, desejados, únicos, irrepetíveis e valiosos. Porque já sentimos, na pele, o que é a falta deles e sabemos que vamos continuar a sentir...
Cada capítulo encerrado leva, com ele, pessoas e experiências. Deixa-nos com as recordações e com a saudade. A saudade, por exemplo, daquela boleia matinal, das conversas, dos cafés, dos jantares, ou do convívio com gente mesmo muito grande...
Hoje fui amenizar as saudades de há 4 anos, fui pôr a conversa em dia e fui ter a certeza de que me saberia a pouco. E soube.
Guardo, deste dia, a surpresa de ter mais do que planeara, pois não esperava que aquele "colo" de há 2 anos por ali aparecesse... que gente tão grande! E que bem que sabe que dispendam assim do seu tempo, que nos ponham, mesmo que só por um bocadinho, no centro das suas vidas. Como se o mundo, à volta, parasse.
Hum... não é que parou mesmo?

sábado, 5 de novembro de 2011

Maiores nos fizemos


A história começa assim: era uma vez vocês e eu que, cheias de motivação, nos quisemos fazer maiores. Pelos vistos, só não sabíamos em quê. Morava, dentro de nós, a certeza de que esta maioridade viria com um qualquer tratado sobre um qualquer "tema", depois de dois anos muito produtivos e enriquecedores. (Só não sabíamos em quê.)
Como eu, vocês também sabem admitir que sim, tudo isto foi muito produtivo e muito enriquecedor. E, como eu, vocês também sabem, e muito bem, em que é que o foi.
Neste texto, que faz o jeito de um balanço, encontro memórias que, agora, não sei sentir como, por exemplo, quando nos vejo, ainda, desconhecidas na sala, ou quando duas de vocês só interpretaram corretamente uma certa situação, quanto chegou a vossa vez de passarem por ela. Não sei sentir essas memórias porque já não são o que somos.
Aos bocadinhos, fomo-nos descobrindo e descobrindo os palhaços do nosso circo. Rirmo-nos com eles (e também deles... acontece aos melhores), deixou que nos mostrássemos cada vez mais, até nos rirmos e divertirmos como se não houvesse amanhã. A partir daí, ganhámos todo o tipo de fama que fique compreendido entre o conceito de brincalhonas e o conceito de desinteressadas. E importámo-nos com isso? Claro que não.
Tornámo-nos num poço de gargalhadas e mestres na arte de ouvir o que os outros querem realmente dizer, conseguindo dissecar o mais pequeno comentário e responder "Não perde uma oportunidade!".
Rimo-nos do cuspo,  das caretas, do (des)penteado, da ventoinha, dos óculos, da limonada, do aparelho, do emprego do latim, dos slides, da monotonia, dos números, dos berros, da graxa, das contradições, das dramatizações, dos olhos azuis, do Môr, do traje marítimo, do cabelo da velha, do jornal, das notas, e de muito mais. E, o que é mais querido no meio disto tudo, reparem, é que continuamos a rir de tudo isto e do "muito mais"!
E agora digam-me: fizemo-nos ou não nos fizemos maiores? Ficámos ou não ficámos mais ricas? Somos ou não somos mestres na arte de conviver, viver a vida e fazê-lo com um enorme sorriso na cara?
Foram, ou não foram, "dois anos muito produtivos e enriquecedores"?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Árvore de memórias

Hoje, fui. Como sempre, a tentar tornar tudo muito racional, pouco emocional. Mas levo pouco tempo a descobrir o quão impossível essa tarefa é. Porque, mesmo antes de entrar, já abrira o livro... e, mal se abre o livro, e se olha em volta, surge ramo atrás de ramo, até ter uma infindável árvore de memórias que fazem bem ao coração, mas que também o apertam demais.
Não há dúvida de que cada momento ali foi de pura e simples felicidade; leve, diária, completa. Sempre acompanhada e impulsionada por quem fará, para sempre, parte da minha vida. Pessoas que estão nas coisas que alcanço, na motivação que me move, naquilo que aprendi e que faço aprender.
A árvore de memórias que hoje se revelou foi até capaz de trazer um nó à garganta, recuperando, num curtíssimo espaço de tempo, um vastíssimo número de ramos. Cada  sorriso, trazia, atrás de si, pequenas grandes histórias que estão ali escritas, inscritas. E as cores. E os cheiros. E a vontade de voltar, subitamente, atrás. Voltar como peça que fui, não como espetadora à procura de sentir o que lá deixou.
Voltar. Gostava tanto.

domingo, 30 de outubro de 2011

Chocolates e flores


"Ao contrário da maioria das pessoas, ela não gostava de receber presentes. Achava, sim, que esse gosto vinha com a nascença e ia com a idade. Além disso, tinha vergonha. Só que andava ao contrário dos outros e, se os outros gostavam de receber, achavam que teriam que dar para fazer gente feliz.
Depois havia as prendas: as pirosas, as usadas, as desnecessárias. Mas também havia as interessantes, as novas e as úteis.
Um dia, recebeu uma encharpe “made in Taiwan”, escondida numa embalagem velha e reutilizada, da Loja das Meias. Cheirava a uso e a mofo. Gostava de ter podido dizer “Não, obrigada”, mas não disse. Era muito educada.
Depois havia as flores. Ela não suportava receber flores. As flores – dizia ela – eram para estar nos jardins. Chegaram a ficar esquecidas no carro, até morrerem.
Também havia os chocolates. Ela não suportava receber chocolates. Os chocolates – dizia ela – são para quem gosta deles. Chegaram a ficar esquecidos no armário, até deixarem de estar no prazo.
Ao contrário da maioria das pessoas, ela não gostava de dar presentes. Conseguia, anualmente, encontrar a prenda ideal mas, fora isso, era somente uma dor de cabeça atrás de outra, e outra, e não tinha sorte nenhuma. Achava tudo desadequado, feito para outras pessoas que não aquelas que ela queria.
– Se pudesse, – dizia ela – dava ano sim, ano não, para ter um ano inteiro para escolher. E, se não chegasse, não dava. A maioria dos presentes não serve para nada.
E foi assim que, praticamente, deixou de comprar presentes."

