quarta-feira, 19 de setembro de 2018

E a culpa é vossa!


Recomeçámos na semana passada. A emoção daquele primeiro abraço... de vos querer abraçar a todos ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, querer o abraço de cada um. Olhar para os vossos olhos a brilhar, ver-vos dar aquela corridinha para ver quem chega primeiro...

E o primeiro dia é assim.  

Entramos, deixo-vos sentar onde querem, e vocês já sabem que é por um dia ou dois. Já não vos engano com a conversa de que vos estou a dar um voto de confiança. Conheço-vos bem demais para isso e vice-versa. Vocês brincam com a situação e assumem que o esforço seria tão grande que mais vale prevenir. Já não tentam negociar comigo porque, nos dois anos anteriores, ficou bem claro que não sou de negócios.

Passam a manhã a perguntar quando vamos trabalhar. Não querem organizar dossiês, não querem conversar sobre o 3.º ano, nem querem que chegue a hora do recreio. Querem TRA-BA-LHAR.


"Pipa, já podemos começar a trabalhar?"

Conversamos sobre as férias e deixo-vos escolher três coisas para partilharem em turma. Um diz que uma das que mais gostou foi de fazer os TPC, e a moda pega entre mais alguns. (Os "meus bebés" que ainda acham que caio nessa.)

E depois faço-vos a pergunta cuja resposta não quero exatamente saber. Pergunto-vos pelo livro dos trabalhos de férias; aqueles exercícios que vos ajudam a não perder totalmente o ritmo ao longo de quase três longos meses de férias... Alguns retraem-se, outros orgulham-se. E, quando vejo a pilha de livros e os folheio a todos, fico agradavelmente surpreendida com a maioria. Mas não quero imaginar as "batalhas" que as vossas famílias travaram convosco para conseguirem este feito: a maioria da turma realizou praticamente todo o livro que vos escolhi. Dou-vos os parabéns, o que vos deixa imensamente orgulhosos; outros desejam poder voltar atrás no tempo, para trabalharem no que faltava (pelo menos naquele momento, ali na nossa sala).

Já sei como este tema de T.P.C. é sempre tão delicado. Como tantos de vocês fazem aquela encenação magnífica do "Nãããããõoooo!!", quando brinco sobre não haver trabalhos de casa, mas depois recebo feedback das vossas famílias, denunciando preguiças.


"Quando trabalhamos, Pipa?"

Falamos sobre o 3.º ano. Fazem-me perguntas sobre o que vamos aprender e estão ansiosos por matérias novas. Não se assustam quando vos digo que o 3.º ano é o mais difícil do 1.º Ciclo, que têm de crescer, estudar mais e estar com mais atenção.

O que mais querem saber é quando é que vos ensino a usar o dicionário e o compasso. (Alguns dizem que algum familiar já vos ensinou. Batoteiros.)

Querem saber quando começaremos a ler o Pinóquio, a dar os planetas e o corpo humano.

Distribuo-vos os separadores para o nosso "dossiê da escola" e as folhas de organização para o nosso "dossiê de casa". Inundam a sala com aquelas vossas exclamações PERFEITAS sobre cada imagem que escolhi "a dedo" para cada folha. Fazem valer todos os segundos passados ao computador e querem pintar os desenhos já neste dia. Mas depois "apontam-me o dedo" porque vos formatei a serem exigentes na escola: a folha do comportamento tem dois dias a mais, enganei-me. (Logo a seguir dizem que não faz mal; também vos formatei assim.)


"Não me diga que hoje não vamos trabalhar..."

Na hora do recreio, não querem ir lá para fora. Tentam negociar que fiquemos na sala. Sem negócio. Precisam de saltar, de conversar em grupos e de pôr as brincadeiras em dia.

No segundo dia, recebem o nosso novo elemento. Recebem-na tão bem! Apresentam-se, rodeiam-na nos recreios e envolvem-na connosco. Tenho orgulho em vocês. (Apenas dispensava as conversas de namoros que vocês adoram e os pedidos que já rascunham às minhas escondidas!)

Nos dias seguintes, chega a altura de vos "diagnosticar". São os dias de terror de qualquer professora de primeiro ciclo, porque vocês gostam de nos convencer que foram atacados por um "apagão". E eu só sei que vocês aprenderam determinados conteúdos porque fui a vossa professora dos dois anos anteriores. Caso contrário, iria duvidar porque não se lembram de metade deles!

Fico agradavelmente surpreendida a Matemática - salvaguardando que ainda não fizemos exercícios particularmente difíceis. (Só não me façam falar sobre o diagnóstico breve que vos fiz de tabuadas!)

A Português, vieram a dar mais erros ortográficos. (Socorro, concentrem-se!) De gramática logo se verá... Mas é sempre aquela parte a que todos conseguem chegar, mesmo sem grande esforço (não vos posso dizer isto em voz alta).

Em Estudo do Meio não diagnostico. Em vez disso, "injeto-vos" conceitos como freguesia, concelho e distrito (Bem-vindos ao 3.º ano!). Guardamos o corpo humano para daqui a mais um bocadinho...

Mas se há coisa de que vocês não se esquecem é das nossas regras. De que eu não brinco; ou que brinco, mas nos momentos certos. De que enlouqueço com folhas sujas, palavras riscadas, letras feias e trabalhos feitos à pressa. De que perdoo pouco as falhas de responsabilidade e os esquecimentos repetidos. Que vos exijo sempre a verdade e a capacidade de pedir desculpa, e que sejam colegas maravilhosos uns com os outros mesmo que não gostem tanto de algum; nunca me ouviram nem ouvirão dizer que têm de gostar de todos da mesma forma.

E depois sabem das nossas outras "regras", que também são tantas... De que têm sempre um colo disponível, um abraço que não precisa de motivo, que adoro a vossa mania de quererem fazer massagens (quem se lembraria de tal coisa?), que às vezes não resisto aos vossos pedidos de me fazerem companhia enquanto corrijo trabalhos na hora de almoço, que sou muito feliz convosco e que vocês são uma fatia ENORME da minha vida. E que estou sempre atenta aos vossos progressos, que ouvirão sempre um elogio no momento certo e que a melhor nota não é "cor-de-rosa" mas a que revela o vosso esforço máximo. Que ADORO o privilégio de vos ensinar tantas matérias pela primeira vez e de participar na construção do vosso futuro.

Não tenho ano preferido. Vocês eram os meus preferidos no 1.º ano, quando choravam por tudo e por nada, quando tinham de ser recordados de que não podiam levantar-se sem autorização ou falar fora da sua vez e quando a vossa maior conquista era fazer bonita a nova letra aprendida.

Eram os meus preferidos no 2.º ano, quando começaram a crescer, a escrever composições grandes, a fazer problemas complicados e a querer saber qual era o maior número que iríamos aprender.

São os meus preferidos no 3.º ano, quando vos vou exigir um salto de maturidade como nunca e ver-vos lutar mais do que estão habituados para atingir os objetivos; ou quando agora olham de lado para os alunos de 7.º ano que roubam abraços à vossa professora (Desculpem... mas eles também são os meus preferidos!).

E serão os meus preferidos no 4.º ano, quando começarem a achar que são adolescentes e eu tiver de vos explicar que ainda não.

(Só não serão os meus preferidos no último dia do 4.º ano. Mas isso é outra história e eu não quero falar nela.)

Adoro isto. Com toda a minha alma, continuo a ADORAR isto. Continuo fã desta profissão, do quão realizada esta me faz sentir tantas e tantas vezes... E a culpa é vossa, ó meus preferidos!