Porto Moniz era a meta seguinte e a opção foi seguir a apertada "estrada velha". Esta tinha apenas um sentido, estava entalada entre o mar e as paredes das montanhas, das quais surgiam pequenas cascatas que, muitas vezes, nos obrigavam mesmo a fechar as janelas. Noutros momentos, atravessámos túneis selvagens, dentro dos quais "chovia"... Um percurso algo peculiar que fascina facilmente qualquer um.
Almoçámos em Porto Moniz, num restaurante que pode ter tido os seus tempos áureos, mas já não os vive (experimentei lapas, que foi uma ideia muito infeliz!). E, por baixo, uma piscina natural com muita gente feia.O regresso ao hotel fez-se por caminhos idênticos aos anteriores, depois veio a piscina, depois os preparativos para voltar a sair. E os Crocs, que de manhã se haviam revelado o melhor do calçado. Fomos até à Ponta de São Lourenço onde eu tive um momento algo espiritual e muito zen. Para já, éramos os únicos naquela ponta de montanha. Depois, o vento era verdadeiramente forte, o que convencia a mente de que estaria a viver algo parecido com voar... e depois era o mar, lá em baixo, no meio das bocas monstruosas que as rochas esculpiam. Imaginar os primeiros navegadores a chegarem ali, tudo tão inóspito... tentar ver e sentir os "mares nunca dantes navegados". E uma gaiovota. Havia nuvens, havia um pouco de frio e havia braços do Sol a descer até ao sítio onde eu estava. Passou-se ali qualquer coisa de libertador que eu não sei explicar.
Ao jantar, um rústico restaurante de nome "Casa Velha" e uma deliciosa massa de gambas. Aí, soube da história que agora partilho... foi uma barrigada de riso à mesa:
"D. Carlos gostava de histórias e do exemplo que são. Esta contava-a ele e, depois, contava-se dele. O rei fora visitar um manicómio. À hora marcada, chegou gordo, louro e solene. Estavam a recebê-lo ministros e médicos. Os loucos olhavam-no à distância, muitos deles não percebendo sequer quem era aquele que viam. Até que, quando cumprimentava e fazia perguntas, se chegou junto dele um doente que tinha conseguido furar o cordão que protegia o monarca. Era um homem de meia-idade.
Dirigiu-se ao rei com modos reverentes (fez uma vénia) e palavras respeitosas (Majestade, Meu Senhor), pedindo compreensão e clemência. Contou que estava preso naquele hospício por uma escura maquinação da família, que assim lhe tinha ficado com os bens e lhe gastava a fortuna. Fixou D. Carlos com os olhos serenos e sinceros, exclamando: “Eu não estou louco! Sou um homem são e só Vossa Majestade me pode salvar, ordenando que se faça justiça.”
O rei impressionou-se com o que viu e ouviu. Naquele homem, na sua expressão e na sua atitude, na sua fala e no seu proceder, não havia nada que levantasse suspeita ou denunciasse excesso ou delírio. Tudo o que ele dizia tinha uma lógica forte e parecia provir de uma razão clara. Mas D. Carlos quis ser prudente, sabendo que é preciso dar a uma primeira impressão a oportunidade de se confirmar. Por isso, ordenou ao reclamante que o acompanhasse, criando ocasiões de conversa e de avaliação.
A visita iniciou-se, e o rei, nesse dia, parecia muito atento, curioso e comunicativo. Deixava reparos e pedia informações acerca do que via. Fazia perguntas sobre doenças e doentes. Com vagar e interesse, percorria enfermarias e salas de tratamento, ouvia explicações, necessidades e lamentos. Pelo meio, sempre que podia, interrogava o homem que lhe pedira justiça e obtinha dele comentários ajuizados. Havia já um incómodo entre os médicos, causado pela demonstração de que, afinal, aquele louco era tão ou mais normal do que qualquer deles. E essa evidência sustentava a tese da conspiração familiar.
D. Carlos prosseguia a visita, dividido entre a preocupação com uma gritante injustiça e o divertimento pela perplexidade gerada. Mas os reis, ainda antes de serem justos, devem ser prudentes até ao fim – e aquele não quis faltar a esse dever da realeza. Assim, continuou a fazer perguntas ao homem. Agora, já não o interrogava sobre o manicómio e a vida nele. Inquiria-o também sobre a família malvada e a cabala por ela montada para o interditar e desapossar. Perguntava mesmo sobre o país e a política. O homem respondia com eloquência e discernimento. Via-se que, mesmo encerrado no hospital, conhecia o que se passava lá fora e tinha sobre isso ideias sensatas e opiniões avisadas.
