Nesta noite alentejana de sexta-feira, abri a janela e fui acometida de uma vontade incontrolável de escrever, num desafio de definir o cheiro que senti. Perda de tempo. Quero arranjar palavras para ele e não consigo. É forte. É intenso. É único. E eu poderia reconhecê-lo de olhos fechados. Aliás, é mesmo assim que mais gosto de o sentir. Gosto quando ele entra, sem a concorrência dos outros sentidos. Nunca vem de mansinho. É explosivo no que provoca, apaziguador no que faz sentir e doce nas memórias que reproduz. Cheira a esta aldeia alentejana cujo nome não preciso de escrever. Quem a conhece como eu sabe exatamente onde a encontrar.
Aqui fui feliz, sou feliz e continuarei a ser. É um lugar seguro para a alma, no tempo quente, no tempo frio e no tempo assim-assim. Onde o sol nos aquece de uma maneira diferente e a chuva nos apazigua de uma forma muito sua. Onde a beleza do sol está na cor dos campos e a da chuva está num alpendre seguro, rodeado por ela, mesmo que embrulhada num cobertor.
Há o cheiro do sol e o cheiro da chuva. O cheiro do vento e das lareiras. E há o cheiro da noite.
Há o cheiro da nossa casa, dos nossos móveis e dos nossos lençóis.
Aqui fui feliz, sou feliz e continuarei a ser. É um lugar seguro para a alma, no tempo quente, no tempo frio e no tempo assim-assim. Onde o sol nos aquece de uma maneira diferente e a chuva nos apazigua de uma forma muito sua. Onde a beleza do sol está na cor dos campos e a da chuva está num alpendre seguro, rodeado por ela, mesmo que embrulhada num cobertor.
Há o cheiro do sol e o cheiro da chuva. O cheiro do vento e das lareiras. E há o cheiro da noite.
Há o cheiro da nossa casa, dos nossos móveis e dos nossos lençóis.
Cheguei aqui há quase 30 anos.
Não, não...
Foi este "aqui" que me chegou a mim há quase 30 anos.
Trouxe cá algumas das pessoas que eram das mais importantes da minha vida, nos momentos em que as trouxe: a Joana aos meus 9 anos, a Sara aos meus 11, a Vâni e a Sofi aos 20, depois outra vez aos 21, mais o nosso grupo do trabalho do Museu dos Coches, como a Cré, e éramos 5 ao mesmo tempo. A Sandra e a Rita, para uma semana de estágio, a Paty e a Inês, que estava grávida sem saber.
Passaram por aqui amigos da família e outros familiares. Tanta gente.
A passagem de ano onde enchemos as 9 camas com 12 pessoas.
Na infância e na adolescência, foram as vindimas, a festa, as procissões e a garraiada. Andei dezenas de vezes na carroça puxada pelos bois, que levava os bidões cheios de uvas para a adega do tio Jorge. Cheguei a pisar uvas, mas não gostei. Nem do cheiro da adega, durante o seu expoente máximo de ação. Gostava de apanhar as uvas para um balde e de me empoleirar na carroça cheia. Gostava mais ainda quando a carroça regressava à vinha vazia, e aí já cabíamos todos. E nunca cheguei a gostar de vinho.
Fumei aqui pela primeira (e última) vez, aos 13 anos. Fugi, aos berros, da minha primeira cobra em liberdade e aprendi a apanhar rãs com as minhas próprias mãos. Explorei a aldeia com a Ana, que é prima, até conhecermos cada recanto de cor. E também aprendi a passear sozinha, confiante e sem medos. Convivi com ela, com as amigas que trazia a casa dos seus avós e com os outros primos. O Tiago, o João, a Sofia, a Raquel, e os amigos deles. E tantas vezes levava o meu atreladinho, o mano.
Dormimos todos na casa da vinha uma noite. Morri de medo. Não tinha eletricidade, fomos a pé pelo campo às escuras, levados pelo tio Mário, e passámos horas na eira, deitados no chão, a olhar para as estrelas, em pijama. Ainda hoje acredito que, nessa noite, vi um OVNI a descrever um percurso em "z" no céu e a desaparecer rapidamente. Ninguém me tira essa ideia da cabeça.
