segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Balada das "férias grandes"



NÃO. NÃO esperem que o faça. NÃO esperem que encolha os ombros, carregue o semblante e chegue mesmo a verter uma lágrima porque as férias chegaram ao fim. NÃO esperem que me arraste pelos cantos a repetir "Porquê? Porquê?" ou que responda "Lá terá que ser...". NÃO esperem que vá para a cama dormir mal e pensar que no dia seguinte o "maldito despertador" me irá mandar trabalhar e que não quero.

NÃO esperem que o faça pela primeira vez em 14 inícios de anos letivos. NÃO, ainda não é desta (e quando for, eu aviso).

***

BRINDO às férias e faço-o de coração. Brindo aos muitos dias em que pude fazer o que bem me apeteceu. Sim, foram muitos! Sim, "os professores têm sorte porque têm muitas férias"! (Mas, caramba, como são merecidas depois de tudo o que fazemos durante o ano letivo!)

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BRINDO a cada almoço e jantar que as férias me permitiram fazer com pessoas que são tudo para mim. A vocês, que me acompanham, que se importam, que perguntam e que respondem:

A amiga Vâni, que há 17 anos que está sempre cá, não me larga para o que der e vier e não me deixa crescer, porque, juntas, somos apenas duas eternas pitas sem juízo nenhum.

A amiga Cré, que, na hora h daquele dia, estava no sítio onde eu mais precisava dela, embora nunca a queira ouvir porque aconselha bem demais.

A amiga Rita, a "Amiga de Toda a Vida", com quem me identifico dos pés à cabeça, uma mamã completa, que teve a coragem de fechar aquela porta de uma vez por todas e sair de cabeça erguida, deixando para trás um mundo que nunca mais será o mesmo sem ela (porque és gigante e eles são minúsculos).

As amigas de sempre, as mais antigas, com quem nunca deixo de cumprir as nossas doces tradições, como a da FIARTIL. Estão sempre a par de tudo, andamos constantemente de roda umas das outras. E admiro-as pela forma como travam, corajosamente, as suas próprias batalhas. (Paty, és a maior e tens feito este caminho com uma força inesgotável, cheia de coragem, persistência e amor por cada momento do teu dia-dia, és mestre no "Carpe Diem" e nunca te contei como isso me está a fazer aprender contigo; Joaninha, quando achas que tudo te está a escapar pelos dedos e que é demasiado para um ser humano, comportas-te como um ser de outro planeta e continuas em frente... e "nenhuma tempestade dura para sempre".)

O grupo que, finalmente, se conseguiu juntar ao fim de um número de anos grande demais para o que somos juntas e o que fomos enquanto trabalhámos naquele lugar: a nossa escritora favorita, Francisca, com um vasto clube de fãs espalhado pelo país, um filho lindo e outro que lhe faz uma barriga linda - uma jovem a conquistar o país numa idade tão tenrinha... uma lição para todas; a louca da Rute, que atribui camadas mas devia perceber que é a maior cebola das cinco, imparável, sonhadora de pés na Terra e cabeça nas nuvens, voz da consciência "pão-pão, queijo-queijo", e que aos 90 anos ainda estará a inscrever-se para um doutoramento qualquer na área mais improvável de todas; a Sara, a nossa "diva", a mais descontraída, aquela a quem perguntamos "Vamos?" e depois temos de correr atrás dela porque já vai a caminho... a amiga que desafia sem programar e a quem sabe sempre bem responder "Alinho!"; a Sofia, a amiga que acompanhei de perto no início da sua carreira, que já "calcorreou" o norte do país, onde se fez mulher e constituiu família, onde lutou para ser levada a sério, onde acabou por fazer a diferença numa associação que, sem o dizer, lhe estará eternamente grata... neta dedicada, filha dedicada e irmã cheia de amor e coragem... quase minha irmã também.

A Teresa, que dispensa apresentações, que há exatamente trinta anos ganhou lugar no meu coração e que daqui não sai mais porque este é cativo. A minha querida professora de primeiro ciclo, um dos grandes privilégios da minha vida, que está sempre por perto, a vibrar por cada pedacinho de felicidade na minha vida e a amparar por cada pedacinho menos feliz.

A Beta, voz da minha consciência. A minha amiga que vive no mesmo "plano" que eu e com quem completo ideias, a quem estou ligada por um fio invisível que não parte. Aquela pessoa que poderia estar um ano sem ver e reveria como se nos tivéssemos despedido no dia anterior. Sempre, sempre por perto.

A "mãe preferida", uma grande amiga que há muito que prova que nada desta profissão é só profissão... mãe de três miúdas maravilhosas e especiais, cada uma à sua maneira.

A Magui, a minha amiga "mais crescida", que admiro muito e cujos passos sigo. A voz da sabedoria para quem as coisas são simplesmente o que são. Sempre disponível e sempre em cima do acontecimento.

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BRINDO a um dos lugares mais felizes do planeta: praia, praia, praia! Tenda, toalha, cadeira. E livro... Ler cinco, seis ou mesmo sete horas seguidas, com os pés na areia... perder-me em cada linha das histórias que escolhi a dedo, ignorar que, para além dali, existem outras pessoas e outros lugares. Os mergulhos... o choque frio e salgado na pele, a imersão total. O som do mar. Aquele dia de ficar a ver o espetáculo do pôr-do-sol até ao fim, mesmo que quase em estado de hipotermia.

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BRINDO à vila que me viu crescer e às duas semanas que lá passei!... embora não exatamente por escolha própria. Os dias de piscina tranquilos: a sós com o livro do momento, ou a pôr a conversa em dia com a amiga Eduarda, ou completamente offline com o ipod nos ouvidos e as crianças e os seus berreiros longe de mim.