sábado, 3 de setembro de 2011

O miúdo do forte


Um pé. Outro pé. As duas pernas, até ao joelho. A água estava agradável e o atirar-me lá para dentro tornou-se eminente. Quando aconteceu, a preguiça de nadar e a vontade de entrar na história do senhor Sommer tornaram aquele banho numa dúzia de braçadas.
De saída, compus o rabo de cavalo e, da  cadeira da piscina, levantei a fita do cabelo, que evita o escaldão no risco.
É agora que reparo em ti.
Deves ter uns oito anos, vestes uma t-shirt verde e, se estás de calções de banho mas não estás a nadar é porque a tua digestão vai a meio. Reparo em ti porque estás a brincar sozinho e isso é uma coisa que não vejo todos os dias. Sobretudo porque não tens uma Nintendo DS ou uma PSP nas mãos. Mas, ainda assim, estás longe daqui, como ficam os meninos da tua idade, quando estão petrificados nos videojogos.
Gostava de saber onde estás.
És um miúdo curioso por aquilo que tens na tua mão: um borrifador, que ainda por cima condiz com o tom da tua camisola. O que terás aí dentro, miúdo? O que é que espalhas pelas paredes, pelo chão, por todo esse muro ao cimo das escadas onde acabas de deitar uma espreguiçadeira a fazer de portão?
Desceste, desapareceste por momentos e voltaste não sei vindo de onde. Estás de volta ao teu forte, ou castelo, ou navio... o que quer que seja esse lugar que a tua imaginação construiu aí em cima.
Não sei onde foste buscar essa fita de obras, às riscas encarnadas e brancas, que engenhosamente prendeste aos braços da espreguiçadeira, com os nós que daqui a uns anos já não saberás fazer - quando fores demasiado grande para te lembrares do que era sonhar.
Prendeste, também, uma pequena mesa de plástico à entrada só tua e, enquanto te empenhavas no teu mundo, vieste ao meu e olhaste para mim. O teu olhar diz-me que estás receoso que um adulto vá aí roubar-te um pedaço do teu abrigo. Muitas crianças como tu habituaram-se a isso depressa, até só lhes restar o mundo dos jogos eletrónicos.
Não te conheço, nunca te tinha visto, não sei nada sobre ti a não ser que és original e que podias ensinar muita gente a brincar como tu.
Com agilidade, saltas o muro pela segunda vez, e pela segunda vez desapareces.
Onde andas, miúdo?
Fechaste uma zona pública do condomínio, fizeste lá o teu sossego e, provavelmente, andas pelo jardim grande demais, que por esta altura talvez já seja a tua floresta cheia de animais fofinhos ou o planeta da tua aventura espacial, cheio de extraterrestres furiosos aos quais o teu borrifador demonstra que não tens medo.
Não te conheço e, no entanto, gosto de ti.
Durante o meu banho seguinte, apareces acompanhado de um menino e duas meninas. Ele traz uma pistola de água vulgar e elas trazem ideias menos criativas para as tuas brincadeiras: convencem-te a trocares o teu portão para uma simples fita, atada entre duas espreguiçadeiras. Cedes facilmente, como quem está habituado a ter de sonhar mais baixo. Não devias ser assim, sabes?
Não simpatizo com o teu amigo mas não me recordo porquê. O mais provável é que já me tenha feito levantar a sobrancelha e ensinar-lhe que não se salta para a piscina, ao pé das pessoas que estão sentadas na borda. É um passatempo que tenho, quando estou a amadurecer a ideia de dar um mergulho... Ainda assim, confesso que prefiro esse teu amigo àqueles dois de seis e oito anos, que decidiram fazer uma piscina só deles, trazendo água dentro da boca e cuspindo-a para o chão. Uma e outra vez. Terei mencionado que esta brincadeira decorreu em frente à mãe? E que, quanto terminou, eles decidiram abrir os recipientes de cloro que estão à volta da piscina?
Tentaste explicar ao teu amigo que ainda não era a hora de ir buscar os guarda-sóis à sala das arrumações, porque os moradores ainda estão a usar a piscina. Mas voltaste a ceder e ambos estão a montar dois deles, no teu forte.
Gostava mais de ti quando estavas sozinho.
O resto da tarde começou a aquecer, e eu percebi-o quando me acordaste de uma sesta, porque berravas, repetidamente,  "Uma laranja na cabeça de uma pessoa pode matá-la!". Pelo que percebi, tu e o teu amigo colecionaram laranjas por amadurecer e o tal rapazinho de seis anos que, antes, estivera a tirar água da piscina com a boca, invadiu o teu forte e estava a atacar-vos. Era o único que tinha os pais na piscina do condomínio.
Ao que parece, o teu amigo provocou-o bastante, inclusivamente arremessando a toalha dele não sei para onde, o que fez o pai dele encher-se de autoridade e ralhar com o teu amigo, dizendo-lhe que fosse procurar a toalha e a trouxesse. 
Esse teu amigo, o tal com quem eu embirro, provavelmente porque um dia me molhou...
Esse teu amigo, que se virou para o senhor e lhe disse, com ar de desprezo, de cima do teu forte e de baixo dos seus dez anos, "Já ouvi, não sou surdo!".
O rapazito da toalha rouba-vos as laranjas e gritas, do teu castelo, "Come-as todas e morre! Essas laranjas foram envenenadas!". A irmã dele, a jogar dos dois lados, devolve-tas e, daí a pouco, continuam a atirar-se laranjas, atraindo, desta vez, a mãe das crianças.
É agora que tu... bem, que tu pulverizas a senhora, com o teu borrifador!
Rio-me para dentro porque ela merecia: embirrou contigo desde o início, quando o teu amigo é que fez os disparates e o filho dela é que vos foi chatear; e porque hoje não foi a primeira vez que a vi a ignorar o comportamento dos próprios filhos!
De repente, eu estava a estudar o comportamento humano, a ver como ela te gritava que não tem a tua idade e que, por isso, não admite que a borrifes, e como, no minuto seguinte, o filho de seis anos lhe ria na cara e atirava laranjas para vocês, quando ela o mandava sair de ao pé de ti e tu o borrifavas por trás dela.
Até que há o momento em que o teu amigo, de lá de cima, atira uma laranja e, azar dos azares, ela não chega até onde ele queria e explode a meio caminho. Precisamente na minha cadeira.
(Se espremesses laranjas para o teu borrifador e depois premisses o "manípulo" para cima de mim, duvido que o efeito fosse muito diferente daquele que o teu amigo conseguiu.)
Aí, ele fica aflito e já não era o rapaz que grita a um adulto "não sou surdo"... Desfaz-se em mil desculpas.
É a isto que eu chamo "aura de professora".
Chamei-o e sabia que ele viria. Veio, a pedir desculpas, mandei-o sentar à minha frente.
Sentou-se. Acho que as professoras não conseguem deixar de o ser.
Apresentei-me e, quando me preparava para o discurso, ele interrompeu para me dizer que já me conhecia e não era, afinal, por me ter molhado. Não foi a mim que o teu amigo incomodou... mas sim aos meus alunos! Viagem de finalistas. O aluno com pior comportamento da escola que frequenta...
Vieste ouvir a conversa, queixaste-te dos outros, dos pais deles a defenderem o que é seu e pude elogiar a tua brincadeira e dizer-te que fora uma pena ter-se transformado naquilo.
Gostei de me ter cruzado contigo, espero que penses no que vos disse.
E, miúdo, não deixes que as pessoas te obriguem a crescer depressa demais.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Máquina do tempo II - A melhor amiga