Dormimos, não sei bem como, quatro miúdas numa cama. No outro quarto ficaram os rapazes. E fomos ouvir através da porta as conversas que tiveram sobre os engates daquela noite, na festa do castelo. (Sim... uma aldeia tão pequenina, mas que tem um castelo!)
E havia o Pedro e a Joana, netos da prima Raquel. Eram especiais porque sim, e dos que mais me lembro de ver por cá. Tinham uma paciência de santo para nós, quando éramos miúdos. Eram divertidos, cantavam, diziam piadas, passeavam connosco. Eram dedicados à família. Havia "a Teresa e o Álvaro", "a Lídia e o Zé Manel" (sempre enunciados aos pares porque eles eram assim mesmo), o João, o Manuel. Que ramo da família tão caloroso, tão único. Que saudades daqueles dias, daqueles convívios e daquelas refeições com mesas cheias e improvisadas, onde cabia sempre, sempre mais um.
A tia João e o tio Jorge, a receberem-me como a uma neta. Os cozinhados lá de casa, que era o sítio onde, nesta aldeia, melhor se comeu sempre. As migas e a "torta da avó" do almoço. A boleima e as torradas com chocolate granulado da Holanda, do lanche. As batatas fritas com um sabor único. Uvas, melancia e romãs. A groselha que nunca entendi que o meu irmão gostasse. E os peixinhos da horta, que na altura ainda não tinha descoberto. Dormir lá em casa, no quarto da Ana, para variar, era mais uma animação. E havia aquela porta do último andar, que ia dar à parte de cima da cozinha, a uma plataforma perigosa mas muito atrativa. E a casa do outro lado do quintal, onde podíamos brincar à vontade. E a tia Graça, o Fábio, o Diogo, o tio João, a tia Luísa. O tio Mário e as suas histórias. As nossas reuniões espontâneas à roda da mesa de plástico. Mais um lugar onde sempre coube mais um. O avô Manel e o tio Pedro.
Trabalhava lá a "Luísa do Coraçõ", para quem as crianças da nossa família eram a maior luz que se lhe podia dar. Recebia-nos com o seu "Eh, coraçõõõ!", e depois vinham os beijos em que nos picava com os pelos da cara. Aliás, à semelhança de quase todas as senhoras daqui. Tentávamos escapar tantas vezes, mas não nos deixavam. Chamavam-nos. Bastava que, em algum momento, tivessem privado com a infância dos nossos avós ou dos nossos pais para nos exigirem esses cumprimentos. E nós dávamos, para depois nos irmos embora a rir. Após o inquérito, claro: "Vierem com quem?"; "Quem são os meninos?"; "Atão o avô ficou em Lisboa?"; "E esta caspinha, quem é?" (aprendi tarde que não era um insulto); "São netos do sr. almirante ou do sr. engenheiro?"; "É filha da Paula ou do Pedro?"...
À frente, havia "o Vizinho", com as suas histórias de encantar... da cobra que o "hintopsiou", das abelhas, dos javalis. Ele adorava que eu gostasse tanto de saber sempre mais. E queríamos tanto andar nos seus burros, mas estávamos tão instruídos para não lho pedir e limitarmo-nos a aceitar a oferta, quando esta viesse...! Eram o Bogalhinho e o Sassá. Quem diria que estes nomes ainda aqui estariam, ao fim de cerca de 25 anos. Ainda andámos algumas vezes e, na hora, tornava-se o melhor momento da estadia. Os seus cascos a escorregar pelas pedras da calçada, num aperto permanente, e com as moscas a poisarem-nos em cima...
Havia a prima Belmira, que morreu aos 104 anos. Batíamos-lhe à porta e queríamos entrar e conversar. Gostava tanto de toda a gente! E, quase até ao fim, soube quem era cada um de nós, e corrigia-o à prima Mariana, quando a acompanhava. Sempre sorridentes. Mais a Mercês e o Tó.