Foi lá que estive muito tempo contigo, minha pequena criaturazinha fofa... Onde chegas, chegas sempre aos saltinhos, em bicos de pés, de sorriso rasgado, prontíssimo para saltares para o colo, abraçares e dares beijinhos. Minha coisinha pequenina, que tens tanto amor para dar e que és tão feliz e crescido. Estás naquela fase em que cada dia tens uma data de novas palavras e expressões que nos deixam de queixo caído, em que às vezes ensaias um "Não quero", a ver se pega, mas que és fácil de levar quando percebes porque é que tem de ser. Já consegues construir um mundo de fantasia brilhante à tua volta, onde nos convidas a entrar para "investigar" os problemas que inventas: adorei procurar contigo o lobo que me levou o carro para o fundo do mar e o escondeu no nevoeiro... quase que o vi onde o viste. És Noddy, Patrulha Pata, Super Wings e PJ Masks. Tens, dizes tu, "super músculos de réptil" para segurares a trela do Ben. Foste uma companhia incrível dentro de casa, em cada passeio, à mesa... mesa essa onde acabas sempre por dizer "Está muito boa a comida que fizeste". Derretes-me, miúdo... Fizeste de todos nós pessoas melhores e mais completas. Eras a peça que nos faltava.

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BRINDO à escapadinha e à surpresa que ela foi para mim porque nada poderia ter corrido melhor! Cada quilómetro dos cerca de oitocentos que passámos na estrada, cada lugar, cada paisagem diurna ou noturna, cada mergulho, cada decisão tomada em conjunto, cada refeição, cada noite, cada manhã, cada dia, cada conversa, cada silêncio e cada gargalhada. Foi a minha "cereja no topo do bolo", para as férias serem completas. E tu, meu querido companheiro de aventura, tu foste o melhor parceiro para estes dias!

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BRINDO ao exercício físico! Viva cada aula de Bodystep que coube nas férias e que me fez vibrar da pontinha dos dedos dos pés à pontinha do maior fio de cabelo que tenho! Viva cada uma das pessoas que sobe ao palco e mantém viva a minha paixão por esta modalidade: a Filipa, a Mafalda, a Carla e a Ana. E viva o "meu puto" (não me odeies por esta expressão) - o meu novo instrutor que acabou de entrar no ramo e já está a fazer a diferença (és tão grande, Miguel!... mesmo no mais escuro dos dias, sacas daquela bola de fogo à Son Goku e atira-la para a frente enquanto para trás ficam as outras coisas que não cabem no estúdio)!

Viva a descoberta da corrida (aquilo que sempre disse que jamais faria, que sempre recusei quando aliciada por outros)! Até ao dia em que a curiosidade chegou... Viva o momento em que percebi que, a cada corrida, o meu ritmo aumentou e que atingi a média de 5 min/km, em percursos de 6,5 km (num mês e sem experiência anterior)! (Desculpa, Carlos, por te ter deixado acreditar mais em mim do que eu mesma e por todas as tampas que te tenho dado por seres um chato do caraças que não entende que eu gosto mesmo é de correr sozinha. E obrigada, mesmo, por acompanhares os meus progressos e fazeres sempre aquele elogiozinho que sabe bem e me motiva um pouco mais... isso é muito "à mano"!)

Viva cada aula de CX Worx e o que a modalidade tem feito pelo meu core!

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BRINDO até às explicações! Sim, é verdade: duas vezes por semana durante as férias, confesso. Porque ela precisa e eu, à minha maneira, também. Viva o esforço desta criança para se superar a si própria, em plenas férias de verão! Miúda brilhante...

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BRINDO, por fim, e porque "os últimos são os primeiros", às consultas que se põem em dia nesta altura, pois, afinal, sem saúde não somos ninguém. Não tem preço ouvir dizer "Não há novidades, está tudo bem!", no sotaque espanhol e inconfundível daquele que é o meu médico favorito há dez anos (e a quem só perdoo o atraso de três horas porque me permitiu escrever este texto na sala de espera do Hospital de Santa Maria).

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E termino aqui o meu brinde a umas férias que me retemperaram a alma e o meu agradecimento sincero a quem esteve presente. Foram aproveitadas até ao último segundo, até ter gasto o "último cartucho" - posso hoje, à data desta publicação, dizer que é literal...  ESTOU PRONTA.












quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Até à próxima jogada...


Praia. Manhã. Assento relativamente próximo de uma família: avó, avô e tu, o neto.
Jogas à petanca com o avô. A avó está na toalha.
Ele tem o típico ar de avô que passou a manhã a fazer-te as vontades. E tu... tu o ar de um rapaz mimado de 11 anos. Estou longe, mas percebo que o comandas sem que tenhas de te esforçar muito para que te obedeça.
Desligo-me de vocês durante cerca de uma hora, até que os três se juntam no jogo da petanca e mudam de sítio, para bem próximo de mim. Diria que demasiado - aquela noção que falta a muitos seres humanos, de “espaço pessoal”. Vocês invadem o meu, por isso agora invado eu o vosso também.
Todos vão lançado a bola à vez, pela ordem que tu decidiste: avô, avó, rapaz. Percebo que não queres ser o primeiro porque não admites perder e motiva-te atirar a bola sabendo já onde as deles foram parar.
Lanças com entrega e espírito de campeão. Só que perdes sempre.
Durante o vosso jogo, começas a incomodar-me. Não paras de dar ordens aos teus avós. Queres que façam “poses” antes de atirar (exemplificas e quase me rio para fora), queres que tenham “gritos de guerra” individuais, mas eles só querem lançar a bola e esquivam-se subtilmente às tuas exigências.