A idade que eu tinha no dia em que decidi que a Joana seria a minha melhor amiga enchia os dedos todos de uma mão e poucos da outra. Não sei quantos.
A Joana era, desde cedo, a aluna que todos queriam ter: a perfeição na caligrafia e havia uma enorme facilidade na forma como aprendia. Era a amiga de quase todos os recreios, das brincadeiras mais imaginativas e dos segredos mais bem guardados.
A nossa história começa na creche, continua no colégio e acaba num dia qualquer, sem que tenhamos dado conta disso. Mas talvez por ter sido tão comprida - comprida no quanto teve de momentos felizes e despreocupados - tenha ficado tão bem gravada...
Havia as festas de aniversário da Joana, nas quais eu dedicava sempre algum tempo a tentar compreender como era possível que se utilizassem cenouras para fazer um bolo; o famoso bolo de cenoura caseiro, que nos deixava sempre de água na boca. E depois havia o frango. Ninguém punha frango na mesa de um aniversário, e eu achava que aquilo era o máximo! Era mesmo!
Dormimos umas quantas vezes em casa uma da outra, adaptando as brincadeiras ao tempo que já passara, do início ao final da história. Começámos por ser mães de quantos bebés tínhamos no quarto, aos poucos tornámo-nos professoras de todos eles e, de repente, estávamos num pinhal, do outro lado da rua dela, a elaborar o mapa de um tesouro.
No dia em que a luz faltou e eu lá tinha ido dormir, éramos quatro: as duas, a mãe, a tia. Era de noite mas ainda não era hora de dormir. Lembro-me de não termos idade para tal mas há uma foto, cá dentro guardada, de cada uma com seu biberão de leite com chocolate, ao colo da mãe e da tia. Foi um segredo só nosso, para os nossos colegas.
Naquela altura, não havia preocupações e o futuro traçá-mo-lo nós: os nossos filhos iriam brincar juntos e ter-nos-iam como madrinhas. Os nossos maridos seriam os maiores amigos um do outro. Iríamos combinar, todos, muitas coisas juntos.
E, depois, a vida fez das suas e nós não demos conta.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O menino e o coração



Um dia, um menino acordou doente e foi ao médico. O médico disse-lhe que ele nada tinha e mandou-o para casa. Mas o menino sabia que estava doente.
No caminho para casa, pousou-lhe uma gaivota ao lado e disse-lhe um segredo. O menino não respondeu. Limitou-se a acenar com a cabeça, em jeito de quem concorda. E ela prosseguiu o seu caminho. A gaivota sabia bem o que se passava com ele.
Uma sensação de frio percorreu o pescoço do menino e foi aí que ele decidiu ir até a um lugar que o fazia sentir-se sempre quentinho: a praia.
Descalçou os sapatos, sentou-se na areia e enterrou, nela, as suas mãos. Pousou os olhos na espuma das ondas e deixou que o cheirinho do mar entrasse pelas suas narinas, como que espalhando-se, de seguida, por todo o corpo. Sempre que se entregava, assim, àquele lugar, era capaz de jurar que o tempo parava. E, pensava ele, talvez isso viesse a trazer a cura para deixar de estar doente.
Não se sabe quanto tempo passou até o menino dar conta da gaivota, poisada de pé, sobre a areia, mesmo ao seu lado.
- Eu tinha razão, não tinha? - perguntou ela.
Não era um menino de grandes respostas, por isso, mais uma vez, limitou-se a abanar a cabeça, concordando.
Mas era um menino de grandes perguntas...
- Como é que podemos arrumar o nosso coração, quando ele está tão desarrumado? - perguntou.
- Tenho uma amiga que te pode ajudar a encontrar a resposta. Repara naquele ponto, entre aquelas duas nuvens...
- Estou a ver. O que é?
- Volta aqui mais logo, quando o Sol tiver adormecido e o cantar das ondas do mar soar como os grilos.
E assim foi.
Tal como combinado, o menino e a gaivota encontraram-se naquele mesmo local, sob a luz da Lua e acompanhados pelo som do mar. E, no céu, aquele pontinho era agora uma estrela reluzente.
- Anda, sobe para as minhas costas - convidou a gaivota, baixando-se.
O menino nunca vira a gaivota antes daquele dia, mas sabia que podia confiar nela. E subiu.
Como que abraçados por uma onda suave, o menino e a gaivota levantaram vôo, em direção à estrela. Uma brisa doce começou a envolvê-los, conforme se iam aproximando do seu destino.
Em silêncio, a gaivota pousou o menino num dos braços da estrela e deixou-os a sós.
- Estás doente - disse a estrela ao menino. - E precisas de ajuda.
- Sim.
- Tens o coração desarrumado e não sabes como o arrumar.
- Sim.
- E queres fazer muitas perguntas...
- Qual é o tamanho do vazio do meu coração?
- Isso depende do quanto o deixares esvaziar...
- Durante quanto tempo me vou sentir tão doente?
- O tempo que demorares a construir um sorriso...
- Se eu sei que o meu amigo foi viver para um lugar que é o melhor para nós, porque é que isso não chega para me fazer sorrir?
- Porque não basta saber. Tens de acreditar.
- E o que é que eu devo fazer para me sentir preenchido, em dias como o de hoje, quando só sinto e vejo vazio?
- Tens de usar o teu coração e trazer a magia das boas recordações. Ora experimenta... Pensa naquele banquinho só vosso, em cima do mar. Pensa no quentinho que vos envolvia e no conforto que vos prendia ali.
Ao longo de todo este dia, nunca o menino esboçara um sorriso. E também não fora agora que o fizera. Pelo contrário. Uma pequena lágrima, semelhante a uma pérola, rolou-lhe pela bochecha.
- Não está a resultar - disse ele. - Esta é uma boa recordação, não me deveria fazer chorar.
- Não estás a perceber - respondeu-lhe, calmamente, a estrela. - Quando as boas recordações nos fazem chorar, chamamos-lhe de saudade. E a saudade é a certeza de que aqueles momentos foram felizes mas que, por alguma razão, acabaram e não se estão a repetir. Talvez nunca se repitam. E é assim que nos tornamos mágicos: que pegamos nesses momentos confortáveis e quentinhos, e os trazemos ao Presente.
- Mas eu tive tantos, tantos, tantos momentos desses... E se alguns deles não ficaram bem guardados?
Todos temos uma caixinha mágica, na qual estão protegidos os melhores sentimentos, as melhores emoções, e as melhores histórias. Chama-se coração, tem uma capacidade dez vezes maior que a vida de cada um, e são poucas as pessoas que confiam na força dele. Tu vais ser mais uma dessas pessoas...
Sem o menino perceber como, pareceu-lhe sentir os pés molhados. Ao olhá-los, viu-se deitado na areia da praia. Encostado a si, adormecida, estava a gaivota e, no céu, naquele seu lugar, estava a estrela. Fechou os olhos, pensou nas palavras que ouvira, e foi à caixinha mágica buscar aquele banquinho, daquele dia. Tirou de lá, também, aquele sentimento de conforto e umas fotografias de sorrisos que não se lembrava de ter captado tão bem. Pensou. Sentiu.
De repente, estava a sorrir.