O soberano continuava a caminhar e já falava com o homem não apenas para o experimentar mas também para tirar prazer e proveito do que ouvia. Em redor, os ministros e os médicos, comprometidos, guardavam circunspecção e silêncio. O rei, que gostava de exibir aos outros a sua condição e a superioridade que ela lhe dava, falava alto e louvava o seu interlocutor. Este sorria e trocara mesmo a reverência inicial com que se apresentara a ele por uma familiaridade cortês. Quem olhasse aquele cortejo que deslizava pelos corredores brancos do manicómio via, à frente, D. Carlos de Bragança Sabóia Bourbon e Saxe Coburgo-Gota, rei de Portugal pela graça de Deus, a conversar com um louco que negava sê-lo. Atrás, a uma respeitosa distância, vinham os ministros e os médicos, mudos e apreensivos com o que se passava.
A visita estava a chegar ao fim, e o monarca ia iniciar as despedidas. Certo agora, de uma certeza sem dúvida, de estar em face de um homem normal, vítima de uma conspiração iníqua que o encarcerara, D. Carlos preparava-se para lhe dizer que, mal saísse dali, trataria do caso, mandando que justiça se fizesse e ele fosse posto em liberdade. Mas, antes que assim dissesse, o homem olhou-o e clamou: “Contei muitas coisas de mim e da minha vida a Vossa Majestade. Mas há uma coisa que ainda não contei: é que eu sou um galo.” Ao dizer isto, agitou os braços como se fossem asas e, num brado que se ouviu em todo o manicómio, cantou três vezes: “Cocorococó! Cocorococó! Cocorococó!” O rei, estupefacto, compreendeu imediatamente e gritou-lhe: “Cantaste a tempo!""
José Manuel dos Santos
À noite, Casino com ele... roleta em parceria com ele e lucro de 30€ para cada um. Sortudos...
Ao terceiro dia, a coisa começou de forma caricata. Em Tavira, último hotel antes deste, tinha a mania de abrir croissants e de os colocar naquelas torradeiras com "passadeira" rolante. Ficava de lamber os dedos... Então, quis fazer o mesmo. Peguei num, fui à mesa abri-lo, e coloquei-o na passadeira. Já o imaginava da forma que melhor me saberia: manteiga, por cima doce e, por fim, fiambre. É sempre assim. A manteiga derreteria, depois viria o doce misturar-se com o salgado e, por fim, o fiambre... Mas nem sempre as coisas correm como prevemos. Eis senão quando o croissant decide ser gordo e encrava a meio, num sítio onde seria impossível chegar. Nem sei para que pedi, fora de mim, a uma inglesa, para me passar a pinça do pão, a ver se eu lá chegava... Sem efeito. E foi então que aquilo aconteceu: o croissant incendiou-se dentro da torradeira do hotel!!!! PÂNICO. Não sabia que fazer, já imaginava a sala em chamas e eu a ser responsabilizada... Lá dentro, via um croissant em chamas e não sabia quanto tempo demorariam elas a passar para o resto da torradeira!
De repente, o croissant diminuiu, já bem queimado e passou onde não passara. Que alívio tamanho! Lixo.
Para este dia, estava reservada uma caminhada, na Levada das 25 Fontes. O nome deve-se ao final do percurso: um pequeno lago para onde convergem várias quedas de água - supostamente as tais 25 (não contei). Uma grande parte do caminho que fizemos de carro foi sempre a subir; subidas que se fazem em primeira e que provocam medo de ter de parar a meio! Acho que nunca tinha conduzido numa estrada tão íngreme, o que dá uma picelada de insegurança, quando o carro nem é aquele que domino. E ainda nem disse que, a determinado momento, numa curva apertada, tive de reduzir a velocidade e os pneus rodaram durante um bocado, sem que o carro saísse do lugar (Avis e os seus dois pneus carecas), em pleno alcatrão.
No caminho, passámos uma Quinta com um nome inteligente: "Quinta Sexta e Sábado" e era uma constante ver borboletas muito amarelas a esvoaçarem de um lado para o outro. A meio caminho, rendi-me por completo ao fascínio de ter subido tanto que estava acima das nuvens.
Ao chegar à Levada, esperava-nos um caminho de 3 km a pé: subimos, descemos, subimos 70 degraus de pedra, descemos 410, à nossa direita tínhamos sempre água a correr - a levada, propriamente dita - e, se à esquerda o pé falhasse, rebolaríamos precipício a baixo. (no regresso: subimos, descemos, subimos 410 degraus de pedra, descemos 70, à nossa esquerda tínhamos sempre água a correr - a levada, propriamente dita - e, se à direita o pé falhasse, rebolaríamos precipício a baixo ). Os cruzamentos com caminhantes em sentido inverso eram extremamente arrepiantes... e o caminho parecia interminável, pelas variações de terreno. Para lá, fez-se em uma hora onde, mais uma vez, os Crocs provaram tudo o que são e que eu não acreditava. Há 1 ano atrás, eu era mais uma que jamais compraria estes sapatos gigantescos.