Na garraiada, passávamos toda uma tarde a assistir às pegas das vacas. Os homens gritavam "Vaca, vaca, vaca!", e elas corriam para eles. Mal se abria a porta para entrar mais uma, a correr desorientada no recinto, ouviam-se exclamações animadas, numa avaliação do que se iria passar a seguir... "Esta é fina!"... "Esta é fraquinha"... "É só um vitelo...". E, secretamente, estávamos sempre a desejar que a coisa desse para o torto, que houvesse sangue à séria, que a ambulância que estava de guarda tivesse de intervir. Mas nunca chegou a dar (e ainda bem).
Na vinha dos tios, tínhamos o tanque que, quando não estava sujo e cheio de rãs e salamandras, se transformava numa piscina. Na nossa piscina. Mesmo que tivéssemos de esperar horas até estar cheio, e mesmo que desse trabalho negociar até que altura o podíamos encher... Nesses momentos, o tanque continha toda a felicidade do mundo e o pior era a hora de sair.
Cá em casa, esta construção reerguida ao longo de anos, de ruínas de quase nada e de uma história que não era nossa, éramos os quatro. Durante anos tivemos ainda a companhia do Afonso, nas suas quatro patas. Vínhamos quase todos os fins-de-semana. Preenchíamo-nos uns aos outros.
Comíamos o pão feito pouco tempo antes, se cedo, com a manteiga ainda a derreter. A padaria fechou no ano passado e agora convivo com o medo de me vir a esquecer do sabor do pão, que não mais encontrarei em parte alguma.
Nesta mesma casa, também cabiam todos. Sobretudo no alpendre. Aqui, jogava-se snooker ou exploravam-se os caixotes dos brinquedos que trouxemos para o sótão - o sótão onde construí uma parede de latas ao longo de anos... milhares de latas. Jogávamos o Sonic, o Bomberman, o Toy Story e o Tom & Jerry, na Sega Mega Drive. Refrescávamos-nos de mangueira no quintal e chegámos a passar lá uma noite acampados numa tenda - eu e o meu irmão. A nora ainda funcionava e o mistério de como será para lá do poço permanece até hoje. Tal como a história que se contava na aldeia, do tesouro enterrado aqui em casa; se o Manel o encontrou durante as obras, nunca nos disse. Mas desenterrámos ossadas antigas, que a minha mãe garante serem de criança. Histórias anteriores a nós, da família a quem comprámos a casa.
Às vezes, o meu irmão esgueirava-se para a "mercearia do sr. Engenheiro", onde este lhe falava de números e o desafiava no cálculo mental.
De bicicleta, pedalávamos por toda a aldeia, repetidamente até ao campo de futebol e, a medo, até um pouco mais à frente, ao cemitério, mas nunca depois do pôr-do-sol.
Às vezes, fazíamos amizade com as crianças que cá moravam e aprendíamos a ver a vida de uma dimensão bem diferente daquela que trazíamos entranhada. Reposicionámo-nos no mundo, com essas experiências, e chegámos a arranjar namoros de um dia.
A festa anual, em honra da padroeira... Todos à praça do castelo! Para o bailarico, copos e o convívio descontraído. Aprendi o que era a "música pimba". Não dançava, mas assistia à animação do espaço, a tanta gente junta ao mesmo tempo - a de cá e a que vinha de longe.
Lembro-me do ano do Emanuel, com o repertório desconhecido, mas o "Nós pimba", e do ano da Ágata, com o repertório desconhecido, mas o "Perfume da outra mulher". O ano dela, que faz agora exatamente 20 anos, foi inesquecível - a organização da festa pediu para que a nossa casa fosse o seu camarim. Recebemos a Ágata e a sua família e isso foi hilariante e memorável. Vestiu-se aqui e deu de mamar ao Francisco - "O puto mama comó caraças!", disse ela. Trouxe o pai, um senhor que confessou não gostar daquelas roupas nem das da neta Romana, e uma irmã com namorado, que se perdiam em beijos excessivos.