sábado, 16 de julho de 2011

Castelo do Mimo


No Castelo do Mimo, vive gente pequenina. Daquela que faz de mimos o seu combustível de vida e de colos o seu "aqui" favorito. Gente que pega nos outros e faz deles os lugares mais confortáveis do mundo, pois sabe que os humanos foram feitos para isto mesmo: amarem e serem amados.
São construtores de momentos inesquecíveis, criadores de pequenas grandes coisas e mágicos do preenchimento interior.
São "amachucadores" oportunos e faladores com olhos e sorrisos.
São o que todos deveríamos ser.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Principezinho... sempre =o)



«– Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…»





«– (…) Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música.»





«– O que é um ritual? – perguntou o principezinho.


– (…) É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas.»



«– Quando nos deixamos cativar, é certo e sabido que algum dia alguma coisa nos há-de fazer chorar.»

domingo, 10 de abril de 2011

"Bom fim-de-semana!"

Quando as pessoas desejam, umas às outras, um "Bom fim-de-semana!", devem estar a referir-se a algo assim...

...a um café tranquilo, embora fresquinho, no meio do verde, com uma torre mágica a espreitar ao fundo e a prometer uma boa manhã:

...a uma olhadela, de baixo para cima, para contemplar a beleza de tempos que já acabaram há muito: ...à imagem do monstro cinzento, que personifica outros tempos e uma outra história já tantas vezes contada: ...a vistas deslumbrantes, em locais nos quais se sente que o mundo cabia na palma da nossa mão: ...a janelas que a vida se encarrega de abrir, quando as pessoas menos esperam: ...a salas de jantar curiosas, com muitos anos de vida, capazes de provocar sorrisos e risos:
...a cantos e recantos místicos, onde cada bocadinho de cor é pretexto para mais um comprido e agradável momento de conversas:
...a subidas e descidas, com vistas encantadoras, ventos fortes e perfumes entre os que borrifamos e os que, simplesmente, saem do que nos rodeia:
...a pontes estreitas e perigosas que, acompanhados, não temos medo de atravessar:
...a tetos verdes, que nos oferecem uma cúpula de segurança e nos envolvem em momentos que nos fazem sentir preenchidos:
...a momentos de pausa onde a paz nos devolve a calma e nos descansa o cansaço aparente:
...a locais que fecham ciclos de caminhadas que, sem querer, se tornam altamente "espirituais":
...a retalhos da infância, revisitados e redescobertos:
...a raios de sol, gaivotas, vento e ondas;
...a só mais 5 minutos:
Se não é isto um "bom fim-de-semana", o que será?...

...Um MUITO BOM fim-de-semana!!!

(Iupiii!)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

As cores de uma história que nem sempre foi assim


Era uma vez - e mesmo só uma vez - , uma ilha cinzenta e escura, onde o sol não estava autorizado a entrar.

Tinha árvores, mas estavam secas.

Tinha flores, mas eram pretas.

Tinha pássaros que não cantavam

e borboletas que não voavam.

Nessa ilha, vivia um monstro solitário, que passava os dias a cultivar a sua solidão, retocando uma cerca de arame farpado. Queria certificar-se de que o seu sossego jamais seria perturbado, de que ser algum lhe chegaria perto. Alimentava-se de sorrisos que não deixava sair, de fumo que gostava de consumir.

Esquecera-se de como viver e conviver, rir e conversar; não sabia o que era a felicidade; não sabia o que era a cor.

* * * * * * * *

Era uma vez uma menina que andava à sua vida, quando foi interrompida. Interrompera-a o dia em que o seu barco encalhou. E encalhou numa ilha, que era a ilha do tal monstro.

Esse dia mudou a vida da menina, porque ela viu e sentiu coisas que as pessoas não devem ver nem sentir: o monstro, esse monstro, era tristeza dos pés à cabeça! Mas foi aí que ela achou que encalhara por algum motivo. O monstro esperava alguém que o levasse dali para fora?

Apesar do medo da escuridão que se abatera sobre a ilha, a menina encheu-se de coragem e chamou pelo monstro. Chamou-o bem alto, e esperou resposta.

Nesse dia, a resposta não veio.

Sozinha, a menina conseguiu desencalhar o seu barco e regressou à sua vida, deixando, para trás, a ilha.

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No dia seguinte, a ilha do monstro continuava a mesma, o monstro continuava triste e só. Mas algum motivo a levara até àquele lugar. Decidiu voltar à ilha, e voltar a chamar pelo monstro.