Mas não te mandam calar.
Não gosto do tom com que falas, rapaz...
Numa das tuas jogadas, a bola sai-te mal. Vais apanhá-la e repetes. Mais tarde, o mesmo sucede à tua avó, mas tu autoproclamaste-te de “líder do jogo”, por isso decides que não há repetição da jogada. Só que a bola da avó já está na mão dela.
Gritas. Gritas-lhe que largue a bola e a ponha onde caiu. Insistes muito e eu já não te posso ouvir mais a dirigires-te a ela aos berros. E então acontece: o som inconfundível, seco, rápido de uma palmada no rabo. Bem dada.
A tua avó aproxima a cara de ti e, sem gritar, é firme na forma como te diz que o jogo acabou e que não voltas a falar naquele tom.
Depois, o silêncio. Foste apanhado desprevenido e não sabes como reagir. Então, não reages. Estancas. Ela vira-te as costas e vai para a sua toalha. Já o teu avô fica na dúvida sobre para que lado se virar... então murmura, entre dentes, que vai recolher as bolas e segue também para a toalha.
Agora estás sozinho.

Quase que o teu queixo se funde com o teu peito, quase que te enterras na areia... Depois lembras-te de espreitar para dentro dos calções, à procura da tatuagem daquela palmada.
Permaneces sem nenhuma ideia do passo seguinte. O silêncio. Continuas com o corpo a formar uma letra “C” até te sentires pronto a tomar uma decisão.
Decides caminhar para longe (a “distância de segurança”, não estás exatamente a fugir dos teus avós) e sentas-te na areia. Em silêncio.
Estou curiosa porque quero saber quem vai ceder em primeiro lugar. Faço a minha aposta: afinal, eles são teus avós, e é de conhecimento universal o significado que isso tem.
Mas engano-me.

Dez minutos depois, começas tu a construir a tua “bandeira branca”, e então dás uns passos na direção deles e sentas-te mais próximo. Repetes o processo mais duas ou três vezes. Só que eles estão mais firmes que nunca e, então, passas à segunda fase: gemidos e gritinhos, corridinhas e saltinhos...
A determinação dos teus avós veio para ficar. Acho que são de outro planeta... (Já pensaste em pedir-lhes desculpa?)
Avó, olha esta cascata de areia!” - e aqui estou de costas e não posso ver nem consigo ouvir como ela reage.
Quando já estás oficialmente no vosso lugar, encetas uma conversa que diriges ao teu avô porque queres que vá contigo à água. Usas o trunfo de uma criança inteligente, capaz de vergar qualquer familiar adulto - caso fosse verdade. Atiras-lhe um “Estiveste pouco tempo comigo!”. O teu avô tem resposta para isso, só que eu não a consigo ouvir.
Acabas sozinho na água e divertes-te nas ondas. Estás tão bem, que te desligas do que acabou de acontecer. Afastas-te um pouco da areia e eles levantam-se para ir olhar por ti.
Os três arrefeceram as ideias e tudo voltou ao normal...
Na areia, até tens direito a uma bola de Berlim... e os avós afinal são deste planeta, como todos os outros. Pelo menos, até à próxima jogada que correr mal à tua avó.

domingo, 7 de abril de 2019

Oh Apple...



Confesso que nunca percebi muito bem como é que as pessoas deixam cair os seus telemóveis na sanita. Mas quem é que entra numa casa-de-banho com o telemóvel no bolso das calças?! 

Hoje foi o dia em que percebi tudo: foi o dia em que entrei na casa-de-banho com o telemóvel no bolso das calças, que me aproximei da sanita e que o deixei cair lá para dentro. 

Tiro-o (da única forma possível), separo-o da capa e não posso fazer mais nada, porque infelizmente os iphones não podem ser abertos por "gente comum". Descanso quando percebo que, afinal, funciona na perfeição. Volto a pôr a capa. Não foi desta, que alívio... 

Saio de casa e faço 20 km de carro. À chegada, o telemóvel começa a tocar e olho para ver quem é. Preto. Ecrã completamente P-R-E-T-O. A capa encharcada com a água que afinal estava dentro do aparelho e que eu achava que não tinha conseguido entrar... 

Às 17h, estou na GSM do Colombo onde me tiram as esperanças todas. A Apple, sensatamente, não autoriza reparações desta natureza, que a longo prazo podem aparecer defeitos que não se manifestem logo após o arranjo. Informo-me então sobre o preço de um 6S igual e passo por três lojas para comparar. É a NOS quem vende mais barato. 

Às 17h30m inicio um processo que não adivinho tão longo. Não estou minimamente calma, pois sei que não tenho uma cópia de segurança do iphone anterior e que a primeira tarefa será obter uma, no meu computador. 

Abro o itunes - o programa que permite ligação entre computadores e iphones. Ligo o telemóvel e o programa pede que no ecrã deste seja feita a confirmação de que é um computador confiável. NO ECRÃ P-R-E-T-O. Conseguir digitar o pin "às cegas" já foi uma obra de mestre. Acertar no botão "Confiar" é impossível. 

Penso na forma de o conseguir: ativando o novo iphone, posso fazer com que surja um ecrã semelhante, de forma a ver exatamente onde fica "Confiar". Então, pego na película autocolante e numa caneta de acetato: posso decalcar essas opções, depois colar a película no ecrã do que está estragado e acertar exatamente o sítio onde carregar. 

Mas eis que vem o obstáculo seguinte: para ativar o iphone novo, a Apple necessita da autenticação de dois fatores, ou seja, para além da password associada à minha conta, a Apple quer um código temporário. E onde é que aparece esse código?! No ecrã P-R-E-T-O... 

Oiço o som da chegada do código e, obviamente, não vejo nada. Beco sem saída: não tenho como ativar o novo telemóvel. Por conseguinte, não tenho como abrir caminho entre o estragado e o computador para efetuar a sua cópia... No entanto, uma vez que o código supostamente pode aparecer no ipad, peço sucessivamente novos códigos e continuam a chegar... ao ecrã preto. Desespero. 