O percurso pedestre fez-me sentir pequenina, porque estava completamente rodeada por montanhas, e a nossa meta valeu o esforço e veio consolidar o meu fascínio por água natural. Só tirava a quantidade de gente - turistas como nós - que lá estava, porque não se dava um passo sem entrar directamente na rota de uma objectiva.

O regresso pedestre foi de 45 minutos, acelerados pela fome e a canseira total. (Não sei a que propósito só no regresso me lembrei de que o mp3 poderia ser um excelente impulsionador de passos... era "Jai Ho", era "Hot and Cold" e mais uns ritmos).O almoço foi bem perto porque, felizmente, tinham posto um anúncio no vidro do carro: "Jungle Rain Cafe". Pretendia ser uma imitação do maravilhoso "Rainforest Cafe" que só a Disney sabe compor, nos seus parques temáticos... mas vá, à parte de não ter ninguém lá a comer também e apenas haver um empregado a servir, a decoração dava mesmo uns toques dos que conheci em Paris e nos Estados Unidos. Resumindo: o tecto estava totalmente coberto (cada milímetro quadrado) com folhas e troncos de árvores artificiais, as paredes também, alternando com pinturas de muros e animais, havia árvores artificiais espalhadas, uma pequenas cascata e animais como um leão, um elefante e macacos em tamanho real (que de vez em quando se mexiam e reproduziam sons característicos). Esta parte ficou bem longe dos constantes sons de selva da Disney, com umas trovoadas e um ambiente incrivelmente húmido e real.
Ah... e depois falta a música que não gostei. Basicamente, músicas conhecidas e antigas, na voz de pessoas desconhecidas. Em muitos dos restaurantes por onde passámos, quando não era esta música, eram as terríveis flautas de pan, a estragar melodias de que sempre gostei e o próprio instrumento cujo som eu adoro.No regresso de carro, um engano recorrente no final do percurso, mas já não a tempo de atravessar, à grande, o traço contínuo, como o fizera no dia anterior...
Mais uma vez, deu tempo para a tarde de piscina e um reencontro com "O Caçador de Almas".
O jantar estava guardado para o restaurante "Chega de saudade", que é uma verdadeira obra de arte. Tinha três divisões, numa delas um bar de paredes brancas, cheias de pequenos desenhos artísticos, que pareciam feitos a caneta preta, uma sala com sofás e uns quadros feios, de tanta fuga à norma do corpo humano. A divisão de refeições tinha mesas - poucas - mas todas elas diferentes umas das outras, enquanto as cadeiras iguais só se repetiam, no máximo, 3 vezes. Uma cortina numa janela entre esta divisão e a dos sofás - feita de dezenas de tubos de esponja, daqueles que cobrem fios, não sei se eléctricos... e a luz principal era uma espécie de holofote gigante que não sei se de cirurgias antigas se de iluminação de palcos. A comida era realmente fantástica e servida naquele estilo de "pouca comida e fio de azeite balsâmico a enfeitar" - nuns pratos lindos que pareciam virados ao contrário.
O caminho foi feito a pé, por ser tão perto do hotel, e os meus gémeos gritavam a cada passo, com uma tatuagem a dizer "960 degraus".
Na manhã do dia seguinte, mais passeios de carro, naquelas estradas íngremes: ora sempre a subir em primeira ou segunda, ora sempre a descer bem devagarinho também. Almoçámos no Faial - terra madeirense - numa Casa de Chá, com aquela odiosa mania de tirar uma foto à mesa para depois vir vender a turistas - levam a mal quando não compramos (e não comprámos mesmo). Comi uma carbonara que tinha tanto molho, que tive de me esforçar para não provocar um tsunami que me escorresse para cima. Não consegui comer muito (o que seria se o tivesse feito...). No caminho, a foto típica:
Para a tarde, um passeio de teleférico que foi bem giro! Gira a vista... que fui invadida por um medinho pequenino, injectando na turbulência de passar nas juntas dos postes. A altura, em alguns momentos, tornava-se grande demais e, mesmo sem ter alguma vez contactado com vertigens, descobri pequenas histórias imaginadas, aterrorizadoras.