Nada de novo aconteceu: o monstro, com olhos tristes e de cabeça baixa, continuou na sua vida de sempre, afiando os picos do arame farpado e certificando-se de que mantinha tudo e todos a uma larga distância. A menina voltou para trás, com a certeza de que esse dia não seria diferente do anterior.

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O dia seguinte voltou a ser um dia como os outros, para a menina e para o monstro. E o dia depois deste. E o dia depois deste depois deste... e no outro. Também no outro. E por aí fora.

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(Há um dia em que a história deixa de ser a mesma e passa a ser uma outra...)

Houve um dia em que a menina, persistente e com uma crescente vontade de puxar dali o monstro, achou que podia ter ouvido uma música que lhe era desconhecida... uma música de correspondência. E era mesmo assim.

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Acaba aqui a história cinzenta do monstro escuro e solitário.

Começa aqui a história de um barco que partiu da ilha e trouxe o monstro.

Começa aqui a história de um monstro que, afinal, não era monstro; era outra menina que vestira, um dia, a "capa" errada.

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Era uma vez, mais uma, mais uma, mais uma... Eram muitas vezes, muitos lugares diferentes e mágicos, muitos risos e gargalhadas; eram muitas vezes flores, borboletas e sóis; eram muitas vezes o cor-de-rosa, o verde, o azul, o laranja...; eram muitas vezes muitas energias positivas, coloridas e enriquecedoras.

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Que as coisas sempre sejam assim: um lugar comum de experiências e de convívio

...onde se possa ser feliz todos os dias,

...onde se possa aprender com cada momento,

...onde se partilhem, de coração, as pequenas grandes coisas que a vida tem,

...e onde, todos os dias, se transporte "um punhado de terra".

sábado, 12 de março de 2011

De repente




De repente, a história é aquela que sempre foi e encontro-me a pensar no que será que vem depois. De repente, eu não imagino o mundo sem eles e a ideia faz-me tremer o coração. De repente, estamos mais perto do fim que do princípio, quando ainda agora o nosso ponto era um começo. De repente, vê-se ao longe uma despedida, daquelas que são para sempre... para sempre porque as visitas são boas, mas anunciam que eles crescem, e se bem que o orgulho de ter participado nisso seja grande, se bem que a essência seja a mesma, estávamos melhores antes de tudo isso começar a acontecer: ali, naquele ponto em que estamos a trabalhar para o futuro e, secretamente, não queremos que ele chegue.

Do fundo do coração, mas desde o início e não de repente, eu adoro-os!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

"Estou aqui"

Já ouvi chamar-lhe algumas coisas, mas a palavra que prefiro é, entre todas, a que mais respeito impõe: impotência. Que é quando nos vemos grandes mas nos sentimos pequenos.
É quando pessoas, à nossa volta, não estão bem e precisam de nós, mas nós sentimos que não lhes conseguimos chegar.
É quando o nosso esforço é o maior e o efeito parece menor.
É quando o tempo passa, e passa, e não cura tudo, ao contrário do que por aí se diz.
É quando os outros têm a balança avariada e o que lhes devia pesar "nada" pesa-lhes "tudo".
É quando existe um feeling de que aquele sofrimento se instalou numa pessoa que é boa de coração e que merece todo o nosso investimento nela. Isto, mesmo que, constantemente, fuja para uma ilha só sua.
É quando a ilha, às vezes, se transforma numa península, mas ainda por pouco tempo.

Impotência é gritar "Estou aqui" e ficar à escuta, à espera de receber um seguro e feliz "Eu também".

PS: Estou aqui! (...a mostrar que, quando tudo parece cinzento, podem estar dentro de nós tantas cores escondidas... desde a folhinha do trabalho ao tamanho de um sorriso...)


domingo, 16 de janeiro de 2011

Cabo Verde, Dez./2010

Faço a mala no dia anterior. Junto coisas nas quais não tenho mexido ultimamente: t-shirts, vestidos de praia, biquínis e protector solar. A mala vem de véspera, para empacotar tudo e ter tempo de rever mil vezes a lista mental do que tenho de levar.

Cabo Verde é um destino que me é desconhecido e o que me atrai, inicialmente, é uma questão meteorológica. Essa, sim, deixa-me num êxtase controlado, ao longo de todo o pré-viagem.

Avisam-me, constantemente, que é um destino diferente daquilo a que estou habituada, que não há muito para fazer e respondo que é isso que me deixa tão feliz e entusiasmada desta vez. Também é por isso que comprei quatro livros e os arrumei na mala.

“Quatro livros? Achas mesmo que consegues?”

“Não tenho qualquer dúvida.”

Há que não esquecer que passei uma semana na Turquia e que, no penúltimo dia, terminei o terceiro e último livro que levara. Penso, então, que tenho um historial compatível com a minha premonição.

Posso, entretanto, referir que o meu jeito infantil de lidar com aeroportos e aviões, embora de forma contida, mantém-se também uma razão para a minha paixão por viagens. Era capaz de passar um dia inteiro a uma janela, a ver os aviões descolarem e aterrarem em frente ao meu nariz. Contudo, hoje, quando ficamos mais próximos da pista para o embarque, a intensidade da luz já é maior no interior que no exterior, e, portanto, eu vejo-me melhor a mim do que vejo qualquer avião do outro lado do vidro.

Tal como ver os aviões, andar neles provoca-me o mesmo tipo de sentimentos, sobretudo quando nos elevamos e quando regressamos ao solo. A velocidade que o avião atinge para levantar voo, e que nos empurra contra as costas do banco, como uma mão invisível, bem como a pista, as casas e os carros a ficarem cada vez mais diminutos, deixam-me sempre com vontade de repetir tudo outra vez. E, à chegada, gosto particularmente do momento do impacto – do mais perfeito e deslizante, ao menos suave, que faz o trem de aterragem saltitar uma ou duas vezes no asfalto. Mais que isto não, ou eu passaria a ter medo de andar de avião.

Sempre disse que tudo o que é muito maior do que eu me fascina; tudo quanto seja, no mínimo, vinte vezes maior do eu (e agora começava a conversa dos tornados, do filme “Twister” e de como, se eu fosse americana, me dedicaria à caça destes).

Estava a falar da viagem, não era…?