Penso que, cortando a comunicação do iphone estragado, o código temporário irá seguir para o ipad. Tiro o cartão SIM mas não tenho como desligar o wifi do telemóvel porque não vejo as opções. Nem posso desligar o wifi de casa, porque estou a usar na ativação do novo... Decido sair de casa e pôr o iphone estragado num sítio seguro, de forma a não ter acesso à internet: lembro-me da caixa de correio. (Que trabalheira para o cérebro.) 

Volto a entrar em casa e o código continua a não ser enviado para o tablet. SOCORRO, estou a ficar sem ideias. 

A outra opção de envio dos seis dígitos é por sms, para o número pré-definido na minha conta da Apple. Continuo num beco sem saída: um telemóvel estragado onde não posso usar o SIM, um telemóvel novo que ainda não está ativado para usar o SIM. 

Então lembro-me de um iphone bem velhinho que está no fundo de uma gaveta, e cuja bateria dura menos de 1 hora, daí a sua reforma. Vou buscá-lo e não sei se ainda funciona. Ligado à corrente, lá reage devagarinho... mas demasiado devagarinho, por isso a frequência cardíaca volta a disparar. E não baixa porque o iphone pede reativação e necessita de o fazer com... a autenticação de dois fatores!!! 

O primeiro "milagre" surge aqui (já precisava de um...): os 6 dígitos de código (para ativar o iphone reformado, não o novo) vão, estranhamente, para o ipad desta vez. Já posso pedir o código via sms! Assim faço. O novo iphone está ativo. 

Saio para ir à caixa de correio buscar o estragado... No elevador, olho para o ecrã e acontece o segundo "milagre": com a luz, distingo qualquer coisa no ecrã. Quando entro em casa, aponto uma lanterna e consigo, com muita dificuldade mas consigo, distinguir algumas sombras. Assim, ligo imediatamente o cabo ao computador e consigo carregar em "Confiar". 

São (já) 19h30. A partir daqui, as coisas começam finalmente a compor-se: faço a cópia de segurança e restauro-a no iphone novo. 

Duas reflexões finais: 
- A Apple abusa das questões de segurança e não facilita em nada, o que neste contexto foi tortuoso...
- Afinal qualquer pessoa está sujeita a que o telemóvel lhe caia na sanita.

(Ah... e, só porque sim, o estragado vai tirar umas férias no pote do arroz, a ver se o que dizem é verdade. Será?)

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Esta minha aldeia que me encanta



Nesta noite alentejana de sexta-feira, abri a janela e fui acometida de uma vontade incontrolável de escrever, num desafio de definir o cheiro que senti. Perda de tempo. Quero arranjar palavras para ele e não consigo. É forte. É intenso. É único. E eu poderia reconhecê-lo de olhos fechados. Aliás, é mesmo assim que mais gosto de o sentir. Gosto quando ele entra, sem a concorrência dos outros sentidos. Nunca vem de mansinho. É explosivo no que provoca, apaziguador no que faz sentir e doce nas memórias que reproduz. Cheira a esta aldeia alentejana cujo nome não preciso de escrever. Quem a conhece como eu sabe exatamente onde a encontrar.

Aqui fui feliz, sou feliz e continuarei a ser. É um lugar seguro para a alma, no tempo quente, no tempo frio e no tempo assim-assim. Onde o sol nos aquece de uma maneira diferente e a chuva nos apazigua de uma forma muito sua. Onde a beleza do sol está na cor dos campos e a da chuva está num alpendre seguro, rodeado por ela, mesmo que embrulhada num cobertor.

Há o cheiro do sol e o cheiro da chuva. O cheiro do vento e das lareiras. E há o cheiro da noite.

Há o cheiro da nossa casa, dos nossos móveis e dos nossos lençóis. 



Cheguei aqui há quase 30 anos


Não, não...

Foi este "aqui" que me chegou a mim há quase 30 anos. 

Trouxe cá algumas das pessoas que eram das mais importantes da minha vida, nos momentos em que as trouxe: a Joana aos meus 9 anos, a Sara aos meus 11, a Vâni e a Sofi aos 20, depois outra vez aos 21, mais o nosso grupo do trabalho do Museu dos Coches, como a Cré, e éramos 5 ao mesmo tempo. A Sandra e a Rita, para uma semana de estágio, a Paty e a Inês, que estava grávida sem saber. 

Passaram por aqui amigos da família e outros familiares. Tanta gente. 

A passagem de ano onde enchemos as 9 camas com 12 pessoas. 

Na infância e na adolescência, foram as vindimas, a festa, as procissões e a garraiada. Andei dezenas de vezes na carroça puxada pelos bois, que levava os bidões cheios de uvas para a adega do tio Jorge. Cheguei a pisar uvas, mas não gostei. Nem do cheiro da adega, durante o seu expoente máximo de ação. Gostava de apanhar as uvas para um balde e de me empoleirar na carroça cheia. Gostava mais ainda quando a carroça regressava à vinha vazia, e aí já cabíamos todos. E nunca cheguei a gostar de vinho. 

Fumei aqui pela primeira (e última) vez, aos 13 anos. Fugi, aos berros, da minha primeira cobra em liberdade e aprendi a apanhar rãs com as minhas próprias mãos. Explorei a aldeia com a Ana, que é prima, até conhecermos cada recanto de cor. E também aprendi a passear sozinha, confiante e sem medos. Convivi com ela, com as amigas que trazia a casa dos seus avós e com os outros primos. O Tiago, o João, a Sofia, a Raquel, e os amigos deles. E tantas vezes levava o meu atreladinho, o mano. 

Dormimos todos na casa da vinha uma noite. Morri de medo. Não tinha eletricidade, fomos a pé pelo campo às escuras, levados pelo tio Mário, e passámos horas na eira, deitados no chão, a olhar para as estrelas, em pijama. Ainda hoje acredito que, nessa noite, vi um OVNI a descrever um percurso em "z" no céu e a desaparecer rapidamente. Ninguém me tira essa ideia da cabeça.