O tempo tinha-se guardado acinzentado àquela altitude e o ar estava extremamente húmido. Desistimos de ver os jardins do Berardo lá no cimo e fomos espreitar a Igreja de Nossa Senhora do Monte. E, nos caminhos que percorremos, por andarmos perto das festas da zona, as descidas e subidas constates e íngremes faziam-se acompanhar de um cheiro intenso a carvão e churrascos, montagens de barraquinhas de madeira e cartazes toscos, escritos à mão, a anunciar promoções de churrascos, bolo do caco e pão com chouriço. Uma mãe de cabelos brancos fazia a filha rir, perguntando se o rolo da máquina já tinha acabado (era digital) e um grupo de turistas bem mais velhas tentava adivinhar o número de degraus da igreja. Eram 52. Por este cenário, haviam fechado as famosas descidas dos cestos... mas fiquei a saber que, ao contrário do que sempre me pareceu na televisão, os cestos não têm rodas. Ups...
Não sei que jogo fizeram a carbonara do almoço e a altitude do passeio; não sei se o teleférico jogou com eles. O que sei é que, ao fim da tarde, o meu estômago transformou-se numa movimentada rotunda sem saída, com umas duas horas de loucura total, sentada na cama, sem saber bem o que se seguiria. Benditas quatro tortuosas corridas para o estômago expulsar tudinho. Deu para umas boas quatro horas de "ai a minha vida". Jantar: uma maçã.
No penúltimo dia, de estômago calmo e cheio novamente, Pico do Areeiro. O poder do campo, dos buracos assinados pelos "despojos" dos coelhos e das nuvens abaixo dos pés...
Continuámos para Ribeiro Frio, onde havia um curioso posto aquícola - tanques e tanques cheios de trutas, cada tanque com seu tamanho de peixes. Num pequeno lago, um casal de patos com meia dúzia de patinhos amarelos e minúsculos. Lembrei os passeios de infância, com os avós, no Jardim da Gulbenkian e a frustração de nunca ter conseguido agarrar nenhum dos patinhos... mas também me lembrei dos bons velhos tempos de curso, com a Vâni e a Sophie, naquele dia em que fomos ao jardim tentar apanhar um... e um rapaz quis ganhar créditos e conseguiu, de facto, ser mais rápido que um deles. Deu-mo na mão. Depois de expulsos de um lugar reservado, viemos a estacionar perto do mercado e mergulhámos naquela explosão de cores de frutos e legumes. A dado momento, saímos do centro do mercado para seguir um caminho verdadeiramente sinistro: mais escuro e onde todos os vendedores de frutas seguravam uma faca na mão, para dar fruta a provar aos turistas.
Para variar de restaurantes, fomos à fast-food do Dolce Vitta...
Na ânsia de regressar no dia seguinte com os sentidos "cheios de Madeira", ao fim da tarde fomos até ao Miradouro da Eira do Serrado onde uma curva a pé escondia - oh não - 102 degraus. E mais 102 para baixo. Valeu a tarde que tinha passado no SPA do hotel.
Jantámos na marina do Funchal... mais bolo do caco, para não variar. Aquilo é mesmo bom...
O passeio do último dia seria bem curto. Fomos até à Ponta do Sol, espreitar uma suposta praia. Sim, era uma praia. Mas... na Ilha da Madeira todas as praias têm pedras e areia preta. É... arrepiante. As pessoas colocam estrados de madeira nas pedras, para se deitarem em cima.
O resto do dia correu... o almoço, o telefonema para o quarto, a perguntar se já podia ser liberto, o programa que vimos no Odisseia a fazer tempo, saída para o aeroporto. Até tudo abrandar. O avião atrasou-se mais de uma hora! Mas deu direito a acalmar aquela característica de ser fã de tudo quanto seja maior que eu: aviões a partir e a chegar, vistos de uma varanda gigante.
Reflectindo sobre o regresso, não sei se preferia o miúdo a dar-me pontapés na cadeira e a falar incessantemente ou este jovem de uns 14 anos, gigante (para cima e para os lados), com traços de peruano, que se benzeu no momento de partir, roeu as unhas todas e... lançava umas ondas de odor de pouca lavagem. Ou a senhora da frente que repetia "Pensava que iam dar um jantar de boas-vindas à gente!". E os jovens do Porto, malcriados à saída, a empurrar toda a gente.
Madeira...
Fiquei absolutamente fascinada com as paisagens, sobretudo umas que se assemelhavam bastante à ideia que tenho da Noruega... Ou ando pouco exigente, ou demasiado sedenta de coisas novas ou, hipótese número três, a Madeira é de facto uma ilha tão maravilhosa quanto me pareceu!