Chego ao aeroporto e noto logo duas coisas que não constam dos meus registos anteriores: primeiro, há pouquíssima gente, pelo facto de estarmos a 25 de Dezembro – só por isso, e mais uma coisa, valeu a pena que o voo tivesse esta pontaria certeira. A outra coisa nada comum para mim são os enfeites de Natal pendurados em locais que costumam ser apenas um grande e feio conjunto de partículas de… ar.

Depois do costume feito de forma pouco costume – o check-in do costume, sem as filas do costume; o detector de metais do costume, sem a multidão do costume; a free shop do costume, sem um extenso mar de cabeças entre os expositores – a zona dos restaurantes. Não previra que alguns estabelecimentos pudessem estar fechados. Ok que é dia de Natal, mas eu não estou num centro comercial! Estou num aeroporto e, se um aeroporto não fecha no Natal, não percebo por que motivo fecham coisas no seu interior. Ainda se tivessem deixado o Mc Donalds aberto… talvez eu não tivesse reparado se as restantes portas estavam trancadas ou não.

Ele vai à janela. Rendo-me facilmente nessa discussão, porque: a) ele tem razão quando diz que eu vou sempre; b) ele propõe ir à janela e oferecer-me o lugar no regresso e… a partida foi após o pôr-do-sol, enquanto a saída de Cabo Verde tem luz do sol garantida.

Se há coisa que me desagrada e me irrita sempre, a cada viagem, é o tempo que uma pessoa passa na fila para mostrar o passaporte, quando acaba de aterrar. Esta vez não foi uma excepção, foi o mesmo de sempre. Apenas sem o stress de pensar a tempo inteiro na minha mala, pois eu via-a, da fila, a rodar no tapete. Por mais fé que tenha (e tenho) na forma como elas são encaminhadas, tenho sempre receio que alguém se distraia e a leve como se fosse sua. Ou que não se distraia, confesso, e a leve mesmo porque sim. Tomara medidas de precaução, desta vez, à conta desse meu stress. Tinha, em casa, dois autocolantes grandes. Não tinham destino anunciado e estavam guardados há tempo demais. Desta feita, achei que colá-los de um lado e do outro da mala me ajudaria a detectá-la a uma distância maior, bem como ajudaria qualquer viajante a perceber: a) que aquela mala não lhe pertence; b) que se tentasse fugir com ela, o dono a poderia detectar ao longe com grande facilidade.

Às vezes acho que sou maluca, mas não somos todos? Eu explico…

Começo, nessa manhã, a ler um livro cuja personagem central é um rapaz de dezoito anos com Síndrome de Asperger. Já conheci muitas crianças assim, já fiz um trabalho de licenciatura com um e já fui professora de outro. Sempre me fascinou a forma como cada um preenche, ponto por ponto, todos os tópicos de uma lista de características, apenas com diferentes intensidades. Por isso, o livro tinha a seu favor o facto de, à partida, pelo menos um dos temas me ser extremamente apelativo.

À medida que o leio, fico absolutamente envolvida nas descrições que as personagens fazem sobre algumas situações do dia-a-dia desta espécie de autismo. Porque, embora as personagens e a história sejam fictícias, não tenho qualquer dúvida de que a autora fez um trabalho pré-livro incrivelmente profundo.

E é aqui que começo a pensar em todos nós que aqui andamos: começo a encontrar características obsessivas compulsivas em todo o lado, pensamentos que escondemos e que achamos que a ninguém devemos partilhar, sem nunca pensarmos que, ao nosso lado, há sempre alguém que faz e pensa o mesmo ou pior do que nós. Pelo menos, é o que espero quando me pergunto se é um sinal de loucura encher uma mala de autocolantes, para que ninguém a não ser eu lhe toque… ou quando cumpro rituais de verificação de esquentadores, aquecedores e ferros de engomar… ou… É melhor parar por aqui, pois pode ser que os “sintomas” da loucura incluam pensar que toda a gente é louca, quando não é; que toda a gente tem rituais que, pensados a fundo, são estúpidos e não acrescentam nada à vida de cada um… quando não tem.

Às vezes, apetecia-me escrever um livro.

Cabo Verde… é de noite, não vejo nada. O caminho é numa camioneta mais velha do que eu, mas é isto que torna estas experiências mais genuínas. A paisagem é, tanto quanto me apercebo, plana e desértica. Acho graça ao facto das placas de sinalização serem iguais às que temos em Portugal.

Cerca de quinze minutos depois, estamos no nosso resort. Começo a sonhar com o quarto porque: a) Sou doida por quartos de hotel; b) Já passa da meia-noite e as viagens esgotam as pessoas.

Primeiro, antes de me entregar aos lençóis, e depois de avaliar o quarto em 8, numa escala de 1 a 10, vou com ele à discoteca. Vou porque só queria ter a certeza de que não ia gostar de lá estar. Convém, de vez em quando, renovar os meus votos de “Odeio discotecas”, pois há sempre alguém que pergunta “Ai é? Mas há quanto tempo não vais a uma, para poderes dizer isso?”. Pronto, já fui, e posso continuar a dizer o mesmo, pois é verdade. E, como posso ser considerada louca, aqui vai a explicação: a) a música está sempre num volume que me provoca arrepios no coração e um terramoto nos pulmões; b) não percebo a piada de ir com pessoas amigas a um sítio onde não se pode conversar. Se eu fosse escritora, uma das minhas personagens acrescentaria: c) a maioria das pessoas fica a balançar-se de um lado para o outro, numa coisa que parece mais um acesso de autismo do que uma dança, propriamente dita; d) o tique do copo na mão, com uma bebida alcoólica, lembra-me bêbedos e eu sou alérgica ao convívio com pessoas cujo estado de consciência esteja alterado, por menor que seja a diferença.

Cama.

De manhã, acordo a pensar que finalmente vou ver onde estou! Estou há 10 horas num local e não tenho a mínima noção de como ele é. É bonito… O resort é cor de areia, está no meio da areia e tem a praia à frente, que também tem areia. (Nada de piadas… já passei uma semana num resort brutal de Porto de Galinhas, com uma praia de calhaus à frente.)

Tomo o pequeno-almoço num daqueles meus cenários de hotel favoritos: metros e metros de pratos, cestos e tijelas, todos a abarrotar de todo o tipo de coisa de que nos lembraríamos e não nos lembraríamos de comer. O difícil, claro está, é escolher. E ser prudente… não quero incendiar um croissant na torradeira, como fiz na Madeira.