Dormimos, não sei bem como, quatro miúdas numa cama. No outro quarto ficaram os rapazes. E fomos ouvir através da porta as conversas que tiveram sobre os engates daquela noite, na festa do castelo. (Sim... uma aldeia tão pequenina, mas que tem um castelo!) 

E havia o Pedro e a Joana, netos da prima Raquel. Eram especiais porque sim, e dos que mais me lembro de ver por cá. Tinham uma paciência de santo para nós, quando éramos miúdos. Eram divertidos, cantavam, diziam piadas, passeavam connosco. Eram dedicados à família. Havia "a Teresa e o Álvaro", "a Lídia e o Zé Manel" (sempre enunciados aos pares porque eles eram assim mesmo), o João, o Manuel. Que ramo da família tão caloroso, tão único. Que saudades daqueles dias, daqueles convívios e daquelas refeições com mesas cheias e improvisadas, onde cabia sempre, sempre mais um. 

A tia João e o tio Jorge, a receberem-me como a uma neta. Os cozinhados lá de casa, que era o sítio onde, nesta aldeia, melhor se comeu sempre. As migas e a "torta da avó" do almoço. A boleima e as torradas com chocolate granulado da Holanda, do lanche. As batatas fritas com um sabor único. Uvas, melancia e romãs. A groselha que nunca entendi que o meu irmão gostasse. E os peixinhos da horta, que na altura ainda não tinha descoberto. Dormir lá em casa, no quarto da Ana, para variar, era mais uma animação. E havia aquela porta do último andar, que ia dar à parte de cima da cozinha, a uma plataforma perigosa mas muito atrativa. E a casa do outro lado do quintal, onde podíamos brincar à vontade. E a tia Graça, o Fábio, o Diogo, o tio João, a tia Luísa. O tio Mário e as suas histórias. As nossas reuniões espontâneas à roda da mesa de plástico. Mais um lugar onde sempre coube mais um. O avô Manel e o tio Pedro.

Trabalhava lá a "Luísa do Coraçõ", para quem as crianças da nossa família eram a maior luz que se lhe podia dar. Recebia-nos com o seu "Eh, coraçõõõ!", e depois vinham os beijos em que nos picava com os pelos da cara. Aliás, à semelhança de quase todas as senhoras daqui. Tentávamos escapar tantas vezes, mas não nos deixavam. Chamavam-nos. Bastava que, em algum momento, tivessem privado com a infância dos nossos avós ou dos nossos pais para nos exigirem esses cumprimentos. E nós dávamos, para depois nos irmos embora a rir. Após o inquérito, claro: "Vierem com quem?"; "Quem são os meninos?"; "Atão o avô ficou em Lisboa?"; "E esta caspinha, quem é?" (aprendi tarde que não era um insulto); "São netos do sr. almirante ou do sr. engenheiro?"; "É filha da Paula ou do Pedro?"... 

À frente, havia "o Vizinho", com as suas histórias de encantar... da cobra que o "hintopsiou", das abelhas, dos javalis. Ele adorava que eu gostasse tanto de saber sempre mais. E queríamos tanto andar nos seus burros, mas estávamos tão instruídos para não lho pedir e limitarmo-nos a aceitar a oferta, quando esta viesse...! Eram o Bogalhinho e o Sassá. Quem diria que estes nomes ainda aqui estariam, ao fim de cerca de 25 anos. Ainda andámos algumas vezes e, na hora, tornava-se o melhor momento da estadia. Os seus cascos a escorregar pelas pedras da calçada, num aperto permanente, e com as moscas a poisarem-nos em cima... 

Havia a prima Belmira, que morreu aos 104 anos. Batíamos-lhe à porta e queríamos entrar e conversar. Gostava tanto de toda a gente! E, quase até ao fim, soube quem era cada um de nós, e corrigia-o à prima Mariana, quando a acompanhava. Sempre sorridentes. Mais a Mercês e o Tó. 

Na garraiada, passávamos toda uma tarde a assistir às pegas das vacas. Os homens gritavam "Vaca, vaca, vaca!", e elas corriam para eles. Mal se abria a porta para entrar mais uma, a correr desorientada no recinto, ouviam-se exclamações animadas, numa avaliação do que se iria passar a seguir... "Esta é fina!"... "Esta é fraquinha"... "É só um vitelo...". E, secretamente, estávamos sempre a desejar que a coisa desse para o torto, que houvesse sangue à séria, que a ambulância que estava de guarda tivesse de intervir. Mas nunca chegou a dar (e ainda bem). 

Na vinha dos tios, tínhamos o tanque que, quando não estava sujo e cheio de rãs e salamandras, se transformava numa piscina. Na nossa piscina. Mesmo que tivéssemos de esperar horas até estar cheio, e mesmo que desse trabalho negociar até que altura o podíamos encher... Nesses momentos, o tanque continha toda a felicidade do mundo e o pior era a hora de sair. 

Cá em casa, esta construção reerguida ao longo de anos, de ruínas de quase nada e de uma história que não era nossa, éramos os quatro. Durante anos tivemos ainda a companhia do Afonso, nas suas quatro patas. Vínhamos quase todos os fins-de-semana. Preenchíamo-nos uns aos outros.

Comíamos o pão feito pouco tempo antes, se cedo, com a manteiga ainda a derreter. A padaria fechou no ano passado e agora convivo com o medo de me vir a esquecer do sabor do pão, que não mais encontrarei em parte alguma. 

Nesta mesma casa, também cabiam todos. Sobretudo no alpendre. Aqui, jogava-se snooker ou exploravam-se os caixotes dos brinquedos que trouxemos para o sótão - o sótão onde construí uma parede de latas ao longo de anos... milhares de latas. Jogávamos o Sonic, o Bomberman, o Toy Story e o Tom & Jerry, na Sega Mega Drive. Refrescávamos-nos de mangueira no quintal e chegámos a passar lá uma noite acampados numa tenda - eu e o meu irmão. A nora ainda funcionava e o mistério de como será para lá do poço permanece até hoje. Tal como a história que se contava na aldeia, do tesouro enterrado aqui em casa; se o Manel o encontrou durante as obras, nunca nos disse. Mas desenterrámos ossadas antigas, que a minha mãe garante serem de criança. Histórias anteriores a nós, da família a quem comprámos a casa. 