No tempo da festa, na hora em que já queríamos dormir, entrávamos na cama a amaldiçoar o Nuno José, do órgão, que tocava madrugada adentro, e jurávamos não regressar na mesma altura do ano seguinte. Mas, durante algum tempo, regressámos sempre. Anos mais tarde, só eu, a mais resistente. Gostava mesmo de me perder naquele ambiente e de rever pessoas que não encontrava noutro sítio, ou que encontrava mas não com este espírito. À exceção dos bêbedos que, ao fim da festa, seguiam aos gritos e gargalhadas pela nossa rua, agarrados às paredes e a bater às portas todas pelo caminho (e a nossa casa tem 4 portas!).
Sempre me perguntaram se não tinha medo de aqui estar sozinha, "naquela casa tão grande". Não sabem o significado da palavra "conforto", deste "conforto". Isto não se explica.
Um dia, veio a São, que era figura pública, e que foi por isso que tanto a quis conhecer. À semelhança da maioria das crianças, eu pensava que estas pessoas não existiam para lá dos ecrãs. Então, aquele dia em que isso aconteceu permanece gravado na memória da miúda de 10 anos que eu era nesse momento exato. Lembro-me que ela estava a recompor-se das lágrimas da procissão. E que era tão alta! Que me recebeu como se já nos conhecêssemos, num sorriso de orelha a orelha, que trazia o marido, com quem acabara de casar, e que estávamos no largo da igreja, em setembro de 1994. A partir desse dia, à nossa entrada na aldeia, obrigava o meu pai a abrandar, para me deixar olhar para o cimo da rua e saber se ela estava cá. E, quando estava, era a alegria suprema.
No ano seguinte, 95, foi a vez da Matilde chegar. E instalou-se definitivamente na minha vida quando estava prestes a chegar aos 3 anos. Setembro de 1998.
Era sempre em setembro que tudo acontecia. E foi também em setembro que a São deu o passo decisivo para se quebrar a tradição desse mês, ao escolher incluir uma miúda de 14 anos nalguns momentos da vida familiar. O Carlos, a D.ª Antónia, o Sr. Mário... Passei a ser recebida nas suas casas como se fosse parte da família, cá e lá. Aqui na aldeia, havia sempre lugar para mim nas suas rotinas e isso era fascinante.
(Nesse ano, a São levou-me ao canal onde trabalhava e onde se mantém; apresentou-me apresentadores e jornalistas, depois de me ter ido buscar ao colégio. O verdadeiro sonho para a adolescente que eu era naquela altura. E claro que, temporariamente, andei a apregoar que seguiria jornalismo.)
E a Matilde. Sempre a Matilde... A corrida desenfreada para aquele abraço apertado, que quase me esganava quando nos revíamos, a monopolização da minha atenção, sempre que me tinha por perto, as suas conversas intermináveis ao telefone (que ainda era fixo)... Como eu adorava aquela miúda. Estava sempre desejosa de a ver.
Depois, chegou a Maria Luísa, uma criança sensível e inocente, nos seus caracóis. Tão especial também! Que me conquistou facilmente ao me saltar tão depressa para o colo. Por quem sofri naquela festa em que, mesmo à minha frente, partiu uma taça de loiça nas mãos, acabada de ganhar nas rifas, pela teimosia de a querer levar. (Acabou no hospital mais próximo, a levar pontos.)
O tempo que eu dedicava, de coração, àquelas duas irmãs, tão diferentes mas tão iguais na doçura e na competição para ver quem ganhava a minha atenção primeiro. As horas seguidas que passávamos juntas, sempre que nos encontrávamos... E a Marta, entre ambas. Mais a avó da Marta, que conheci bem, mas que partiu cedo demais.
Foi a tudo isto que me cheirou quando abri a janela esta noite. Era isto que eu queria escrever, sobre este cheiro, que é um poço de memórias doces. Se alguma é triste, já a esqueci (menos a mão da Luísa).
Tenho comigo tudo o que de feliz vivo por cá. O bem que me faz à alma, o quão tranquila e completa me faz sentir. E, quando venho sozinha, o quanto "medito" aqui e aprecio a minha própria companhia.
Tenho comigo tudo o que de feliz vivo por cá. O bem que me faz à alma, o quão tranquila e completa me faz sentir. E, quando venho sozinha, o quanto "medito" aqui e aprecio a minha própria companhia.