Vou para a praia… ah, praia! E é nesta altura que começo uma batalha intra-cérebro: o meu corpo recusa-se a acreditar que é dia 26 de Dezembro, que estou em biquíni, prestes a entrar no mar… em plenas férias de Natal. Estou constantemente a repetir “Dezembro”, mas por vezes esqueço-me, apesar de normalmente, quando estou fora do meu país, estar a pensar em como será a minha nova turma. Desta vez não tenho turma nova, apenas muitas saudades daquela que é a minha… E falando em turma, sou por vezes assaltada por pensamentos que não posso ter em Cabo Verde, como tudo o que tenho de fazer logo na primeira semana de Janeiro, ou o facto de eu ter-me prometido agarrar a tese de uma vez por todas.

Avanço páginas e páginas no meu livro de leitura do momento – ainda não referi que se chama “No seu mundo”, embora, pela primeira vez, a água e o protector solar das minhas pernas tenham feito desaparecer o título da capa. Estou absolutamente afogada na história do Jacob e da sua família. E recomendo-a vivamente.

Passo o dia na praia, com pausa para o buffet de almoço e para a constatação de que a piscina não me agrada – à partida nunca a prefiro à praia, mas esta, em especial, não me atraiu. A cor do mar desfaz-se num degradê, de cá para lá. Começa num azul turquesa e termina num azul escuro, depois de passar por um azulão. As ondas, das grandes, rebentam uns 10 metros mais à frente do que é costume, que é praticamente na areia. Este mar é capaz de deixar qualquer máquina fotográfica magnetizada, virada para si… e, ao fim do dia, usa o truque legítimo de se pintar com o brilho do pôr-do-sol, e é aí que piscar os olhos nos faz sentir que já perdemos uma centésima de segundo de algo que é imperdível. A temperatura da água está sempre “no ponto”, embora prefira ler, a nadar. (ler em vez de nadar)

Pouco depois de jantar – ainda não disse, mas os buffets são maravilhosos – vou para o quarto, apanho os Ídolos a dar na SIC, vejo e leio um pouco e apago as luzes. Volto a semi-acordar talvez uma hora depois, quando ele vem para o quarto e liga a televisão. Lembro-me de olhar para o ecrã sem som e ver sair a Carolina Deslandes. Como não chego a acordar totalmente, depois de proferir algumas palavras semi-inconscientes, fecho os olhos e estou a sonhar com o que acabei de ver. O nosso cérebro é fascinante.

De manhã, ele informa-me de que falei durante a noite. Mais uma vez. Parece que na noite anterior mandara calar os meus alunos e, nesta, perguntei-lhe o que é que ele tinha a ver com “isso”. E “isso” nem eu nem ele sabemos o que é…

Acordo uma hora mais cedo do que no dia anterior e passo-o todo na praia. Devoro o resto do livro e, em dois dias e meio, atinjo a última página: a número 622. Ainda tenho o fim de tarde e o período entre deitar e apagar a luz, por isso pego no livro número 2: “Comer, orar e amar”. Penso que este dispensa apresentações, e foi por isso que o comprei.

Depois de jantar, sentamo-nos para ver um pouco do espectáculo que o resort reservou para esta noite e convenço-me de que as minhas experiências anteriores – destaco aquelas que se enquadram no Club Med e a deste ano, na Turquia – elevaram a fasquia de tal forma, que considerei o show, no mínimo, ridículo. Ainda por cima pretendia ser uma amostra do Grease e, há 9 ou 10 anos atrás, o Club Med de Yasmina (Marrocos) presenteou-me com a mesma intenção, mas com uma classe de primeira.

Vou para o quarto, leio e vejo a SIC. Adormeço.

A terça-feira é o primeiro dia a sair da rotina – mas uma rotina maravilhosa que é bronzear, comer, ler e dormir. A manhã torna-se uma verdadeira aventura! Passa-se em cima de quatro rodas, dois bancos e, embora um aspecto de carro, um volante de mota. Tenho o prazer de ser a condutora.

Ao longo de duas horas e meia, subimos, descemos e saltamos, no meio de terra, areia e, por vezes, à beira do mar. Não posso desejar emoção maior, pois quem me conhece sabe que tenho um gostinho especial por todo-o-terreno e que é algo que eu adoraria fazer com frequência. Divirto-me muitíssimo e, como sempre acontece quando nos divertimos, acaba e essa é a pior parte.

Talvez também pudesse enumerar como “pior parte” a quantidade de pó que comi ou que respirei, e que agora deve andar a circular-me pelos pulmões e pelos intestinos. E a roupa? Direitinha para um saco de plástico, pois passou a ser castanha.

O resto da tarde é na praia e continuo a ler. O encantamento pelo livro começara a diminuir desde que realizei que era uma história verídica e, por norma, eu não gosto de ler histórias verídicas. Acho-as menos estimulantes, demasiado normais e descritivas. As pessoas escrevem sobre o que se passou e não constroem livremente a história que querem. As personagens tornam-se demasiado banais, com uma ou outra excepção, dado que é muito difícil e pouco provável o autor cruzar-se, nesse espaço de tempo, com uma multidão tão vasta e tão rica de personalidade. E, infelizmente, constato isso à medida que avanço no livro. Se não fosse uma pessoa tão optimista, provavelmente não teria passado da página 10. Mas, uma vez que o sou, mantenho-me persistente e leio as primeiras 147 páginas, onde o número de parágrafos que me prende é demasiado diminuto para fazer-me sentir que vale a pena. E então tomo a decisão de arrumar o livro por um período indeterminado, mas sei que o mais provável será não o ler mais. Tornou-se enfadonho… tão enfadonho como para uma pessoa que esteja a ler este texto, provavelmente. Afinal, eu estou a fazer o que condenei neste livro.

Ainda bem que eu não sou escritora.

Agora falta-me falar sobre o meu lenço novo: aquele que tive de comprar hoje porque a minha característica mais imprópria nas viagens é apanhar escaldões no coro cabeludo. Deixara em Portugal os dois que tenho e que adoro, pois parece ter havido um erro de comunicação e eu vim para Cabo Verde convencida de que não íamos passear. De qualquer forma, no segundo dia de praia, já cá cantava o dito escaldão que me faz suster a respiração quando lavo o cabelo e quando me penteio.