Às vezes, o meu irmão esgueirava-se para a "mercearia do sr. Engenheiro", onde este lhe falava de números e o desafiava no cálculo mental. 

De bicicleta, pedalávamos por toda a aldeia, repetidamente até ao campo de futebol e, a medo, até um pouco mais à frente, ao cemitério, mas nunca depois do pôr-do-sol. 

Às vezes, fazíamos amizade com as crianças que cá moravam e aprendíamos a ver a vida de uma dimensão bem diferente daquela que trazíamos entranhada. Reposicionámo-nos no mundo, com essas experiências, e chegámos a arranjar namoros de um dia. 

A festa anual, em honra da padroeira... Todos à praça do castelo! Para o bailarico, copos e o convívio descontraído. Aprendi o que era a "música pimba". Não dançava, mas assistia à animação do espaço, a tanta gente junta ao mesmo tempo - a de cá e a que vinha de longe. 

Lembro-me do ano do Emanuel, com o repertório desconhecido, mas o "Nós pimba", e do ano da Ágata, com o repertório desconhecido, mas o "Perfume da outra mulher". O ano dela, que faz agora exatamente 20 anos, foi inesquecível - a organização da festa pediu para que a nossa casa fosse o seu camarim. Recebemos a Ágata e a sua família e isso foi hilariante e memorável. Vestiu-se aqui e deu de mamar ao Francisco - "O puto mama comó caraças!", disse ela. Trouxe o pai, um senhor que confessou não gostar daquelas roupas nem das da neta Romana, e uma irmã com namorado, que se perdiam em beijos excessivos. 

No tempo da festa, na hora em que já queríamos dormir, entrávamos na cama a amaldiçoar o Nuno José, do órgão, que tocava madrugada adentro, e jurávamos não regressar na mesma altura do ano seguinte. Mas, durante algum tempo, regressámos sempre. Anos mais tarde, só eu, a mais resistente. Gostava mesmo de me perder naquele ambiente e de rever pessoas que não encontrava noutro sítio, ou que encontrava mas não com este espírito. À exceção dos bêbedos que, ao fim da festa, seguiam aos gritos e gargalhadas pela nossa rua, agarrados às paredes e a bater às portas todas pelo caminho (e a nossa casa tem 4 portas!). 

Sempre me perguntaram se não tinha medo de aqui estar sozinha, "naquela casa tão grande". Não sabem o significado da palavra "conforto", deste "conforto". Isto não se explica. 

Um dia, veio a São, que era figura pública, e que foi por isso que tanto a quis conhecer. À semelhança da maioria das crianças, eu pensava que estas pessoas não existiam para lá dos ecrãs. Então, aquele dia em que isso aconteceu permanece gravado na memória da miúda de 10 anos que eu era nesse momento exato. Lembro-me que ela estava a recompor-se das lágrimas da procissão. E que era tão alta! Que me recebeu como se já nos conhecêssemos, num sorriso de orelha a orelha, que trazia o marido, com quem acabara de casar, e que estávamos no largo da igreja, em setembro de 1994. A partir desse dia, à nossa entrada na aldeia, obrigava o meu pai a abrandar, para me deixar olhar para o cimo da rua e saber se ela estava cá. E, quando estava, era a alegria suprema. 

No ano seguinte, 95, foi a vez da Matilde chegar. E instalou-se definitivamente na minha vida quando estava prestes a chegar aos 3 anos. Setembro de 1998. 

Era sempre em setembro que tudo acontecia. E foi também em setembro que a São deu o passo decisivo para se quebrar a tradição desse mês, ao escolher incluir uma miúda de 14 anos nalguns momentos da vida familiar. O Carlos, a D.ª Antónia, o Sr. Mário... Passei a ser recebida nas suas casas como se fosse parte da família, cá e lá. Aqui na aldeia, havia sempre lugar para mim nas suas rotinas e isso era fascinante

(Nesse ano, a São levou-me ao canal onde trabalhava e onde se mantém; apresentou-me apresentadores e jornalistas, depois de me ter ido buscar ao colégio. O verdadeiro sonho para a adolescente que eu era naquela altura. E claro que, temporariamente, andei a apregoar que seguiria jornalismo.)

E a Matilde. Sempre a Matilde... A corrida desenfreada para aquele abraço apertado, que quase me esganava quando nos revíamos, a monopolização da minha atenção, sempre que me tinha por perto, as suas conversas intermináveis ao telefone (que ainda era fixo)... Como eu adorava aquela miúda. Estava sempre desejosa de a ver.

Depois, chegou a Maria Luísa, uma criança sensível e inocente, nos seus caracóis. Tão especial também! Que me conquistou facilmente ao me saltar tão depressa para o colo. Por quem sofri naquela festa em que, mesmo à minha frente, partiu uma taça de loiça nas mãos, acabada de ganhar nas rifas, pela teimosia de a querer levar. (Acabou no hospital mais próximo, a levar pontos.) 

O tempo que eu dedicava, de coração, àquelas duas irmãs, tão diferentes mas tão iguais na doçura e na competição para ver quem ganhava a minha atenção primeiro. As horas seguidas que passávamos juntas, sempre que nos encontrávamos... E a Marta, entre ambas. Mais a avó da Marta, que conheci bem, mas que partiu cedo demais. 


Foi a tudo isto que me cheirou quando abri a janela esta noite. Era isto que eu queria escrever, sobre este cheiro, que é um poço de memórias doces. Se alguma é triste, já a esqueci (menos a mão da Luísa).