Dirijo-me a uma das lojas do resort – daquelas onde as t-shirts custam trinta euros e os lenços oito. A loja é gira porque o tema é a pirataria e tudo o que vende tem a conhecida caveira e a palavra “pirata”, escrita com ossos. Também dizem “Cabo Verde”.

Já namorara os lenços no dia anterior, por isso é fácil escolher a cor mais neutra: o branco, com as letras e desenhos a preto.

Quero falar do meu lenço porque, ao analisar três situações peculiares que ocorreram esta tarde, e uma vez que estamos a falar de um terceiro e não de um primeiro dia, só posso concluir que foram atraídas pelo lenço, pois essa era a única novidade em mim. Passo a explicar as três situações:

Onde estou:

1) a caminho da praia (ainda sozinha); 2) a fotografar o pôr-do-sol à beira-mar (companhia nas espreguiçadeiras mais acima); 3) a sair da praia e a passar a porta para o interior do resort (companhia no quarto, com mais frio do que eu).

Quem surge:

1) um nativo que vende colares; 2) um nativo que atravessa a praia (raríssimo); 3) um nativo que trabalha como guarda no resort

Eles:

1) “Hello”; 2) “Olá”; 3) Sorri

Eu:

1) “Boa tarde”; 2) “Boa tarde”; 3) “Boa tarde” (Sou a originalidade em pessoa)

Eles:

1) “Portugal?” 2) “Portugal?” 3) “Portugal?” (A criatividade cabo-verdiana também tem que se lhe diga…)

Eu:

1) “Sim” 2) “Sim” 3) “Sim”

Eles:

1) “Porque é que tu és tão bonita?” 2) “Qual é o teu nome?” 3) “Qual é o teu nome?”

O que eu penso/O que eu digo:

1) “SOCORRO!!!”/ “Já nasci assim…” (com um tom e uma expressão de quem entrou na brincadeira e não levou aquilo a sério) 2) “Mas em que raio é que isso contribui para a tua felicidade??”/ “Filipa…” 3) “SOCORRO!!!!!”/ “Filipa…”

Nesta altura, já estou demasiado incomodada e desconfortável para manter uma conversa em trajes de praia.

Despacho-os em três tempos, que é como quem diz: viro as costas com um sorriso nervoso e ponho-me a andar dali para fora, mesmo depois do nativo n.º 3 me perguntar, ainda, se eu vim sozinha para Cabo Verde… (Chiça, mas que raio é que o homem tem a ver com isso?)

No caminho para algum lugar longe dali, passa-me pela cabeça tudo, inclusivamente o poder de ter um lenço com a palavra “PIRATA” estampada acima da testa, em letras garrafais. Fico preocupada, porque não prefiro o escaldão ao lenço e não há outro que possa comprar.

Não me venham cá enrolar com ideias de que só estavam a ser simpáticos, porque todo o ser humano tem algum objectivo ao puxar conversa com outro. Se o objectivo é ser simpático, façam-me perguntas sobre o meu país e sobre o que acho do seu… e não sobre coisas pessoais, como o nome ou se venho sozinha. É o que eu faço, por isso é o que acho que se deve fazer.

Quarta-feira é um dia de praia e embrenho-me no meu livro n.º3 – “Profundo como o oceano”. Estou a apanhar sol e a ler e paro apenas para comer, ou para dar um mergulho de mar rápido. Ao pequeno-almoço, tomo coragem e coloco croissants na torradeira. Só acreditei que estavam fora de perigo quando deram a volta completa e caíram cá em baixo. Um senhor alívio…

Esta é a primeira noite em que não falo a dormir. Convencera-me de que estava entregue a 100% às férias pois, sempre que me surgiram pensamentos relacionados com o trabalho, consegui atirá-los para trás das costas, com uma rápida “raquetada”. Tenho, pela frente, 14 semanas até às próximas férias, e essas 14 semanas, sim, são reservadas a todos os pensamentos que recuso aqui em Cabo Verde. No entanto, como eu estava a dizer, usei uma raqueta para atirar para bem longe daqui o trabalho, só que, afinal, falhei. Uma espécie de “efeito boomerang”, fê-los regressarem aonde não quero que pertençam. De noite. E então, enquanto dormia, sonhava, e a cada noite, falei para os meus alunos e fui ouvida por ele. Não me lembro de nada.

Foi, então, de quarta para quinta que não falei. Talvez porque tomei consciência do que sonhava, o meu cérebro poupou-me a esses monólogos nocturnos. Nem sequer sonhei com a minha escola, mas com um outro lugar, e com uma pessoa que me dizia aquilo que eu mais queria ouvir. Outro sonho recorrente.

É quinta-feira. Volto à praia, às ondas e ao prazer de ser Verão em pleno mês de Dezembro. A cada dia, sinto o meu termómetro energético em crescimento e esforço-me por aproveitar cada segundo.

São três horas da tarde e, portanto, chegou o momento de recebermos o jipe alugado. Oiço aquela pergunta à qual sei que não preciso de responder: “Queres ser tu a guiar?”. E sou.

Conhecemos cerca de meia Ilha do Sal e fazemos mais de metade em todo-o-terreno. Vamos à “Buracona”, que é uma zona onde existe uma gruta muito funda e escura, que só se torna uma atracção quando o sol incide directamente nela e a água fica azul. Não estamos lá à hora certa, por isso não conseguimos ver o fundo. Fico impressionada com a imagem claustrofóbica que me é dada por um vendedor local. Conta-me como alguns mergulhadores percorrem a gruta com luzes na testa e saem do lado oposto. (Isso não, por favor.) Depois, oferece-me um colar com um búzio e quase me obriga a olhar o seu artesanato. Ganha 20 euros à nossa conta…

A cidade de Espargos estende-se por uns bons metros quadrados e é a mais importante da ilha. Ainda não me informei sobre o que a torna importante, nem percebo, porque o que se passa à sua volta é verdadeiramente desolador. Se me impressionou o Bairro 6 de Maio na Amadora, impressionou-me ainda mais o bairro que invadimos de jipe. É grande demais.

Num abrir e fechar de olhos, é sexta-feira. Já é o dia do “amanhã vou-me embora”. Por isso mesmo, preferi a praia a uma manhã de passeio, e não me arrependi. Passo mais um dia entregue à leitura e chego ao livro n.º 4 – “O Verão das nossas vidas”. Tomo o melhor banho da semana: 45 minutos dentro de água.

(e não escrevi mais)