Tenho comigo tudo o que de feliz vivo por cá. O bem que me faz à alma, o quão tranquila e completa me faz sentir. E, quando venho sozinha, o quanto "medito" aqui e aprecio a minha própria companhia. 

Tenho tempo para tudo... juro que aqui tenho tempo para tudo, que o relógio anda mais devagar e que tudo cabe... nesta minha aldeia que me encanta.



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

E a culpa é vossa!


Recomeçámos na semana passada. A emoção daquele primeiro abraço... de vos querer abraçar a todos ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, querer o abraço de cada um. Olhar para os vossos olhos a brilhar, ver-vos dar aquela corridinha para ver quem chega primeiro...

E o primeiro dia é assim.  

Entramos, deixo-vos sentar onde querem, e vocês já sabem que é por um dia ou dois. Já não vos engano com a conversa de que vos estou a dar um voto de confiança. Conheço-vos bem demais para isso e vice-versa. Vocês brincam com a situação e assumem que o esforço seria tão grande que mais vale prevenir. Já não tentam negociar comigo porque, nos dois anos anteriores, ficou bem claro que não sou de negócios.

Passam a manhã a perguntar quando vamos trabalhar. Não querem organizar dossiês, não querem conversar sobre o 3.º ano, nem querem que chegue a hora do recreio. Querem TRA-BA-LHAR.


"Pipa, já podemos começar a trabalhar?"

Conversamos sobre as férias e deixo-vos escolher três coisas para partilharem em turma. Um diz que uma das que mais gostou foi de fazer os TPC, e a moda pega entre mais alguns. (Os "meus bebés" que ainda acham que caio nessa.)

E depois faço-vos a pergunta cuja resposta não quero exatamente saber. Pergunto-vos pelo livro dos trabalhos de férias; aqueles exercícios que vos ajudam a não perder totalmente o ritmo ao longo de quase três longos meses de férias... Alguns retraem-se, outros orgulham-se. E, quando vejo a pilha de livros e os folheio a todos, fico agradavelmente surpreendida com a maioria. Mas não quero imaginar as "batalhas" que as vossas famílias travaram convosco para conseguirem este feito: a maioria da turma realizou praticamente todo o livro que vos escolhi. Dou-vos os parabéns, o que vos deixa imensamente orgulhosos; outros desejam poder voltar atrás no tempo, para trabalharem no que faltava (pelo menos naquele momento, ali na nossa sala).

Já sei como este tema de T.P.C. é sempre tão delicado. Como tantos de vocês fazem aquela encenação magnífica do "Nãããããõoooo!!", quando brinco sobre não haver trabalhos de casa, mas depois recebo feedback das vossas famílias, denunciando preguiças.


"Quando trabalhamos, Pipa?"

Falamos sobre o 3.º ano. Fazem-me perguntas sobre o que vamos aprender e estão ansiosos por matérias novas. Não se assustam quando vos digo que o 3.º ano é o mais difícil do 1.º Ciclo, que têm de crescer, estudar mais e estar com mais atenção.

O que mais querem saber é quando é que vos ensino a usar o dicionário e o compasso. (Alguns dizem que algum familiar já vos ensinou. Batoteiros.)

Querem saber quando começaremos a ler o Pinóquio, a dar os planetas e o corpo humano.

Distribuo-vos os separadores para o nosso "dossiê da escola" e as folhas de organização para o nosso "dossiê de casa". Inundam a sala com aquelas vossas exclamações PERFEITAS sobre cada imagem que escolhi "a dedo" para cada folha. Fazem valer todos os segundos passados ao computador e querem pintar os desenhos já neste dia. Mas depois "apontam-me o dedo" porque vos formatei a serem exigentes na escola: a folha do comportamento tem dois dias a mais, enganei-me. (Logo a seguir dizem que não faz mal; também vos formatei assim.)


"Não me diga que hoje não vamos trabalhar..."

Na hora do recreio, não querem ir lá para fora. Tentam negociar que fiquemos na sala. Sem negócio. Precisam de saltar, de conversar em grupos e de pôr as brincadeiras em dia.

No segundo dia, recebem o nosso novo elemento. Recebem-na tão bem! Apresentam-se, rodeiam-na nos recreios e envolvem-na connosco. Tenho orgulho em vocês. (Apenas dispensava as conversas de namoros que vocês adoram e os pedidos que já rascunham às minhas escondidas!)

Nos dias seguintes, chega a altura de vos "diagnosticar". São os dias de terror de qualquer professora de primeiro ciclo, porque vocês gostam de nos convencer que foram atacados por um "apagão". E eu só sei que vocês aprenderam determinados conteúdos porque fui a vossa professora dos dois anos anteriores. Caso contrário, iria duvidar porque não se lembram de metade deles!

Fico agradavelmente surpreendida a Matemática - salvaguardando que ainda não fizemos exercícios particularmente difíceis. (Só não me façam falar sobre o diagnóstico breve que vos fiz de tabuadas!)

A Português, vieram a dar mais erros ortográficos. (Socorro, concentrem-se!) De gramática logo se verá... Mas é sempre aquela parte a que todos conseguem chegar, mesmo sem grande esforço (não vos posso dizer isto em voz alta).

Em Estudo do Meio não diagnostico. Em vez disso, "injeto-vos" conceitos como freguesia, concelho e distrito (Bem-vindos ao 3.º ano!). Guardamos o corpo humano para daqui a mais um bocadinho...

Mas se há coisa de que vocês não se esquecem é das nossas regras. De que eu não brinco; ou que brinco, mas nos momentos certos. De que enlouqueço com folhas sujas, palavras riscadas, letras feias e trabalhos feitos à pressa. De que perdoo pouco as falhas de responsabilidade e os esquecimentos repetidos. Que vos exijo sempre a verdade e a capacidade de pedir desculpa, e que sejam colegas maravilhosos uns com os outros mesmo que não gostem tanto de algum; nunca me ouviram nem ouvirão dizer que têm de gostar de todos da mesma forma.

E depois sabem das nossas outras "regras", que também são tantas... De que têm sempre um colo disponível, um abraço que não precisa de motivo, que adoro a vossa mania de quererem fazer massagens (quem se lembraria de tal coisa?), que às vezes não resisto aos vossos pedidos de me fazerem companhia enquanto corrijo trabalhos na hora de almoço, que sou muito feliz convosco e que vocês são uma fatia ENORME da minha vida. E que estou sempre atenta aos vossos progressos, que ouvirão sempre um elogio no momento certo e que a melhor nota não é "cor-de-rosa" mas a que revela o vosso esforço máximo. Que ADORO o privilégio de vos ensinar tantas matérias pela primeira vez e de participar na construção do vosso futuro.

Não tenho ano preferido. Vocês eram os meus preferidos no 1.º ano, quando choravam por tudo e por nada, quando tinham de ser recordados de que não podiam levantar-se sem autorização ou falar fora da sua vez e quando a vossa maior conquista era fazer bonita a nova letra aprendida.

Eram os meus preferidos no 2.º ano, quando começaram a crescer, a escrever composições grandes, a fazer problemas complicados e a querer saber qual era o maior número que iríamos aprender.

São os meus preferidos no 3.º ano, quando vos vou exigir um salto de maturidade como nunca e ver-vos lutar mais do que estão habituados para atingir os objetivos; ou quando agora olham de lado para os alunos de 7.º ano que roubam abraços à vossa professora (Desculpem... mas eles também são os meus preferidos!).

E serão os meus preferidos no 4.º ano, quando começarem a achar que são adolescentes e eu tiver de vos explicar que ainda não.

(Só não serão os meus preferidos no último dia do 4.º ano. Mas isso é outra história e eu não quero falar nela.)

Adoro isto. Com toda a minha alma, continuo a ADORAR isto. Continuo fã desta profissão, do quão realizada esta me faz sentir tantas e tantas vezes... E a culpa é vossa, ó meus preferidos!

sábado, 8 de setembro de 2018

Querido step,



Querido step,

Conhecemo-nos em dezembro de 2016, na minha primeira aula de Bodystep. Devo dizer-te que não foi exatamente amor à primeira vista. A Marta fez parecer tudo muito fácil e dois dias depois foi a vez da Filipa fazer o mesmo, mas...

Quando a Marta ia para a direita, eu ia para a esquerda. Quando a Filipa ia para baixo, eu ia para cima. E, quando faziam "cha-cha-cha", eu parava para tentar perceber o que se passava nos pés delas. 

Quando, finalmente, atinava com um "att" ou um "ott", o passo mudava. E nem vou referir o que se passava entre nós os dois quando andava à tua volta e tinha a certeza de que conseguia a proeza de marchar e saltar sempre na direção contrária à de toda a gente. 

Ia para casa desanimada, é certo que totalmente contagiada pela energia de cada uma delas, mas a achar que isso não me chegava. Mesmo quando elas diziam "Bora, Filipa!" ou "Eu não vi!", tornando tudo mais humano, mais pessoal.

(Vamos ter em conta que não fazia exercício físico há 15 anos, o que igualmente contribuiu para alguma desmotivação. E a conversa de que me sentiria melhor em breve começava a cheirar mal. As dores de pernas durante dias que o dissessem.)

Querido step, eras a minha frustração e elas a minha inspiração. Um braço de ferro. Muita persistência. Uma vontade enorme de levar até ao fim a decisão de ter entrado no ginásio, por mim; só por mim.

E a vitória do braço de ferro pendeu para aquele lado, o do palco.

A magia começou a acontecer a partir do lançamento do Bodystep 107. Cada ponto do meu cérebro se focou em conhecer-te melhor, em conhecer-me melhor. Comecei a saber corresponder a um "shuffle", aos "att" e "ott", ao "Jack", ao "cha-cha-cha" e a muitos outros. Até àquele que faz lembrar "strudel" de maçã!

Comecei a gritar "Hei!" nos saltos, a decorar coreografias e a acompanhar as músicas. Passei a gostar de ti, step! Um amor à "segunda vista", mas incondicional, confesso-te.

E depois vieram amizades com quem estava à minha volta. Algumas que se chegam mesmo a estender agora para lá das paredes do ginásio.

Mal sabia, querido step, que tinhas reservado isto tudo para mim e que te tornarias numa parte tão abrangente e significativa da minha vida. Um "amigo" dos dias bons e menos bons. Uma companhia perfeita imediatamente a partir daqueles primeiros segundos, quando começa a "All the right moves" (talvez a minha preferida), ou a "Respectable" (mesmo com aquela cena maluca dos braços), "Welcome to my house" (voltinhas já sempre para o lado certo, à primeira), "Sorry not sorry" (decide-te Demi Lovato!) e dezenas de outras faixas 1.

Adoro cada faixa e canto. Canto mesmo. E mesmo quando posso estar a dizer um disparate porque, querido step, tu achas que eu sei o que quer dizer "rock the casbah" ou "we are, we are, we are sure fire winners"? (Mas isso interessa? Nada.)

E aquela cereja no topo do bolo?! Aqueles picos 10 em que a alma sai do corpo, mal oiço "I control!" (o meu 10 favorito) ou aquele "Poison" (o meu primeiro 10), quando o gráfico do Polar A360 se torna vermelho e eu sei que estou a dar tudo, num esforço final, embora não queira nunca que essa faixa acabe.

Sinto-me agora melhor do que nunca - corpo e alma. As pernas sobem escadas com a maior das facilidades e já não me lembrava do que era não ter de parar para recuperar o fôlego. A minha alma está completa, orgulhosa.

Obrigada, querido step. Teremos uma longa relação pela vida fora...

Bodystep for life!